Rachel, Rachel: Primeiro filme de Paul Newman na direção esbanja delicadeza

“Rachel, Rachel”, de 1968, o primeiro dos seis filmes que o grande Paul Newman dirigiu na vida, é todo feito de sensibilidade, delicadeza – e tristeza. Embora profundamente triste, o filme é também uma forma de elegia do autor à mulher com quem viveu durante exato meio século: a câmara demonstra um profundo amor por Joanne Woodward – e a atriz retribui com uma interpretação estonteantemente comovente.

Joanne Woodward desfia diante da câmara uma ampla gama de sentimentos, sensações, estados de espírito: tristeza, medo, espanto, raiva, surpresa, frustração, ansiedade, expectativa, alegria, revolta.

E Paul Newman não se furta a mostrar o rosto da atriz em grandes close-ups. Muito ao contrário – ele abusa dos close-ups.

Tem todo o direito. E o resultado é de fato emocionante.

Que figura fascinante este senhor, um dos melhores atores de toda a História do cinema. Apaixonado por carros de corrida, piloto em diversas competições, inclusive a legendária 24 Horas de Les Mans, dono de uma escuderia de Fórmula Indy, intérprete de personagens machos, raçudos, rebeldes, muitas vezes violentos – como, para lembrar só uns poucos exemplos, o revolucionário Emiliano Zapata em Viva Zapata!, o criminoso Juan Carrasco em “Quatro Confissões”/The Outrage, o renegado John Russell emHombre, o prisioneiro rebelde Luke em “Rebeldia Indomável”/Cold Hand Luke –, como diretor dedicou-se a histórias centradas em personagens femininos.

“Rachel, Rachel” poderia perfeitamente ter sido dirigido uma mulher.

Não estou querendo dizer – é claro, é óbvio – que só mulheres sabem fazer filmes sobre o universo feminino, ou que é preciso ser negro para saber fazer filmes sobre os negros, etc, etc. Só quis realçar como é fascinante que um ator tão associado a coisas do homem machão tenha, como autor, optado por esse caminho.

Uma solteirona inexperiente, que ainda mora com a mãe mandona

“Rachel, Rachel”  se baseia no romance “A Jest of God”, da escritora canadense Margaret Laurence (1926-1987), publicado em 1966. (Jest, não me lembrava da palavra, é brincadeira, zombaria – a brincadeira de Deus, título forte pra caramba.)

No filme, com roteiro de Stewart Stern, Rachel é uma mulher de 35 anos que ainda vive como se fosse uma adolescente dos tempos antigos, pré-anos 1950, quando os filhos tinham que obedecer cegamente aos pais.

Professora de escola primária em uma pequenina cidade rural (não se especifica exatamente onde ela fica, mas é na Nova Inglaterra, os estados mais antigos e ricos e desenvolvidos do Norte da Costa Leste), solteirona, virgem, inexperiente de tudo em matéria de relacionamentos com homens, com sexo, ela vive com a mãe (interpretada por Kate Harrington), pessoa de personalidade dominadora.

No meio exato da vida (ela diz que se sente assim, em um dos belos diálogos do filme), Rachel ainda tem que dar satisfações à mãe sobre a hora em que volta para casa; ainda tem que preparar os sanduíches e as bebidinhas para a rodada semanal de cartas em que a mãe recebe três amigas.

É boa professora, os alunos a respeitam, e ela gosta deles – mas, ao mesmo tempo, às vezes se pega odiando aquela escola, querendo sair dali, do lugarejo onde nasceu, cresceu e viveu sempre.

Às vezes tem pensamentos em que ela não é como ela mesma é – imagina uma Rachel mais corajosa, mais durona, mais rebelde do que é de fato. Às vezes tem pensamentos sobre sexo – e todas as vezes se assusta por estar pensando aquelas coisas na verdade tão distantes de sua vida, do seu jeito de ser.

Muitas vezes se revê garotinha, ali pelos dez anos de idade.

(Nessas sequências, Rachel é interpretada por Nell Potts, uma garotinha linda, lourinha e de faiscantes olhos azuis, como são os de Joanne Woodward. Juro que me ocorreu, enquanto via o filme, que talvez aquela garotinha fosse filha de Paul Newman e de Joanne Woodward – e vejo agora, no IMDb, que de fato ela é filha do casal. Nell Potts só trabalharia em um outro filme, além de neste aqui: “O Preço da Ambição”/The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds, de 1972, outro dos seis filmes dirigidos por Paul Newman, e que também tinha Joanne Woodward como a protagonista.)

