Criaturas clandestinas

“Em Itália é hábito dar os parabéns e presentear as pessoas não só no dia do seu aniversário, como também no dia do santo que tem o seu nome”

Descubro essa dupla comemoração em um livro. Assim, como sigo a entender melhor a alma do mundo nos filmes que vejo.

“Sou um clandestino” é um dos títulos da escritora italiana Susanna Tamaro que descobri em minha adolescência e que agora retomo.

Como tantas outras coisas.

O personagem principal do romance regressa para resgatar suas raízes: “Nenhum de nós havia regressado: só eu, talvez como naquelas ilustrações antigas em que as serpentes mordem a própria cauda, voltava ali para pôr fim às minhas inquietações”.

Quantos de nós ao assistir a um filme procuramos uma serpente que nos inunde de veneno o corpo.

Veneno bom.

Em que medida não somos clandestinos quando nos sentamos na poltrona de uma sala de cinema espiando à distância o desenrolar de cotidianos que não são nossos.

Em sua busca, o ponto de que se parte é o do desassossego.

“Senti, por um instante, uma desorientação profunda: sabia que estava longe, que não estava incluído em nenhum lugar e isso não pela minha condição temporária de viajante, mas por um destino inexorável”.

E isso acontece “porque na vida nunca tive a capacidade de me definir”, e essa plasticidade é possível quando acobertados pelo escuro do apagar de luzes consentida, nos redefinimos em personagens que nos enchem as medidas – como se fossem nossas. Ou, aquelas que presumimos nos moldar, na medida em que assim como o personagem sem nome do romance de Susanna Tamaro, somos incapazes de definição.

Mas isso incomoda.

souumclandestino“Visto-me lentamente; tenho à minha frente um dia completamente vazio, sinto-me ligeiramente intimidado com isso. O tempo é difícil de viver, sem nenhuma definição” – afirma o homem que procura um sentido.

Detenho-me na palavra sentido e penso na incongruência de uso que dela floresce: o que se procura é a ação, a justificativa e não propriamente o que se sente, o que pulsa em efervescência.

Qual será o sentido, então? Ou deveremos por as coisas como “agido”?

Perdi a conta das vezes que fui ao cinema à procura de um sentido para o dia que passava. O “agido” não me move, contra todas as circunstâncias, para buscar a agua que se deseja em um deserto.

Tanto o cinema quanto a literatura me saciam os sentidos em possibilidades.

Queria matar a sede.

Em “Sou um clandestino”, a suspensão do tempo também acontece.

“No regresso passámos pela carreira de tiro e aí aconteceu um fato inquietante. Enquanto caminhávamos, ouvimos um disparo e, após alguns instantes no cândido vestido da Agnese surgiu uma mancha vermelha. O seu rosto fez-se térreo, o gelado caiu-lhe da mão”.

E aqui uma pausa para respirar e permitir que conjeturas se formem como nuvens no céu. Filmes e livros nos permitem imaginar o futuro sem medo das consequências.

Agnese poderá ter morrido. Ou talvez não. Independentemente do que estiver escrito ou na tela projetado a seguir, o que pensamos é propriedade nossa.

“Uma bala perdida tinha atingido um pássaro que, ao precipitar-se no solo, manchara a veste imaculada com o seu sangue”.

Gosto também da solução das palavras escolhidas pela escritora.

Mas a minha versão dos fatos continua com validade preservada.

“Porque não sou capaz de estar presente no mundo, porque continuo a jogar?” pergunta o homem inquietado.

A minha pergunta – talvez dinamizada pelo músculo que se exercita ao ler livros e ver filmes – é a que mundo ele se refere?

O mundo real? E em que medida, o que lemos e vemos não se constitui como realidade e não usarei a palavra paralela para a qualificar.

Simplesmente porque não o sinto assim.

Charles Chaplin disse “A vida é maravilhosa quando não se tem medo dela”.

Ao ler essa afirmação, recordo-me da solidão “em parte por vontade, em parte por acaso” que afeta não só o protagonista do romance, mas vários protagonistas que conheço.

Ele diz: “Talvez, a solidão começa a fazer-me mal” e acrescenta quando em sonho tem a sensação de estar a ir para uma festa sem ter a certeza de ter sido convidado.

A vida também tem isso, mas a que diz respeito aquela que acontece na sala do cinema e no virar das páginas de um livro, impedimentos iniciais não há.

O que existe é o convite.

Em “Sou um clandestino” há uma metáfora sobre um relacionamento amoroso, mas que por seu caráter transitável aplico à dualidade de vidas:

“Era um contínuo chocar e fugir, como se fôssemos duas criaturas da floresta”.

A floresta é a mesma. Repare: criaturas vivas que ao se encontrarem, se chocam, provavelmente pelo reconhecimento de singularidades que necessitam de ser incorporadas para que o sentido aconteça.

Ocorre-me a imagem de uma gangorra quando penso no equilíbrio entre as vidas que vivemos: todas reais.

No movimento que desce e sobe há uma equidistância de intenções que se retroalimentam.

Agnese, irmã do protagonista para além de atravessar a rua de olhos fechados para saber se tinha de verdade um anjo da guarda nos oferece pela leitura do livro, um ritual que fala-me muito sobre a vida e suas memórias.

“Durante as férias, ao passear, enchia saquinhos com o que quer que fosse que, pela sua estranheza, lhe parecesse digno de interesse”.

Em criança, o interesse é palpável como gravetos, folhas e pedrinhas e se coloca em saquinhos. Quando crescemos e de certa maneira esta criança vira clandestina dentro de nós, há sempre a possibilidade de saquinhos serem transformados por ingressos de cinema, livros comprados, vida que se vive.

Sem medo.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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