Os beijos de cinema que ficaram em mim

Não há nada mais íntimo que um beijo. Beijar é quase um roçar de almas, uma visita ao quintal interno do outro, para ali ficar e descobrir seus segredos. O beijo é um pacto de intimidade máxima. Se há um termômetro para saber quando um relacionamento está esfriando, este é o beijo. Se duas pessoas só querem fazer beijar-se, é porque, de fato, estão apaixonadas. Se, no entanto, ele inexiste entre os dois, há de se ficar preocupado.

Quando Totó, personagem principal do filme “Cinema Paradiso”, apaixonou-se pelo cinema, ficou encantado também com os beijos que na tela rodavam, apesar do padre daquele vilarejo ter censurado tal demonstração de carinho.  Quase todo filme, mesmo que seja sobre armas e tecnologia tem cena de beijo, eu sei. Mas em alguns a que tive a oportunidade de assistir, o beijo virou a própria história.

Eu tenho várias teorias sobre o beijo. A primeira e mais forte delas é que um beijo tem o poder de roubar alguém dele mesmo. Já vi gente, dita ajuizada, largar tudo por causa de um beijo e depois dizer: “Eu tive que ir atrás dela porque o beijo que ela me deu tirou uma parte de mim.” Para mim, filósofa amorosa de araque, a alma mora logo abaixo da garganta. Por isso, pode ser que, num feliz acidente, entre um encostar e outro de lábios, numa dança despretensiosa de línguas, a alma escape e mergulhe no outro. É aí então que nascem os amores com grandes chances de serem demorados. Amores de almas que desembocam uma na outra, feito rios que se encontram pra desaguar no mar de amar.

Outra teoria minha é a de que beijo não se aprende, apenas aperfeiçoa-se. Simplesmente porque beijo é igual estilo, ou seja, faz parte da pessoa. É como timbre de voz, jeito de andar, jeito de espirrar. Cada um tem o seu. É algo que nos individualiza. E por isso acho beijo algo tão sagrado.

Sabe-se, por exemplo, que prostitutas não beijam, pois podem se apaixonar pelo cliente. Lembro bem desta cena em “Uma linda mulher” quando Kit De Luca, personagem de Laura San Giacomo pergunta para Vivian se ela tinha beijado Edward. E eu vos pergunto: como não beijar o Richard Gere?

Brincadeiras à parte, beijo é coisa séria. Conheço casais que não se beijam mais há muito tempo. Imagino a revolução que não ocorreria em suas vidas se caso trocassem o selinho que dão à noite antes de dormir por um beijo de língua bem dado.

Mas os melhores beijos nascem antes do encontro. Vão sendo desenhados na mente, Imagina-se o desenho da boca do outro, textura, cor e sabor. Beijo bom demanda empenho, vontade, desejo. Beija bem quem beija com o corpo inteiro.

A verdade é que este texto não teria nascido se uma cena remota de cinema não tivesse visitado minha memória a noite passada. Trata-se de um filme a que assisti há muitos anos, em que um velho adentra o casamento de um jovem casal. Delicadamente, ele beija a noiva. Naquele momento, algo mágico acontece e ela percebe que com aquele beijo, suas almas foram trocadas. Infelizmente, não encontrei nada de referência acerca deste filme.

Por isso temo os beijos, tenho respeito por eles. De fato, são sagrados. Ainda fico ruborizada ao ver um beijo bem dado no cinema, daqueles que tiram o nosso fôlego, que nos deixam sem graça. Daqueles que você torce pra não ter ninguém na sala além do seu amor.

Um beijo, com todo respeito, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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