Amar, beber e cantar: Viva George!

A imagem é sem dúvida um encarceramento da imaginação em um determinado quadrado. Ou de qualquer outra figura geométrica, se preferirem. Falo de limites. Em diagnósticos fechados. E quando o faço, é em causa própria, porque também – confesso – é bom estar confortável.

“Amar, beber e cantar”, do diretor Alain Resnais, movimenta-me na cadeira do cinema porque não me oferta limites, nem coisas prontas a comer.

Bem longe do fast food (e ainda bem), sugere-me uma entrelaçar de cenários e situações a partir de uma peça de teatro encenada por um grupo de amigos em tempo de balanço – do vai e vem de recordações e de restos por cumprir.

Meio do caminho, meio do tempo, meios que são recursos para o diretor conversar conosco sobre a vida e seus meandros.

Aquarelas em tom violáceo, misturam-se com cenários que são cenários .

Mas que também podem ser representações de conflitos humanos.

A notícia da morte de um dos amigos é o fio condutor dessa história bem contada. Mas por alguma razão, talvez inconsciente, o que me recordo de imediato é de pombas grudadas em um fio de alta tensão de um poste qualquer da cidade.

George,o amigo onipresente, é o fio de alta tensão.

As pombas, seus amigos com vínculos de um passado, unidos por uma mesma consternação – e uma alegria mascarada de ainda estarem vivos, duplicam-se em esforços para garantir a dignidade dos últimos meses de vida do amigo.

Um deles, casado com uma ex-namorada de George, desconhece o fato do relacionamento e é incumbido pela narrativa de acertar em esforço incessante os ponteiros dos inúmeros relógios de casa.

George, em oposição, é um descabelar. Sem previsões nem provisões. Como o gênio da lâmpada, encontra-se sacralizado pelo tempo. Quer a juventude, sem custos.

amarbeberecantarBonita e significativa, a trança loura da ex-mulher de George, que mesmo em um novo relacionamento, abala-se de tal forma que retorna ao ponto de partida de uma história que ficou no caminho. Como o pedaço de tora de madeira, que o atual marido, pontapeia em ritmo crescente até quebrar o pé.

Em “Amar, beber e cantar”, os personagens que personificam personagens tem asas quebradas. Carências que dissolvem-se em bebidas escondidas, sentimentos abafados, relógios que não se acertam.

Só George revolteia os ares e levanta a poeira que precisa ser ascensa para depois cair como o chá que seguramos fortemente com o calor de nossas mãos para esfriar.

Uma bebida que se bebe morna – às vezes assim como a vida.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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