Quando garotinha, Rachel sofria bullying dos colegas 

Pouco a pouco, nesses flashbacks que mostram Rachel garotinha, o filme vai contando para o espectador que o pai dela, Niall Cameron (Donald Moffat), era o dono da funerária do lugarejo.

Aos 35 anos de idade, no meio da vida, vivendo – como ela mesma diz a Calla (Estelle Parsons), amiga e colega, também professora na escola primária – o último verão ascendente, porque todos os seguintes seriam verões em que estaria descendo cada vez mais para perto do túmulo, Rachel volta e meia se lembra da Rachel garotinha que ela havia sido. Uma garotinha que convivia com a morte, já que cuidar dos mortos era o ofício do pai.

(O IMDb traz a frase original que Rachel diz. É impressionante, e então transcrevo: “I’m exactly in the middle of my life. This is my last… ascending summer. Everything else from now on is just rolling downhill into my grave”.)

Numa sequência particularmente cruel, a menina Rachel caminha pelas ruas da sua cidadezinha enquanto os demais garotos de sua idade entoam em coro a frase apavorante: “Slaughter, slaughter the undertaker daughter”. Há frases que perdem demais, que perdem absurdamente na tradução, e esta é uma delas. “Assassinem, assassinem a filha do homem da funerária” não apenas perde a rima, como também perde o rumo, o prumo e a violência quase sádica da agressão das crianças.

E aqui me permito uma rápida digressão. Como é poderosa a língua inglesa! Não temos, na última flor do Lácio, uma palavra para undertaker; temos que usar a forma ampla, agente funerário.

E confesso que só foi hoje, já bem velho, ao ver Rachel, Rachel, que percebi como é formada a palavra undertaker. Claro, faz décadas que sei que undertaker é agente funerário. Mas foi só ao ver Rachel, Rachel, ao ouvir Rachel dizer que nos verões seguintes ela estaria descendo cada vez mais para perto do túmulo, ao ouvir a frase apavorante “slaughter, slaughter the undertaker daughter”, que percebi que a palavra é de uma obviedade brutal. Undertaker é a pessoa que vai levar os outros para debaixo, para under – debaixo da terra, ashes to ashes, tu és pó e ao pó voltarás.

Rachel vive no segundo andar do imóvel em que, no térreo, convive-se com os mortos

Me lembro aqui, no momento em que faço esta anotação, de dois filmes que falam sobre agentes funerários. Um é “Meu Primeiro Amor”/My Girl, de 1991, um filme para todas as idades, uma comedinha agradável, fofa, em que a personagem central, a garotinha Vada (Anna Chlumsky), é filha do undertaker interpretado por Dan Aykroyd. O outro é o sensacional, magnífico japonês “A Partida”, de Yôjirô Takita, em que um jovem recém-casado violoncelista perde o emprego e só consegue uma vaga como preparador de mortos para a cerimônia do adeus.

Uma comedinha familiar hollywoodiana, uma obra-prima oriental.

Em nenhum desses dois filmes a existência do agente funerário é mostrada de forma tão dolorosa quanto em Rachel, Rachel.

No filme, a lembrança do pai na cabeça da Rachel adulta está sempre presente, como algo quase traumatizante. Até porque, quando ele morreu, quando Rachel deveria estar aí com uns 20 anos, a mãe dela teve que vender a funerária; o comprador, Hector (Frank Corsaro), pagou pela parte de baixo do imóvel uma quantia baixa, mas, em troca, permitiu que mãe e filha continuassem vivendo no segundo andar.

Ao longo de toda a vida, ou no mínimo até a metade sua vida, Rachel viveu no segundo andar do imóvel em que, no térreo, convivia-se com os mortos.

Um dos mortos preparados para o funeral e enterrado pelo pai de Rachel havia sido um garotinho da mesma idade dela, filho de fazendeiros, imigrantes do Leste da Europa. Rachel era colega de escola dele e de seu irmão gêmeo, e confundia os nomes dos dois.

A Rachel solteirona, triste, solitária, vai se reencontrar com o gêmeo do morto, Nick Kazlik (James Olson, na foto acima). Ele saiu da cidadezinha, mora longe, mas volta para visitar os pais – e acontece o reencontro.

E relatar mais do que isso sobre a trama seria spoiler.

O filme teve quatro indicações ao Oscar e foi muito bem na bilheteria

“Rachel, Rachel” ganhou oito prêmios e teve outras sete indicações. Ao Oscar, foram quatro indicações, e todas nas categorias mais importantes: melhor filme, melhor atriz para Joanne Woodward, melhor atriz coadjuvante para Estelle Parsons (ela realmente está extraordinária como a maior amiga de Rachel, religiosa fervorosa, solitária, trancada dentro do armário) e melhor roteiro adaptado. Não levou nenhum; ganhou os Globos de Ouro de direção e atriz.

