Os 50 anos de Mary Poppins!

As comemorações do grande aniversário de 50 anos do clássico musical ”Mary Poppins” começaram no final do ano passado com uma exibição especial do adorado longa no American Film Institute, que o homenageia colocando-o num honroso sexto lugar na sua lista dos 25 melhores musicais de todos os tempos. É certamente uma obra que simboliza a magia de Walt Disney e seu status de clássico que atravessa gerações muito se deve ao seu sonho de realizá-lo e ao encanto de sua estrela, Julie Andrews, que é tida como um ícone musical absoluto com o poder de impressionar crianças a ponto de persistir em suas lembranças afetivas por toda a vida.

marycriançasE a própria história de Julie  nessa sua estreia no cinema é como a de Cinderella. Criança prodígio na Inglaterra, aos 12 anos cantava ópera com uma belíssima voz cristalina que alcançava de quatro a cinco oitavas. Aos 18 anos foi levada por um produtor que, encantado com o talento, beleza e graça da atriz, contratou-a para ser a estrela de ”The Boyfriend”, na Broadway. Um arraso. Imediatamente os lendários compositores Lerner & Loewe queriam  a estrela de  apenas 20 anos para ser Eliza Dolittle em ”My Fair Lady”, que se tornou o maior sucesso da Broadway – ainda hoje considerado o melhor musical dos palcos americanos. Por quase quatro anos Julie interpretou a adorável e pobre florista Eliza Dolittle, mal vestida e sem modos, mas que se torna uma perfeita dama através das aulas do exigente, extremamente rígido professor Higgins.

A Warner Brothers pagou uma fortuna pelos direitos autorais e anunciou a adaptação para o cinema, levando os principais nomes do show, exceto Julie, justificando que ela era famosa apenas no teatro, no eixo New York – Londres, e portanto, um risco para a bilheteria. Contrataram uma estrela consagrada e no auge da carreira,   Audrey Hepburn,  para garantir  o investimento milionário. Os compositores do show, Lerner & Loewe,  ficaram decepcionados e nem visitaram o set de filmagens. Julie ficou triste, mas com aquela força dos ingleses, seguiu a carreira em outro musical da Broadway, “Camelot”, que Lerner & Loewe escreveram para ela e tornou-se o favorito de John Kennedy. Outro sucesso. Numa das apresentações de seu  novo trabalho, Julie recebeu uma inesperada visita  nos camarins: o ilustre Walt Disney, que, fascinado com sua graça, voz, talento e a incrível habilidade de assobiar, ofereceu-lhe o papel título de seu novo musical, a superprodução “Mary Poppins”. Muito surpreendida, Julie disse a Walt que tinha que consultar o marido, o figurinista e cenógrafo Tony Walton (Oscar por “All That Jazz”) e que, ainda por cima, estava grávida. “Sem problema. Podemos esperar”, respondeu o lendário produtor. “Depois que o bebê nascer, estarei esperando vocês todos na Disneyland. Você será minha Mary Poppins e Tony fará seus figurinos e os cenários”, completou.  O criador de Mickey Mouse era realmente genial e sabia reconhecer talentos instantaneamente. Ponto para Disney!

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Ironicamente, “Mary Poppins” e “My Fair Lady” acabaram estreando no mesmo ano, 1964.  “Poppins” teve uma estreia espetacular no Chinese Theatre em Los Angeles em 27 de agosto, com toda a realeza de Hollywood se curvando a ele e à Julie, e outra grande noite em 29 de agosto em Nova York. O musical, um dos raros originalmente feitos para o cinema detonou,  tornou-se o campeão de bilheteria,  deixando “Lady” comendo poeira.  Com a consagração do público, veio então a da crítica e as premiações. No Oscar 1964, Audrey nem foi indicada, principalmente por não ter voz para cantar as difíceis canções para uma soprano, tendo que ser dublada. Por ter uma imagem sofisticada,  convencia menos como a pobre florista do começo da história e mais como dama. Numa virada espetacular do show business, Julie venceu o Oscar, o Globo de Ouro, o Bafta  e o Grammy na sua espetacular estreia no cinema. Em seus discursos, agradeceu primeiramente a Walt Disney e ao povo americano. Em doce vingança, brincando, agradeceu também a Jack Warner, “por ter tornado tudo aquilo possível”. Julie está linda e, aos 28 anos, exibe grande carisma e perfeição como a famosa personagem dos livros infantis, cantando, dançando e interpretando magistralmente. Criou uma imagem de doçura que se tornou uma marca registrada para o público. Com graça e generosidade raras no cinema, Julie não se deixou contaminar pela rivalidade com Audrey promovida pelas fofocas dos tabloides, e as duas permaneceram grandes amigas e vizinhas, até a morte prematura da querida bonequinha de luxo nos anos noventa.

