Robin Williams

Que  imensa tristeza sentimos ontem à noite com a notícia da partida inesperada e trágica de um ator que, justamente, sempre nos trouxe tanta alegria e muitas, muitas risadas. Ao longo dos anos, para nós, ele foi um professor admirável e inspirador, uma babá quase tão perfeita como Mary Poppins, um doutor da alegria, um robô afetuoso,  um psiquiatra dedicado tratando um gênio indomável e o gênio exuberante na garrafa de Aladdin, cantando ”Um Amigo como Eu”. Ah, sim, não esqueci, também ”soltou a franga” na gaiola das loucas. Como ficar indiferente ao fato de não termos mais entre nós um criativo, energizado, divertido, borbulhante comediante que era capaz de arrancar gargalhadas da gente, e, entre uma comédia e outra, enveredar por caminhos totalmente opostos  e surpreender e comover o público com sua intensidade dramática?

O querido Robin Williams, sensível canceriano nascido em 21 de julho de 1951, cativou primeiramente o público americano brilhando no pequeno papel de um alienígena na série de TV ”Happy Days”, de Garry Marshall (“Pretty Woman”, “O Diário da Princesa”). Sua  rica experiência em sucessos de stand-up comedy e até uma passagem dramática no teatro, ao lado de Steve Martin, em “Esperando Godot”, permitiram-lhe desenvolver sua incrível agilidade humorística, versatilidade e inigualável poder de improvisação. Logo foi elevado ao estrelato na telinha com o spin-off “Mork and Mindy'” (de 1978 a 1982).

O cinema lhe abriu as portas em 1980 com um papel que lhe caiu como uma luva, em ”Popeye”, do grande Robert Altman, ao lado de uma também perfeita Shelley Duvall como Olivia Palito. A partir daí, Robin não parou mais de trabalhar, e periodicamente brilhava em elogiadas produções que lhe consolidavam o prestígio. Foram muitos os destaques:  em 1982, ao lado de Glenn Close e John Lithgow estrelava o intrigante ”O Mundo Segundo Garp”, do diretor George Roy Hill (”Golpe de Mestre”) e, em 1987, foi indicado ao Oscar de melhor ator (e também Globo de Ouro e Bafta)  numa performance fantástica em “Good Morning, Vietnam”, onde encantou como o DJ que alternava humor e música para suavizar a dor dos soldados.

popeyeO genial ator continuou alternando filmes comerciais com outros de maior ambição artística, e, sem dúvida, um momento icônico em sua carreira é a do professor John Keating em “Sociedade dos Poetas Mortos”, e sua frase “Carpe Diem” (Aproveite o Dia) virou lema para gerações. Era de arrepiar ao ver a relação de respeito, amizade e admiração dos alunos por seu mentor, e a emoção nos arrebatava ao ouvir “Oh, captain, my captain!”. Uma inspiração reconhecida também na corrida do Oscar, Globo de Ouro e Bafta, que lhe rendeu novas indicações como melhor ator.

Em 1990, continuou provando que comediantes são também excelentes atores dramáticos, no sensível e extremamente triste “Tempo de Despertar”, como o dedicado médico que cuida devotadamente do paciente com problemas mentais – feito por Robert DeNiro – que recupera a lucidez por um breve período. Os belos trabalhos dos dois grandes atores lhes trouxeram o prêmio do National Board of Review, sendo que Robin foi novamente indicado ao Globo de Ouro. No ano seguinte, novo triunfo: ”O Pescador de Ilusões”, grande longa de Terry Gillian, ao lado de Jeff Bridges, no qual deu vida a mais um personagem maravilhoso, comovendo como um mendigo carismático, e recebendo  o Globo de Ouro e mais uma indicação ao Oscar de melhor ator. Este trabalho deu origem a uma grande amizade, e Jeff lembrou hoje do imenso talento e humor do amigo nas filmagens, quando, numa cena de nudez no Central Park, Robin fazia graça esfregando o traseiro na grama e perguntava: “Jeff, você sabe por que os cachorros fazem assim? Por que eles podem!” .E todos caíam na risada.

O estrelato de Williams dominou a década como o crescidinho Peter Pan em “Hook” (1991, de Steven Spielberg) e o estouro em 1992 como o Gênio de “Aladdin”, da Disney, em que seu impressionante talento vocal lhe deu um raro e inédito Globo de Ouro especial e um MTV Award, consolidando sua popularidade também com a moçada. Ironicamente, este grandioso trabalho lhe trouxe um desentendimento com a Disney, porque, curiosamente, Robin não queria destaque da sua participação na divulgação e pôster da animação, o que acabou não sendo cumprido pelo poderoso grupo devido ao poder de Williams na mídia e à possibilidade de maior bilheteria. Ainda bem que  algum tempo depois o imbróglio foi resolvido e o ator foi até homenageado pela Disney, recebendo o título de  “Disney Legend”, honraria dada a mitos do quilate de Julie Andrews, em 2009.

