Eu, mamãe e os meninos: monólogos, diálogos e surpresas

Que grande surpresa foi o longa francês “Eu, mamãe e os meninos”, de Guillaume Gallienne para mim! Era uma terça-feira movimentada. Depois da terapia, fui a um café sonhar um bocadinho com a cara escondida em livros. Pensei, de repente, em pegar um cineminha. No entanto, há sempre monólogos dentro de mim brigando sem parar. Vozes diziam por dentro: “Você tem muitas coisas para fazer em casa, melhor pegar a sessão outro dia”; “Mas você precisa de uma pitada de ficção para continuar a labuta.” Espantei as minhocas e entrei no cinema. Poucas pessoas lá dentro. Elogiei os óculos da moça que pegou meu bilhete. Fui achando a posição certa na cadeira. As luzes se apagaram e a grande tela se iluminou. O que este filme traria para mim?

(Pausa pensante).

Neste momento, temo não tecer minha impressão com os mesmos lampejos de epifania que Guillaume o faz em sua produção. Por isso, antes de tudo, pardon. Digo baixinho novamente: pardon.

E graciosamente, a película vai se descortinando imprevisível, com uma veia teatral onde quase conseguimos imaginar um cenário montado sobre o palco. Uma verdadeira riqueza de atuação.

Agora, peço, meus queridos: assistam ao filme! Sem medo. Ele me arrancou gargalhadas, mas me aprumou no terreno da reflexão sadia e sem hipocrisias. A produção não foi recebida com alarde aqui no Brasil, mas se trata de uma obra delicada e cômica; sensível e nevrálgica. Recebeu o mais importante prêmio do cinema francês, incluindo melhor ator e melhor filme.

O longa começa pelo fim, com o protagonista tirando a maquiagem antes de adentrar o palco. Como se dissesse: sem máscaras dessa vez. E quanto das nossas impressões não são maquiadas nesta rarefeita realidade? Uma coisa é certa: o mais real e consistente é o que vai dentro. A realidade externa apenas é um reflexo dos nossos temores.

O enredo é tecido de forma a nos apresentar o passado do protagonista revisitado, onde o revezamento acontece entre sua figura e da própria mãe. Há uma admiração visceral pela figura materna, que confunde. Implicitamente, as cenas são recheadas com diálogos inteligentes que nos levam a pensar sobre o que é normal. O que é anormal? O que é feminino? O que é masculino?

E um passeio nos gêneros se inicia, revelando a fixação da sociedade com estereótipos. Mas a dança dos monólogos é agradável e calma, como se fôssemos convidados a um jantar francês com intelectuais conversando demoradamente sobre a mesa. O filme conversa. Isso mesmo. A gente sai pensando e duvidando das certezas que o mundo tem. Naturalmente, a plateia é levada a se desfazer de conceitos fixos e o fim da trama é delicioso.

A desenvoltura com que Guillaume interpreta o protagonista e a própria mãe é admirável. Não deixa nada a desejar. É convincente e nos prende aos trejeitos sutis e bem elaborados: a forma como segura o cigarro, o balançar das cadeiras ao andar, cotovelos apoiados com mãos que parecem ter vida própria. Artístico do começo até o final.

Apesar de se encaixar na categoria de comédia, “Eu, mamãe e os meninos” não perde sua seriedade quando trata da sexualidade, tema tão polêmico hoje em nossa sociedade. De um lado, vive-se uma onda assustadora de homofobia e, de outro, a misoginia é acesa e estampada em jornais e em salas de terapeutas familiares.

eumamaeeosmeninosO momento mais sublime do filme é quando Guillaume fala das mulheres, elogiando-as. Eu, se munida estivesse de um controle remoto, teria voltado à cena mil vezes. Digo isso sem exageros. E ali, exatamente neste ponto da trama, senti uma virada tímida, que estaria por se revelar.

Numa sociedade onde carimbos são distribuídos a quem não se encaixa num modelo a todo instante, a busca da identidade se faz necessária. Esta busca não acontece sem hipocrisia ou medos. No momento atual, confesso que ando com as antenas acesas aos comentários preconceituosos. Em quinze minutos de conversa, já consigo detectar o machismo ridículo de qualquer sujeito. Para somar ao caldo indigesto, temos o senso comum reinando nas redes sociais. O que se percebe é que ninguém quer perder tempo lendo, aprofundando-se, refletindo, colocando-se no lugar do outro. As análises são sempre muito rápidas e superficiais, herdadas sem o mínimo de questionamento. E assim, há pouco espaço para transformações profundas e internas num mundo caótico como o nosso. É mais fácil pintar o rosto com alguma tinta que agrade o grande público. Por isso, “Eu, mamãe e os meninos” nos presenteia com esta visita a um terreno tão delicado, mas necessário de ser retomado. Eu não duvido que a feitura deste longa rendeu ao seu produtor uma imersão terapêutica.

E se caso você se aventurar a ver este filme, não saia por aí achando que pode agora explicar o mundo. Nosso grande erro enquanto humanos é tentarmos fechar conceitos e diagnósticos sobre coisas que estão mudando, estão em processo. Nada é eterno. Não estamos prontos. O filme provoca tudo isso, mas de um jeito calmo, típico tédio charmoso francês.

Por isso, não confunda crocodilo com cocô de grilo. Não confunda as coisas ou as pessoas. Nem a cabeça delas. Pense sob outros prismas e não seja somente a herança fácil e pronta de seus velhos pais.

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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