James Garner, um gentleman que deixará saudades

Um gentleman. Assim os colegas de profissão, críticos e público viam o suave, bonitão e talentoso James Garner. No cinema, na televisão e na vida real, Garner esbanjava charme, elegância e seduzia com uma bela voz, tão grave como a de um barítono, inconfundível. E ainda por cima era conhecido por sua dedicação a várias causas humanitárias. Um cara fantástico!

emily 14O grande ator imprimia naturalidade e espirituosidade em vários trabalhos memoráveis na telinha e na telona. Nascido em Oklahoma, em 7 de abril de 1928, James saiu de casa aos 14 anos e, aos 16, conseguiu um emprego como modelo, que lhe pagava o suficiente para se sustentar – 25 dólares a hora. Com um pequeno papel na Broadway, ao lado do lendário Henry Fonda,  em “The Caine Mutiny Court Martial”, chamou a atenção da Warner Bros., que o contratou para atuar em filmes – o mais notável dos primeiros foi “Sayonara”, em 1957, ao lado de Marlon Brando, e também em séries de TV. Naquele mesmo ano estourou na série western cheia de humor, ”Maverick”. Com este trabalho icônico que durou três anos, Garner se tornou um dos maiores astros da rede ABC, o que o levou a estrelar filmes que lhe deram grande prestígio e consolidaram sua carreira em Hollywood. Também foi sua primeira dor de cabeça no show business, porque, insatisfeito com o rumo da série e com a quebra de contrato por parte do produtor, acabou processando a Warner. Ganhou a ação, mas abandonou o show e foi substituído por Roger Moore. No entanto, sobreviveu a tudo isso com toda dignidade e a carreira cinematográfica trouxe-lhe um sucesso ainda maior.

Sua notável filmografia inclui títulos como  “Infâmia” (”The Children’s Hour”,1961), ao lado de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine;  “Fugindo do Inferno” (“The Great Escape”, 1963), com Steve McQueen, um dos melhores filmes de ”bros” de todos os tempos, onde a vida mais uma vez imitou a arte – Steve tornou-se seu vizinho e o considerava seu irmão mais velho. Também em 1963 mostrou seu charme e carisma nas comédias românticas “Tempero do Amor” (”The Thrill of it All”) e “Eu, Ela e a Outra” (“Move Over”) – ambos com a rainha de bilheteria, a adorável Doris Day.

Em 1964 estrelou o filme que considerava o seu favorito de todos que fez: ”Não Podes Comprar Meu Amor ” (“The Americanization of Emily”), ao lado de uma jovem e encantadora. Julie Andrews, cujo primeiro filme, ”Mary Poppins”, de Walt Disney, havia sido lançado pouco tempo antes. Deu química. E das grandes. Dirigido por Arthur Hiller (”Love Story”), o longa tem inúmeras qualidades que o tornam um cult por excelência,  seja pelas magníficas interpretações do par romântico, as espetaculares fotografia em preto e branco e direção de arte (indicadas ao Oscar),  ou os diálogos ferinos e brilhantes de Paddy Chayefsky :

”Não quero seu chocolate Hershey’s, meu país está em guerra, não tente me mostrar como vai ser lucrativo me apaixonar por você, Charlie! Não tente me americanizar!”;

“Vocês que odeiam os americanos me fazem chorar de tédio, Emily! Essa guerra é consequência da cobiça, barbaridade e burrice europeias; não ponha a culpa em nossas garrafas de Coca-Cola!”.

julie james 3James tem alguns dos seus maiores momentos no cinema neste filme antiguerra cult que continua atualíssimo e foi  lançado em blu-ray recentemente.  Garner simplesmente arrasa no papel do oficial Charlie Madison, que na iminência da 2ª Guerra, considerava-se um esperto covarde levando uma vida pra lá de boa, apenas providenciando todas as mordomias para o general (Melvyn Douglas). Tudo muda em sua vida ao se apaixonar por uma jovem viúva durona, Emily (Andrews), e mais ainda quando é enviado em difícil missão.

Em 2005, Julie Andrews, ao entregar-lhe o prêmio do Sindicato dos Atores, o SAG Awards, em homenagem à carreira, falou em seu discurso, com seu costumeiro bom humor, como foi filmar com James: “Achava-o atraente e pensava, ‘Já que minha primeira cena romântica no cinema vai ser com ele, tenho que fazer o melhor possível!’ No término das filmagens, ainda sentia os joelhos tremerem!”. No final de maio de 2014, em seu show na Grã Bretanha, ela provocou risos novamente quando voltou ao disparar: “Perdi a virgindade no cinema com James Garner, que sorte para uma atriz em início de carreira!”

Com mais um grande êxito, ”Grand Prix” (1966), o atlético Jim (como lhe chamavam os amigos), que já curtia golfe, ganhou uma nova paixão, a qual passou a compartilhar com o amigo Paul Newman: o automobilismo. De 1970 a 1980, voltou ao auge na telinha com uma série que virou um grande hit, “Arquivo Confidencial” (“The Rockford Files”) no papel do famoso detetive Jim Rockford.  Junto com o sucesso, infelizmente vieram novas dores de cabeça como as vividas na época de “Maverick”: acabou processando o estúdio novamente e também as cenas de stunt que ele próprio fazia trouxeram-lhe dores musculares, ossos quebrados e depressão, o que pode explicar como foi ficando debilitado fisicamente –  cinco pontes de safena em 1988, cirurgias nos dois joelhos e um derrame em 2008.

