Segunda-Feira ao Sol: quando todos os dias são segunda

Passamos a maior parte das nossas vidas no trabalho. Ele faz parte de nós e do que somos de alguma maneira. “Segunda-Feira ao Sol” mostra como é a vida de quem perde o emprego e passa a questionar a sua identidade e competência. Com Javier Bardem e Luis Tosar a história mostra a vidas de homens que perderam o emprego após o estaleiro naval que eles trabalhavam foi comprada por investidores estrangeiros, que construiriam um hotel turístico de alto luxo. A história se passa numa região portuária da Espanha, mas poderia ser em qualquer lugar. O filme mostra a ruína psicológica desses homens que perderam o emprego. Quem conseguiu buscar alternativas também precisa se readaptar à nova vida ou se submete à situações precárias para ganhar a vida. Para completar, em um sociedade patriarcal, a falta de emprego mexe no “orgulho” e na “masculidade” desses homens.

Há alguns anos, quando saí de um determinado lugar, onde passei muitos anos, escutei de uma pessoa que a gente tem de aprender a não se apaixonar por onde trabalhamos, pois perdemos o momento certo de “romper” o relacionamento não traz mais nada de bom para você. Sim, somos só um número e vestir a camisa do lugar que se trabalha é ser competente e não achar que você é dono da empresa (aliás, nem isso te deixa imune. O Steve Jobs foi despedido na empresa que fundou!).

Em mais de dez anos de carreira, vi gente que ajudou a “enxugar” o local para trazer mais produtividade (isso quer dizer, pessoas fazendo o trabalho de duas). Depois ele mesmo ser “desligado”. Soube de gerentes de RH que disseram “com o seu salário contrato três pessoas” e depois também ser substituída por alguém com um salário menor. Já vi o importante se transformar em urgente por falta de gestão e funcionários ficarem fazendo hora-extra. Para depois escutar que funcionário competente não faz hora extra.

“Vivemos numa precariedade tremenda”, diria meu bom velhinho, Bauman.  Segundo ele, a reestruturação produtiva do mercado de trabalho favoreceu a precarização do trabalho. Essa insegurança laboral que vivemos tem haver com as mudanças institucionais que ocorrem de maneira veloz do mundo do trabalho. Ainda é acentuada pelas crises econômicas e financeiras de muitos países. Nos transformamos em coisas. O curta-metragem argentino “El empleo” mostra bem essa “coisificação” do ser humano.

O que me faz gostar de “Segunda-Feira ao Sol” e  de “El empleo” é que esses filmes fazem uma crítica que vai ao ponto que vivemos hoje. Tempos Modernos é um clássico e filmes atuais como “O Menino e o Mundo” resgatam essa crítica. É interessante mais, podemos dizer que a questão hoje não é a maquinação da mão de obra, mas sim a precarização do trabalho e o ser humano passar ser uma “coisa”.

Tive a oportunidade de trabalhar  com o que escolhi para a minha vida e até mesmo em lugares cobiçados por muitos jornalistas. Dou graças a Deus que nunca subiu a minha cabeça. Não é o lugar que se trabalha que faz um bom profissional. Geralmente, quem é deslumbrado é quem mais sofre quando tem de sair de um lugar que achava que fazia parte dele.

Em um dos cortes que presenciei no jornal onde trabalhei, um dos profissionais demitidos tinha mais de 20 anos de casa e sofreu um derrame. Havia uma menina que fez faculdade comigo que sempre se lembrava de mim em época de cortes. Quando a notícias dos cortes foram divulgadas, à noite, ela já tinha me contado no MSN (o Facebook ainda estava no seu início). Ela novamente reclamou do seu trabalho e, sem pudor, perguntou se já começaram a contratar gente com um salário menor de quem foi contratado. Aí entramos em outra questão dessa fragilidade. Muitos profissionais topam receber um valor menor do piso e não percebem que somente fragilizam ainda mais a profissão. É claro que as pessoas têm contas para pagar. Mas qual é o preço?

Muitas empresas reclamam que não conseguem reter seus funcionários. O fator salário é importante, mas o respeito e as oportunidades de crescimento são fatores principais. “Segunda-Feira ao Sol” é um filme obrigatório não apenas para entender a história recente, mas sim, também a entender a relação que o trabalho tem na sua vida. Lembre-se seu emprego é só uma parte da sua vida, ele não faz quem você é. Mas muitas vezes ele é a única coisa que sem tem e, sem ele, é perder uma parte de sua identidade.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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