Outra atuação inesquecível e que fez o público gargalhar foi em “Uma Babá Quase Perfeita” (”Mrs. Doubtfire”, 1993), comédia deliciosa em que Williams deitou e rolou no papel do pai aflito, que, enfrentando o divórcio, desesperadamente se disfarça de babá idosa para ficar perto dos filhos. Arraso total. Um momento pra lá de marcante na comédia. E prêmios não faltaram: Globo de Ouro, MTV Movie Award e American Comedy Award reconheceram esse grande trabalho hilário, mas com uma pitada de drama, bem a seu gosto.

Entre tantas comédias, o ator teve um flerte com a aventura: “Jumanji” foi destaque em 1995. Mas sua verve cômica e  exuberância  encontraram novo e perfeito veículo como o afetado Armand no remake “A Gaiola das Loucas” (1996). A releitura de Robin deste personagem nada tinha a ver com a discrição do original francês. Seu momento coreográfico cantando “Fosse!” é realmente antológico, uma lição de naturalidade, liberdade e improvisação;  desta vez os prêmios foram o SAG Award e mais um do MTV. Numa virada radical, no mesmo ano esteve no shakespeariano “Hamlet”, de Kenneth Branagh. Este era o Robin Williams!

https://www.youtube.com/watch?v=VtJqgm34Ifg

Cena memorável de “Gênio Indomável”

Em 1997, no auge de sua grande popularidade, a consagração total se deu num momento glorioso – finalmente o Oscar foi parar em suas mãos, como melhor ator coadjuvante, pelo sensível, sereno, sério trabalho no belo e forte ”Gênio Indomável” (de Gus Von Sant), escrito por Matt Damon e Ben Affleck, também oscarizados pelo roteiro. O astro seguiu em frente brilhando em “Desconstruindo Harry” (1997, de Woody Allen), “Patch Adams” (1998, indicado ao Globo de Ouro de melhor ator), “O Homem Bicentenário” (1999).  Em 2002, surpreendeu público e crítica  ao escolher dois papéis opostos à sua persona cinematográfica, sem dúvida, os mais sinistro dos seus personagens,  em “Retratos de uma Obsessão” e “Insônia”. Pela primeira vez, a presença de Robin causava suspense e até medo, não risadas ou lágrimas. Num novo sucesso, em 2006, voltou a divertir o público numa participação pra lá de especial em ”Uma Noite no Museu” e em ”Happy Feet”, um retorno ao excelente trabalho vocal que também reprisou na sequência da animação em 2011.

Ator recebe o Oscar. 

Trabalhando incansavelmente na televisão e no cinema, o simpático, amado e talentoso Williams ainda achou tempo para dar vazão à sua generosidade, tendo fundado  a Windfall Foundation para levantar fundos a diversas obras de caridade, além de ter colaborado com a Children’s Promise e doado o dinheiro arrecado em seus shows na Nova Zelândia para ajudar a reconstruir a cidade de Christchurch. Assim o ator é lembrado pelos amigos, que carinhosamente não cansam de demonstrar seu carinho, chamando-o, nas palavras de Jeff Bridges, ”um presente da vida”.

Robin Williams desistiu da vida possivelmente como consequência de uma grande depressão, perdendo a batalha contra o alcoolismo e drogas. Difícil de aceitar essa dura e cruel realidade: como isso pode ter acontecido a ele, que tanto nos encantou com seu talento cômico? Deixa mulher, três filhos, uma extensa filmografia com cerca de setenta títulos, momentos cinematográficos antológicos e ainda três longas em pós-produção: “Merry Friggin’ Christmas”, “Uma Noite no Museu 3” e “Absolutely Anything”. Penso que neste momento o querido Robin Williams possa estar revivendo cenas do seu espiritualizado “Amor Além da Vida”, onde seu personagem Chris faz a transição para o plano superior e encontra paisagens deslumbrantes com flores explodindo em cores vibrantes, bibliotecas gigantescas flutuantes e a emoção de amigos e familiares o recepcionando com muito amor. Quem sabe possa encontrar Blake Edwards, mestre da farsa e do pastelão, escrevendo um roteiro original numa nuvem e planejar uma nova comédia celestial recheadas de piadas impagáveis e geniais improvisãções?

O seu show tem que continuar, Robin!  Oh, captain, my captain, AÇÃO!

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

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