Nos anos 80, o talentoso e sempre bonitão Garner voltou novamente ao apogeu: em 1982.  Brilhou novamente ao lado da amiga Julie Andrews na deliciosa comédia musical “Vitor ou Vitória?”, dirigido pelo marido da estrela, Blake Edwards, indicado a sete Oscars. Novamente, diálogos inteligentes – desta vez, de Edwards, deram momentos inesquecíveis para o cinema. Garner, como o gangster King Marchand, apaixonado por quem acredita ser um transformista, Vitor (ou Vitória), confessa a ele antes de beijá-lo/a:

“Não me importo se você for homem!”.

E Vitória lhe responde:

“Eu…não…sou…homem!”,

Com o gangster concluindo:

“Mesmo assim eu não me importo!”

Em 1988, Blake Edwards o chamaria novamente para estrelar com Bruce Willis o nostálgico  “Assassinato em  Hollywood”  (“Sunset”), no papel de Wyatt Earp. Entre os dois filmes, em 1985, o grande ator teve um momento de glória com o reconhecimento da Academia: recebia sua primeira (e única) indicação ao Oscar, pelo belíssimo trabalho em ”O Romance de Murphy”, ao lado de Sally Field, que obviamente adorou trabalhar com ele. Quem levou o prêmio naquele ano foi o igualmente ótimo William Hurt por “O Beijo da Mulher Aranha”, clássico que alavancou a carreira internacional da nossa musa Sonia Braga. No entanto, prêmios não faltaram na carreira de James Garner: teve incríveis doze indicações ao Globo de Ouro – recebeu três; notáveis catorze indicações ao Emmy (primetime), ganhando dois, foi vencedor de dois People’s Choce Awards e  quatro indicações ao SAG Awards, recebendo um especial pela carreira.

Na década de 90, o querido ator revisitou seus dois personagens icônicos da TV em diferentes maneiras e veículos: no filme “Maverick” (1994) teve uma participação muito especial e afetiva ao lado de Mel Gibson (este no papel de Bret Maverick) e Jodie Foster; após todo o ressentimento ser superado e de ter feito acordo na justiça,  reviveu seu famoso Jim Rockford em oito telefilmes de “Arquivo Confidencial” (de 1994 a 1999).

Em 1999, voltou a brilhar na minissérie “Laredo – O Último Desafio” ( “Streets of Laredo”), no elenco da qual estava  nossa Sonia Braga, que, como Garner,  também dava mais uma ótima performance (e premiada com o Lone Star Award).

No mesmo ano,  pela terceira vez,  atuou com sua amiga de tantos anos, Julie Andrews, num telefilme de grande audiência, “Uma Noite Especial” (“One Special Night”),  comovente drama onde o icônico casal cinematográfico, em plena forma e com a química de sempre, encanta. O enredo gira em torno de uma médica viúva que oferece carona a um simpático cavalheiro  que esteve visitando a esposa internada com Alzheimer e precisa ir ao jantar de ação de graças preparado pelas filhas que o estão visitando. O tempo piora muito e o carro enguiça na estrada em plena nevasca, o que dá início a uma história cheia de drama, mas com espaço para humor e um clima muito romântico.

jamesgarnerJames Garner continuou sua carreira formidavelmente, atuando sob a direção de Clint Eastwood em “Cowboys do Espaço” (“Space Cowboys”, 2000) e de uma certa forma, despediu-se da sétima arte com um primoroso trabalho que fechou com chave de ouro sua ilustre carreira: estava simplesmente extraordinário ao lado de Gena Rowlands no cult ”O Diário de Uma Paixão” (“The Notebook”, 2004), bem sucedida adaptação do best-seller de Nicholas Sparks, que rendeu a Jim uma merecidíssima indicação ao SAG Awards, no mesmo ano em que seria homenageado pelo Sindicato dos Atores. Incansável, continuou trabalhando até recentemente, emprestando sua belíssima voz a curtas ou seu carisma à série “8 Simple Rules” (de 2003 a 2005), sempre com sua habitual classe e elegância.

A notícia de sua partida foi recebida com profunda tristeza pelos familiares (um raro caso em Hollywood, era casado com Lois Clarke desde 1956, com quem teve dois filhos), amigos, críticos, jornalistas, colegas de trabalho e admiradores. James é reverenciado não só pela excelência de sua arte, mas também pelos belos ideais democráticos e engajamento político.  Faz parte da história dos EUA também por ter ajudado a organizar e participado da famosa marcha pelos direitos civis de 1963, de mãos dadas com a excelente Diahann Carroll, junto com Harry Belafonte. Mais do que pela beleza, charme, voz,  carros de corrida, armas e stunts, James Garner será lembrado pela espirituosidade, dignidade, talento e generosidade. Grande James Garner!

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

2 thoughts on “James Garner, um gentleman que deixará saudades

  1. GOSTEI MUITO DE LER ESSA MATERIA SOBRE ESSE ATOR LINDO,MARAVILHOSO,UM EXCELENTE ATOR!!!!A VIDA DELE AI DESCRITA PELO WALDEMAR LOPES NOS PASSOU DETALHES DE UMA VIDA BEM VIVIDA PELO JAMES GARNER!!!!!VAI NOS DEIXAR MUITA SAUDADE!!!!!O CINEMA ESTA TRISTE COM A PARTIDA DO ATOR TAO QUERIDO!!!!!

  2. Excelente, Waldemar Lopes!
    Não somente o interesse pelo astro e sua carreira, mas também a forma como foi escrito o texto, prenderam a atenção do princípio ao fim da leitura.

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