O Que os Homens Falam: e a cadeira do cinema virou, de repente, divã

Encontro-me no difícil exercício de escrever sobre meninos, sendo eu, uma menina. É uma tarefa na qual não sei se terei êxito. Preciso dizer que a alma da menina já sonha com a obrigação de tornar-se mulher. Eu já fiz essa trilha. A contrária também, quando quis de volta a menina em mim. Mas a alma do menino, esta eu não sei…

Bem, desde muito nova, sempre tive amizade com meninos, tanto na escola, quanto na rua. Fui campeã em fubeca (para quem não sabe, um jogo com bolinhas de gude realizado em terra batida). Sim, fui Maria moleque, mas nem assim, nem de perto, sou capaz de entender o universo masculino. Tampouco tenho isto como pretensão.

No jardim de infância, lembro-me nitidamente do primeiro dia de aula em que a professora colocou-me acomodada numa mesa com três meninos. Estes, por sua vez, tornaram-se meus amigos fiéis e me acompanharam até a oitava série. E me vejo aqui, alegremente revisitada por estas lembranças. Tudo por causa do longa “O Que os Homens Falam” do diretor estreante Cesc Gay. Com o título lá fora de “Una pistola en cada mano”, a película conta com Ricardo Darín no elenco.

O filme conta a história de como alguns homens enfrentam a crise de meia-idade. Um deles perde tudo o que tem e volta a morar na casa da mãe. Outro tem sucesso na vida, mas vive sempre deprimido e ansioso. Ainda outro, tenta retomar o casamento dois anos após o divórcio. Desde ter segredos íntimos revelados até tentar sair com a moça do escritório, a história desenrola-se entremeada por outras histórias.

https://www.youtube.com/watch?v=avLtDbX2teQ

E o público vai sendo levado por cada drama comicamente contado. O ponto alto é ver Ricardo Darín, aquela fera do cinema argentino, sentadinho num banco de praça com mãozinhas postas entre as pernas, vigiando a mulher que vai encontrar-se com o amante. Contrapor este personagem dele com o do filme “O Segredo dos Seus Olhos” é delicioso, pois percebemos a versatilidade do ator.

Queridos, é coisa linda mesmo de se ver, acreditem!

Mas será que um filme sobre dramas masculinos espanhóis consegue dialogar com a nova configuração pela qual passam os homens brasileiros? Eu, na quietude e na maciez da minha cadeira aveludada do cinema, consegui enxergar alguma proximidade. Mas, por favor, não estou a generalizar. Pois, qual mesmo o objetivo de tanto cansaço?

Porém, de uma coisa estou certa: ainda existe uma grande resistência da ala masculina em conversar sobre as mazelas da vida com um analista. A maioria acha bobagem desnecessária e, quanto mais idade, mais resistência.

Em contrapartida, as mulheres recorrem a várias terapias, desde a amiga astróloga de araque até a tia ovelha negra da família que mora em Ipanema e guarda uma Kombi colorida e enferrujada na garagem.

Um amigo meu confidenciou outro dia que os homens conversam sobre suas neuras de raspão, bem de leve, entre uma cerveja e outra e, fazem questão de mostrar que tudo está sob controle.

osqueoshomensBem, o filme pode servir de divã para homens e mulheres porque, na verdade, o outro sempre vai ser nossa mais importante escola da alma. O que se nota é que somente o outro, ou seja, o contato com o outro é que pode nos revelar. É este relacionar-se que acaba por acionar nossos monstros mais escondidos e, consequentemente, a efetiva cura.

Sinto que não me faço sozinha. Eu sempre me construo a partir do outro. Não adianta olhar para o meu rosto no espelho, jogar um sorriso e uma piscadinha e achar que só por causa disso sou uma garota legal. Eu preciso do outro para saber como estou funcionando e, se de fato, sou legal mesmo, pra valer. Nossas relações dizem muito sobre nós, sobre quem somos e o que provocamos.

O eremita pode pleitear a solidão e o monge a quietude do mosteiro, mas somente o homem disposto a sair de seus esconderijos mais internos e atravessar a alma das outras pessoas, tendo a sua própria atravessada por tal experiência, é que conhecerá a si mesmo.

Relacionar-se nada mais é do que conviver com os monstros do outro e verificar, de tempos em tempos, se é capaz de tal empreitada pacificamente.

Hoje, por causa deste filme, eu escrevo sobre meninos. Mas o menino guarda o homem. Decidida, pretendo entrevistar meninos em breve por causa disso. Vou ver se acho um bem pequenino que ainda não descobriu a obrigação de ser homem. Ou um homem que já aceitou que quem mora dentro mesmo é um menino.

Termino aqui, confessando-me inadequada no ofício de querer ajudar a ala masculina em seus labirintos de ser. Não é este meu intuito aqui. Bastam a mim minhas próprias minhocas, bem criadas por anos e confortavelmente escondidas no recôndito do meu inconsciente. Apenas desejo sorte a vocês, meninos! Muita sorte mesmo no caminho! Mas, se quiserem divertir-se um pouquinho, vale a pena conferir este filme. Quem sabe “Una pistola en cada mano” não funciona com um bom presságio de ventos e ares amigos?

Um beijo feliz, Mô Amorim.

Estreia no Brasil: 22/05/2014.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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