Senhas visíveis e três Resenhas cifradas

hotelmekong“Hotel Mekong”, de Apichatpong Weerasethakul, é um filme que costura no mesmo fio de enredo sonho, mito e documentário para tentar dar conta do ‘real’. Apichatpong desde o extraordinário “Tio Boonmee, que Pode Recordar suas Vidas Passadas”, sabe que se dermos as costas para o mito e para os aspectos documentais faremos obras de arte esvaziadas de suas camadas de mistério e humanidade profunda. O mito é aquilo que reordena o real. Basta pensarmos no próprio mito do dinheiro. O filme de Weerasethakul trata do mito do vampiro, mas o desloca para um cotidiano sem nenhuma aura de glamour de um hotel  na beira de um rio, o que talvez seja uma boa metáfora da nossa própria vida: vampiros se alimentando da carne de animais mortos vivendo em um hotel na beira de um rio chamado tempo.

“X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido”, de Bryan Singer. O tempo passado está contido no tempo futuro diz um famoso poema de Thomas Stern Eliot. Bryan Singer parece ter se inspirado neste verso de Eliot. Para quem consegue ver um pouco além do enredo, na tessitura dramatúrgica do roteiro de Simon Kinberg e nas entrelinhas do argumento de Jane  Goldman pode notar que Magneto e Xavier são como duplos refletidos em um espelho. Nixon aparece neste filme como um duplo de Bush e de sua política de demonização do diferente. Singer parece apontar para o passado como o lugar onde todas as mudanças já aconteceram e, ao mesmo tempo, amplia a premissa metafísica segundo a qual, atos do futuro modificam o passado e não o oposto.

“The New Gaza”, de Rita MartinsTragtenberg, faz parte da família dos filmes que instauram um Topos para a interioridade, os lugares são e sempre foram mais interiores do que exteriores. As paisagens também são criadas por intrincados mecanismos da mente que são mais próximos do “estado de sonho” do que de qualquer outro. Memórias são construções da nossa cada vez mais etérea “imago mundis” interna e as palavras de todas as línguas formam cartografias que substituem e, como placas de sinalização, indicam onde estão os valores humanos ligados as diversas paisagens que se projetam no interior de nossas mentes. Paisagens que, em raros  momentos, coincidem com as misteriosas formações exteriores da nossas possibilidades de imanência. O deserto de dentro raramente coincide com o deserto propriamente dito. A paisagem é ela mesma um personagem essencial de “The New Gaza”. Em alguns momentos do filme de Rita, a paisagem se desnomeia e parece ser um fragmento de memória que se descolou de um sonho.

Tendo por base textos do poeta e editor Jacó Guimsburg, o filme desloca a palavra para um campo onde ela se torna mais importante do que as fronteiras e sabiamente a direção de atores do filme sabe explorar tensões entre o olhar e a fala, sombras do indizível nos olhares e  gestos que desenham estados de espírito complementares, melancolias tonais dentro das falas e rostos que exploram pequenos vazios que a diretora deixa  delicadamente pulsar dentro do filme.

Existe um óbvio deserto interior nos personagens – ou seja, um ‘Aberto’ – que aponta para a memória de si mesmo como uma alteridade. Os personagens vivem uma duplicidade ôntica e geográfica ao mesmo tempo e o filme nos lembra a todo momento que ‘duplicidade’ não significa um espaço para a ambiguidade. Não existe ambiguidade geográfica em nossa interioridade e a busca por um Topos que costure todas as nossas memórias aos nossos sonhos mais profundos onde ‘ O Outro’ nos chama, onde o afeto se faz cada vez mais materialidade e Terra é uma questão que atravessa todo o espaço dentro e fora do filme.

Em tempo: “The New Gaza” será exibido no Museu da Imagem e do Som de Santos seguido de uma mesa de debates com este colunista, Gilberto Mendes , Livio Tragtenberg e Rita Martins Tragtenberg no dia 27 de setembro.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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