Persistência é o segredo do sucesso da Galinha Pintadinha

Antes do Mickey Mouse, os irmãos Disney, Walt e Ron, fizeram outro personagem, o coelho Oswald. Apesar de serem os criadores, eles venderam os direitos de exploração. Quase quebraram, mas aprenderam a lição. Outro exemplo famoso é o filme “À Meia-Noite Levarei sua Alma” (1964), de José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Quando estava no cinema, as filas dobravam à esquina. Mas, ele não viu a cor do dinheiro, pois vendeu os direitos do filme para conseguir terminá-lo.

Sabe a Galinha Pintadinha, aquela que as crianças vibram e vemos produtos dela em todos os lugares? Bem, seus criadores, Juliano Prado e Marcos Luporini, quase desistiram do projeto. “Muitas vezes traçamos um objetivo e é difícil saber se estamos sendo persistentes ou teimosos. Na verdade, só descobrimos quando a coisa dá certo”, conta Prado. Além da persistência, eles foram mais cuidadosos que Zé Mojica e Walt Disney. Eles buscaram investir tempo e dinheiro para entender a complexa matéria de direitos autorais. Tive a oportunidade de entrevistar o Juliano Prado sobre empreendedorismo e negócios. Apesar de o foco ser de Economia, posso dizer que tive uma aula com ele sobre produção de animação e gestão de marca.

galinhaepocaQuem quer trabalhar na área tem de levar esses aspectos em conta. “Um desenho animado é considerado uma ‘obra audiovisual coletiva complexa’, porque exige o trabalho criativo de várias pessoas (roteiristas, compositores, intérpretes, atores, desenhistas)”, explica Prado. No caso da Galinha Pintadinha, a Bromélia é a organizadora da obra coletiva e possui todos os direitos para explorá-la comercialmente, administrando os direitos patrimoniais e repassando aos demais artistas que participaram do projeto.

Para Prado, nem sempre a um produto audiovisual pode virar uma marca. “Alguns títulos e personagens têm potencial de virar marca, não há fórmula, mas precisa ter uma massa crítica de público. Para poder licenciar a sua marca, um filme ou série tem de sustentar o interesse do público por um longo tempo”, ensina. Existe todo um processo industrial para desenvolver, fabricar e comercializar os produtos, e isso leva tempo. “Se é um sucesso passageiro, não dá nem tempo de fazer e vender os produtos. A Galinha Pintadinha quebrou um paradigma neste mercado de licenciamento, que só aceitava personagens estrangeiros que estivessem com programa no ar em alguma emissora. Com a gente é diferente, a Galinha Pintadinha está no ar 24 horas por dia há mais de 7 anos”, analisa Prado. Atualmente, os conteúdos (desenhos animados, músicas, livros), enfim, a marca é administrada pela Bromélia Filmes. As receitas da produtora vêm de royalties que recebem sobre os produtos que levam a marca, que são fabricados por parceiros licenciados.

Outro ponto fundamental é estar atento às mudanças do mercado e como hoje consumimos audiovisual. Um fato é que o mercado audiovisual ainda está se adaptando às mudanças de se produzir e como tudo isso é consumido. “Hoje em dia, por exemplo, é lógico ter a Galinha Pintadinha de graça no YouTube e ao mesmo tempo o DVD sendo vendido nas lojas. Uma coisa ajuda a outra. Em outros tempos, liberar um conteúdo de forma gratuita seria impensável”, pondera Prado.

O sucesso da Galinha Pintadinha está na sua simplicidade, mas também em mesclar músicas já testadas há várias gerações de crianças com o olhar de quem busca entender como o produto audiovisual é consumido.  O projeto é transmedia, como os pequenos de hoje (e os adultos também), que consomem seus desenhos animados no celular, na sala, no computador.

A primeira ideia para a Galinha Pintadinha era oferecê-la aos canais de TV convencionais. Como esse caminho não deu certo, eles apostaram suas fichas YouTube, aplicativos e DVDs.  Quem tem filho pequeno sabe que ele adora repetir o que gosta. Hoje, consumimos pela internet filmes e séries. O YouTube é um aliado e não um vilão. O Portal dos Fundos é um exemplo disso. Quem quer ter sucesso tem de se arriscar. “Essa decisão de ir para a ‘produção independente’ é um exemplo de mudança de rota que precisamos.”

O DVD 4 da Galinha Pintadinha já foi lançado. Em paralelo, está sendo produzido o longa-metragem da Galinha Pintadinha, que tem a estreia prevista para 2016. Além disso, as versões em espanhol e inglês já estão fazendo sucesso fora do Brasil.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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