mary3Na Londres do começo do século vinte, Julie Andrews encanta como a babá “praticamente perfeita” “Mary Poppins” que, com sua dúbia austeridade, truques e frases espirituosas, conquista o coração de dois irmãozinhos, Jane e Michael (Karen Dotrice e Mathew Garber). Eles se sentem praticamente abandonados pelo pai, Mr. Banks – o ótimo David Tomlinson – absorvido pelo trabalho no banco, e a mãe feminista (“suffragette”) feita por Glynis Johns. O amigo (ou namorado?) de Mary Poppins é o artista de rua Bert, grande momento de Dick Van Dyke, que acompanha Mary Poppins em suas incríveis aventuras com as crianças. A maior delas é quando Mary conduz o grupo para dentro de um desenho feito por Bert na calçada. A incrível e antológica sequência tem números musicais fabulosos, como o delicioso “Jolly Holliday”. Há a famosa caça à raposa, tão apreciada pelos ingleses, onde vão tentar salvar o pobre animalzinho; o chá servido por adoráveis pinguins e a corrida de cavalos, culminando com Mary Poppins – montando o seu lilás, de um carrossel – vencendo  espetacularmente a corrida!  Quando um jornalista pergunta à campeã da corrida se poderia expressar como se sente,  ela dispara: “Sim, SUPERCALIFRAGILISTICEXPIALIDOCIOUS !” , outra canção antológica  eternizada na voz gloriosa de Julie. A surpreendente palavra é um desafio para ser falada, mas para Julie isso é pra lá de simples, porque ela a fala de trás para frente e, até hoje, quando lhe pedem em entrevistas, para a diversão de todos. Aliás, recentemente o compositor Richard Sherman declarou em entrevista que Julie é a cantora mais talentosa com quem ele e o irmão Robert trabalharam, ajudando a tornar as canções de “Poppins” clássicos absolutos. E ela ainda eternizou as contagiantes “Spoonful of Sugar”, “Chim Chim Cher-ee” – vencedora do Oscar de canção, e a favorita de Walt, a belíssima balada “Feed the Birds”, que  Richard toca ao piano toda sexta-feira na sala do genial produtor, em sua homenagem. Neste ano em que o grandioso níver de 50 anos é celebrado, o Grammy anunciou a honraria da extraordinária trilha sonora, que recebeu o Grammy 1964 e é uma das mais vendidas de todos os tempos, estar em seu Hall of Fame.

Dirigido com grande profissionalismo por Robert Stevenson, “Mary Poppins” é  de fato um megaclássico que conquista novas gerações.  Walt foi ousado na decisão de não rodar em locações: tudo foi filmado em estúdio num visual que evoca um livro de contos de fada. A história continua atual – pais absorvidos no trabalho, muitas vezes por necessidades, ou em seus interesses pessoais não percebem que estão deixando seus filhos em segundo plano, sendo criados por babás, empregados (e avós, quando possível, não é mesmo?). Foi indicado a incríveis 13 Oscars – filme, diretor, roteiro adaptado, fotografia, direção de arte, som, figurinos, score adaptado, e venceu nas categorias de atriz, trilha sonora, canção, edição e efeitos visuais – um trabalho primoroso da equipe formada por Peter Ellenshaw, Eustace Lycett e Hamilton Luske, no que ficou conhecido como ”tela azul”, com os atores atuando na frente da mesma,  como se estivessem interagindo com personagens do desenho animado, acrescentados depois. É um dos favoritos de grandes atores, diretores e produtores, que o exibem para seus filhos, entre eles,  Tom Cruise, Anne Hathaway, Tom Hanks, Julia Roberts, Alec Baldwin,  Martin Scorsese, Colin Farrell, Jennifer Garner (que declarou ser Julie Andrews sua favorita), Kerry Washington e, no Brasil, Lilia Cabral, Miguel Falabella, Patrício Bisso.

