Tarja Branca: Só se for psicolúdico

Havia um homem que por muitos e muitos anos trabalhou em um banco. Dia após dia, ele carimbava cheques de pessoas que não conhecia para serem devolvidos.

Sentia que não era feliz, mas o que fazer? Um dia ele acordou e o sol estava mais amarelo, a brisa era ainda mais suave e ele descobriu que não precisava mais trabalhar em um banco.

Foi brincar.

Esse homem usou o fio de vida inteiro de seu ser. “Brincar é usar o fio de vida inteiro de cada ser”, acrescenta a pedagoga Maria Amélia Pereira.

De forma séria e não sisuda, a natureza do brincar e suas implicações na vida do ser humano vão tomando forma na voz, no jeito, no corpo de depoimentos de pessoas que entenderam, sabiamente, que o brincar faz viver.

Assim como os meninos egípcios que empurravam carrinhos pelas ruas calcadas em dígitos de mais de três mil anos atrás.

O que faz com que os meninos de hoje – pergunta a educadora Lydia Hortelio –  continuem a empurrar carrinhos?

É uma dinâmica do empurra-puxa. Puxa e empurra. De imediato penso na dinâmica da criança que se fez gente grande – é aqui abro um parênteses – não se usa o gente pequena com a ordem de grandeza que valoriza o que já cresceu como se fosse maior.

Em detrimento do pequeno e por ser infantil se tolera as “arruaças” e brincadeiras.

Parênteses fechado e retomando a conversa, na dinâmica do empurra-puxa, lembro do homem grande que vai ao encontro do ônibus não permitindo que ele venha até ele no ponto e quando entra fica paralisado no meio, mesmo com espaço no fundo para sentar.

Esse comportamento me intriga e tem a ver sim – é reflexo – da ausência do brincar.

Com o negócio imperador da sociedade consumista em que supomos que vivemos – e esse é outro parênteses que clama por ser aberto – que nega o ócio como condição essencial para que o processo criativo aconteça – e aqui partilho que ao caminhar pelas ruas de forma descontraída as ideias vão se formando como uma nuvem prestes a chover – adoecemos.

Não chovemos quando é preciso. A nuvem de pensamento criadora incha assoberbada de água que quer cair, de paradigmas que precisam ser.

Renata Meirelles na missão do projeto “Territórios do brincar” que coordena, fala de algo que bate com força no chão dos meus pensamentos: “Ouvir o Brasil a partir da voz das nossas crianças, que a um só tempo retratam a universalidade da infância e refletem e espelham o povo que somos”.

Duas questões que não rivalizam dentro de mim porque ocupam espaços equidistantes: a escuta sensível e urgentemente necessária e o que somos enquanto povo.

Renata conta do seu desespero em crescer e como tinha “dó” da mãe que se mantinha imóvel tomando sol na praia enquanto ela brincava em todos os sentidos que a imaginação e a interação com a natureza são capazes de garantir.

O pai, por sua vez, ofertou-lhe uma solução que apazigou a menina assustada com o crescimento, com o deixar de ser criança sentida no momento. Colocaria uma pedra em sua cabeça que a impediria de crescer.

Renata transformou a pedra matéria em um símbolo de que é possível preservar a criança que já fomos um dia.

“Tarja branca”, dirigido por Cacau Rhoden, entrelaça em documentário várias vozes de pessoas que entenderam a importância de brincar (ou talvez não esqueceram).

Gosto quando revisitam suas fotografias antigas e dialogam com a pessoa que está ali e que de repente pede explicações sobre o que foi feito com um “tantão” de sonhos.

tarjabranca“E agora, José”, ou Maria, ou Ana, ou João ou qualquer um que sofre o desdobramento do tempo. O questionamento é inevitável.

Busquei as minhas e lá estava eu, ora sorrindo, ora séria como o olhar enigmático de “Monalisa”,como conta o músico Wandi Doratiotto.

E em um texto de parênteses, para mim “Monalisa” era um sorriso enigmático, mas Wandi me fez perceber no olhar a mesma proposta sarcástica que ele advogava para si na fotografia de menino. Um menino que brincava na rua de manhã à noite.

Olhei as minhas fotografias bem nos olhos e tive que responder algumas perguntas: incômodas por certo, mas de um diálogo com a criança que se faz necessário em um tempo que caixas de música, de sapato, as caixas cheias de concha colhidas na praia entre o balanço das ondas foram substituídas por caixas fechadas em que transitamos, trabalhamos, somos cativos de uma sociedade estruturada para o consumo, e não para o olhar.

O olhar que observa e identifica o lugar do outro, que convida para a brincadeira.

“O meu remédio é de tarja branca” explica o homem que saiu do banco e hoje é artista plástico: de um lado Santo Antônio, do outro São Francisco. E profetiza: haverá um tempo em que o remédio entrará pelo ouvido em vez da boca.

O remédio é a palavra que brinca.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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