O Retrato de Sophia

“Na vida tudo chega de súbito. O resto, o que desperta tranquilo, é aquilo que, sem darmos conta, já tinha acontecido. Uns deixam a acontecência emergir sem medo. Esses são os vivos. Os outros se vão adiando. Sorte a destes últimos se vão a tempo de ressuscitar antes de morrerem”.

Com afeto, o livro “A menina sem palavra”, de Mia Couto, fez-se caminho até chegar a mim. De forma coincidente (ou não), o marcador de página estava posicionado na página 93 que inicia-se com o recorte de palavras que abre o meu texto.

Respeitei a ordem das coisas e a leitura partiu desse ponto disposto.

Com a poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, o caminho foi similar.

Em anos anteriores a esse em que escrevo, toquei de leve seu universo em que a palavra está ligada ao nome das coisas.

Pouco conhecia, mas guiada também pelo afeto, li o poema “Caminho da manhã”.

“Vai pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra”, indica a imperativa Sophia, assim como o marcador da pág. 93, o caminho.

Não sei para onde vou, só sei que vou por aí – respondo-lhe, em uma adaptação livre de “Cântico negro”, de José Régio.

Fui e quis saber mais sobre essa mulher que acreditava que a poesia era uma coisa que já estava feita e que os poemas pairavam no ar e bastava estar muito atento para os ouvir.

Ouvi falar sobre ela em um documentário (abaixo) que cose entre depoimentos e produção escrita, o retrato de Sophia.

“Acha que no céu, há cheiros” – perguntou uma vez para aferir se lá longe – em outra dimensão – poderia continuar a desfrutar do odor de “ um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã”.

Sophia era conhecida também por sua inadimplencia com o tempo cronometrado no relógio. Tudo era mais fluído, e as noites emendavam-se aos dias.

Talvez porque “De dia somos imóveis e estamos presos, mas de noite somos livres e dançamos” – como escreveu.

De liberdade também se fala em um tempo em que o regime Salazarista comandava os destinos da nação.

Para ele, uma nota escrita por Sophia: “Tem o dom de tornar as almas mais pequenas”.

E não se tratava dos pequenos, dos míudos, para quem escreveu contos em que personagens como Joana, Isabel, Rapazinho, Florinda são crianças singulares com uma experiência espiritual mais significativa do que a material.

E sem a promessa contida de um final feliz.

Sophia, para além de muitas coisas, me cativa pelo fato de ter escolhido um outro lugar no mundo para ficcionar a sua vida.

Gosto dessa possibilidade de desdobramento da alma que se converte por paixão à um outro povo.

Com ela foi a Grécia.

E afirma em seu poema “Minotauro”,  que pertence “à raça daqueles que percorrem o labirinto, Sem jamais perderem o fio de linho da palavra”.

Como não sucumbir a tamanha beleza da escrita no papel?

Sophia era de coragem e de alguma forma transitava entre a visibilidade e o que não se vê das coisas.

“Ensinou-nos a todos a abrir os olhos debaixo d’agua”, comenta um dos seus familiares em “O nome das coisas”, documentário sobre sua vida.

O que aplicou na vida, gesta e justifica na poesia:

sophia“Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos

E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor”.

Sophia com clareza expõe a sua afinidade com a concretude das coisas:

“Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem”.

Essa justeza das coisas, não restrita ao sentido moral, mas também no que cabe na perfeição, no que se ajusta sem temor à sua forma natural, encanta-me e conduz-me ao início do texto em um movimento cíclico que tece o fio do destino.

Ao acaso, abro uma página do livro de Mia Couto.

Em forma de Realejo, o que vem é:

“Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada”.

Quando te leio Sophia, eu vejo pássaros.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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