O adorado filme também está em várias listas dos melhores de vários críticos, inclusive Leonard Maltin, e como já mencionado,  do American Film Instit. É considerado o melhor filme do genial Walt. A propósito, “Mary Poppins” está bombando na mídia:  na abertura das olimpíadas em Londres, em 2012, várias “Mary Poppins” saíram voando para saudar o público. Virou musical de sucesso  em Londres e na Broadway.

mary50A personagem foi considerada uma das maiores de todos os tempos pela revista/site Premiere. Julie e  Dick Van Dyke estiveram nos top trends quando foram  homenageados pelo SAG Awards (prêmio do Sindicato dos Atores).  Também para homenagear o clássico, a Disney lançou em dezembro de 2013 o longa “Walt nos Bastidores de Mary Poppins” (”Saving Mr. Banks”),  sobre a persistência do mago da animação para comprar os direitos autorais do livro da extremamente difícil  P. L. Travers, um processo dificílimo que levou vinte anos! Ele havia prometido às filhas que faria um filme da personagem favorita delas. Como quebrar uma promessa dessas? Tom Hanks, Emma Thompson e Colin Farrell, excelentes como Walt, Travers e o pai desta, apareceram na première ao lado de Julie Andrews e Dick Van Dyke, declarando-se fãs da dupla e do amado musical, que é sempre uma delícia de se ver ou rever. Em suas entrevistas para a televisão ou jornais, Julie declarou estar espantada com o fato de 50 anos terem se passado. “Desses 50, pelo menos 20 não sei para onde foram!” – e cai na risada. Refletindo no que o clássico significa em sua carreira, diz, sabia e humildemente: “Eu sou uma mulher afortunada por ter sido escolhida por ter feito esse filme maravilhoso. É um desses golpes de sorte que ocorrerem apenas uma vez na vida e na carreira”.

Com toda sua magia, cor, música, produção caprichada, inovação em efeitos especiais, animação, encantamento e elenco maravilhoso, ”Mary Poppins” continua … hmmm, como direi? Ah, sim,  ”praticamente perfeita em todos os aspectos” e… SUPERCALIFRAGILISTICEXPIALIDOCIOUS!!!!

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

3 thoughts on “Os 50 anos de Mary Poppins!

  1. TEXTO SIMPLESMENTE ESPETACULAR!!!!CONHECEDOR PROFUNDO DE CINEMA ,DOS SEUS ASTROS,DE TODA A SUA HISTORIA!!!!WALDEMAR VOCE E OTIMO!!!!!

  2. Estava contando os dias para ler sua resenha sobre esse maravilhoso musical. Show! Texto nota dez, Waldemar. Foi através dele que me apaixonei pelo gênero. Acho – tenho quase certeza – que Mary Poppins foi o filme que mais assisti. É, sem dúvida, uma obra completa. As 13 indicações no Oscar confirma isso, né?! Belas atuações, cenários belíssimos e destaco as músicas do irmãos Sherman.

    Outro dia estava pensando nesses filmes que marcam. Lembro de ver Mary Poppins ainda pequeno e que algumas cenas ficaram na minha memória. Ai recordei que pedi para meu pai o vhs do filme que a mulher senta na nuvem e brinca na fumaça da chaminé. rs

    Ainda preciso agradecer ao Sbt por ter colocado Julie na minha vida.

  3. Muito, muito obrigado pelas generosas palavras que tanto me incentivam, queridos Lourdinha e Thiago Lopes! Julie Andrews é realmente uma inspiração, como artista completa e pessoa, e “Mary Poppins” faz parte de nossos mais lindos sonhos, de nossas mais gostosas lembranças, com sua magia, música magnífica, história fascinante, o toque pessoal de Walt Disney e a graça, beleza e talento de Julie!

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