Leonard Maltin, o autor do guia de filmes mais vendido do mundo, deu 3.5 estrelas em 4: “Lindamente sensível, maduro filme sobre professora solteira tentando sair de sua concha; Woodward está soberba; estréia do marido Newman como diretor.”

Muitas vezes discordo completamente de Maltin. Nesta aqui concordo com todos os adjetivos que ele usou.

O próprio Paul Newman produziu o filme, que foi distribuído pela Warner Bros. Para minha total surpresa, vejo no livro “The Warner Bros. Story” que “Rachel, Rachel” e “Os Boinas-Verdes”/The Green Berets foram os filmes de maior bilheteria da Warner naquele ano. Que coisa maluca: uma patriotada pró-envolvimento americano no Vietnã e um drama intimista, sério, denso, maduro… Uma combinação impensável.

Diz o livro “The Warner Bros. Story”: “Paul Newman fez uma impressionante estréia na direção com Rachel, Rachel, e, com a ajuda de uma atuação deslumbrante de sua mulher, Joanne Woodward, e também de um brilhante roteiro de Stewart Stern (de uma novela de Margaret Laurence), produziu um dos melhores filmes americanos do ano. Seu tema era a solidão, personificada por duas professoras primárias solteironas em uma pequena cidade da Nova Inglaterra. A combinação da direção sensível, discreta de Newman, com os diálogos sutis e observadores de Stern resultaram numa comovente e sincera contribuição para o conhecimento da condição humana. Woodward e Estelle Parsons (na foto abaixo) interpretam as duas solteironas sexualmente frustradas, com atuações no mesmo nível de excelência de Kate Harrington, James Olson e Frank Corsaro.”

Como diretor, Paul Newman focalizou não os happy few, mas os unhappy many

É um belo, belo filme, este “Rachel, Rachel”.

Mas, para mim, não deixa de ser um tanto intrigante o fato de um casal tão absolutamente bem sucedido, e feliz (não me lembro de nenhum outro casal de Hollywood que tenha permanecido casado durante exatos 50 anos, até a morte de um deles, como foi o caso de Paul e Joan), ter escolhido uma história tão triste para a estréia dele como diretor.

Se bem que, se a gente pensar um pouco, faz sentido.

Todas as indicações são de que a alma, o caráter de Paul Newman eram tão belos quanto sua finíssima estampa.

Paul Leonard Newman já era um homem bem sucedido, completamente realizado como artista, quando, nos anos 1980, fundou a empresa Newman’s One, que lançou uma série de produtos alimentícios com um lucro de mais de US$ 100 milhões – dos quais cada centavinho foi doado para organizações de caridade. Ele também criou uma organização para ajudar crianças doentes terminais, The Hole in the Wall Gang Campus.

Nos poucos filmes de que ele mesmo foi o autor, dedicou-se a focalizar não os happy few, não os abençoados pela sorte, mas os outros, os unhappy many, a maior parte da humanidade – os solitários, os tristes, os que têm vida dura.

Nisso aí ele se parece com um xará dele, outro grande artista, dos maiores que já pisaram na casca deste planeta, o tal que escreveu uma canção que nos chama a atenção para all the lonely people.

O Paul Newman diretor, assim como Paul McCartney, gosta de ordinary people. Gente como eu e você. Gente como a gente.

rachelrachelRachel, Rachel

De Paul Newman, EUA, 1968

Com Joanne Woodward (Rachel Cameron),

e Kate Harrington (Mrs. Cameron), James Olson (Nick Kazlik), Estelle Parsons (Calla Mackie), Nell Potts (Rachel criança), Donald Moffat (Niall Cameron), Terry Kiser (pregador), Frank Corsaro (Hector Jonas), Bernard Barrow (Leighton Siddley), Geraldine Fitzgerald (reverenda Wood)

Roteiro Stewart Stern

Baseado no romance A Jest of God, de Margaret Laurence

Fotografia Gayne Rescher

Música Jerome Moross (com trechos de Erik Satie e Robert Schumann)

Montagem Dede Allen

Produção Kayos Productions, Seven Ars, Warner Bros. DVD Lume Vídeo.

Cor, 101 min

***1/2

Sérgio Vaz é jornalista (Jornal da Tarde, revista Afinal, Agência Estado, Marie Claire, Agência Estado de novo, estadao.com.br, Estadão, muitos frilas), leitor de jornais, internet e livros, assistidor de filmes, ouvinte de música, e brinca de fazer os sites 50 Anos de Filmes e 50 Anos de Textos.

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