O Homem Duplicado: uma equação fictícia sem effet monde ou didatismos

Uau! É assim que inicio a pretensa análise deste filme. Baseado na obra homônima de Saramago, o longa conta a história de um professor de História, Adam (Jake Gyllenhaal) que, por sinal, está o maior gatinho nesta trama. Ele é um professor de História numa universidade e vive imerso num cotidiano cíclico, cheio de repetições, semelhante a um disco onde a agulha passa sempre naquela mesma faixa, vez após outra.

Em seu discurso, o professor gatinho faz questão de apresentar a seus alunos o entretenimento como uma forma de alienação e as tomadas de poder dos grandes homens apenas um repeteco constante na História.

Dos assuntos ministrados em aula até o sexo diário com a namorada, tudo remonta uma sucessão de cenas programadas dentro de uma vida previsível até que um colega de profissão, numa tentativa de puxar conversa, acaba por sugerir um filme em DVD cujo título é “Querer é poder”. Adam, para não se sentir sempre um peixe fora d’água, aluga o filme. Ao assisti-lo, percebe que um dos atores é idêntico a ele. Aí começa a movimentação alucinada do enredo.

Um adjetivo para esta ficção? Sofisticada. A trama não perde tempo com qualquer effet monde, ou seja, não faz uso de efeitos retóricos de persuasão para tentar explicar algo. Tampouco, é didática como o conhecido Matrix. Não tenta elucidar teorias mirabolantes ou subliminares. Não concilia, não acalma e nem responde a nenhuma das suas perguntas mais íntimas, querido leitor. Sinto muito. Mas, por favor. Não deixe de ver esta tragédia pós-moderna. Humildemente, suplico.

A busca do professor de História por decifrar seu próprio mistério induz-nos a pensar em um herói grego, usando a figura da mãe como oráculo, tentando salvar sua autenticidade enquanto homem. Aliás, várias figuras metafóricas nos são apresentadas. Uma delas é a aranha. Corra ao dicionário de símbolos mais próximo, sugiro. Há simbolismos em tudo. Mas mesmo que você não se atenha a isso, a todo esse insumo filosófico presente no filme, continua sendo imperdível. Garanto.

Pois bem, não é de hoje que ouvimos: “Seja você mesmo!”. Não é de hoje que nos empurram a ideia da necessidade de busca por nossa individualidade, porém, paradoxalmente, o mundo nos empurra justamente para o contrário. Lembro-me quando eu era adolescente e da minha constante mania de querer ser diferente. Não queria ser cópia. Queria ser única. E ainda quero, confesso. Mas antes, era minha causa de existência. Hoje, é minha senha de sobrevivência. Afinal, ninguém gostaria de ver sua própria cópia em série andando por aí. Imagine um monte de você mesmo esparramados pela cidade. Pensar nisso se assemelha a um pesadelo surreal.

Vamos combinar que no fundo e no raso, todo mundo quer ser único. Perigoso, mas não inevitável perguntar se as sensações que provocamos nos outros não são apenas ecos alheios. Quais situações irão se repetir e em que parte iremos nos desconfigurar na lembrança do outro? Melhor não pensar nisso, não agora.

ohomemduplicado-banner_zps20aeff26Admitir cópias de nós mesmos traria à nossa consciência a triste conformação de nossa mediocridade. Se produzidos fôssemos em série, fatalmente inexistiria nossa humanidade, pois esta é nossa grande marca: a de sermos únicos. Cabe aqui perguntar se não estamos nos desumanizando numa sociedade onde precisamos, a todo o momento, conferir padrões para ver se estamos neles inseridos. E a mídia, multiplicadora voraz de imagens a serem seguidas, sem dúvida, corrobora isto. Quantas vezes ando por aí, pela cidade, e vejo tipos quase uniformizados, escondidos em estilos aceitos pela maioria.

Entre Adam e seu sósia Antony, a semelhança é incrível, desde uma cicatriz no tórax até a voz. Porém, é a marca da aliança na mão esquerda de um dos personagens que suscita a reviravolta veloz na trama. É… certas marcas demoram a sair, não?

Bem, felizmente, trata-se de uma ficção. Pelo menos, até aqui. Mas não deixa de ser assustadora a ideia da despersonalização humana. Numa leitura mais apurada do filme, há de se perceber que a História é revisitada e nisso surge um questionamento: até que ponto ela não é inventiva, ou seja, pura ficção?

O filme acaba abruptamente. Observo que a cena final provocou risos demorados em duas velhinhas sentadas logo à minha frente. Em mim, porém, provoca susto. Mas não deixei de gostar da reação das velhinhas. Nem posso dizer que, por causa da última cena, eu até me arriscaria a mudar o título do filme de “O Homem Duplicado” para “O Homem Multiplicado”. Mas sinto muito, não posso contar o final.

Um beijo feliz e até a próxima! Mô Amorim.

Estreia no Brasil: 19/06/2014.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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