A Culpa é das Estrelas: Um romance teen muito acima de outros do gênero

Eis um tipo de filme o qual precisamos ter cuidado na hora de desenvolver um diálogo, analisá-lo, pensar a respeito. “A Culpa é das Estrelas” é baseado no romance adolescente best-seller mundial escrito por John Green. Com os primeiros trailers divulgados, o hype criado em torno do filme e tantos longas também inspirados na literatura recente voltada ao público jovem, teve quem torcesse o nariz. Não apenas antes do lançamento, mas colegas críticos que entraram na onda de comparar a história a “Romeu & Julieta”, “Love Story”, etc. Compreensível. Nós, críticos, pendemos à dúvida, ao questionamento, à tentativa de enxergar além. Nem sempre acertamos. Ainda mais quando acabamos tomados pelo cinismo e esquecemos que somos, apenas, interlocutores entre a obra artística e o público. Compreender o drama dirigido por Josh Boone como simples derivado da obra de Shakespeare, do sucesso de 1970, dos escritos de Nicholas Sparks ou coisa assim é cair no reducionismo. É história de amor. É sobre primeiro amor. Estão lá os obstáculos. E que obstáculos. É feito para nos fazer chorar. E consegue. Mas há muito além da tragédia, do romance. Não li o livro – vale lembrar, sempre, que a análise de um filme independente de sua fidelidade ao material original, por mais que isso desagrade fãs.

A trama apresenta Hazel Grace Lancaster (Shailene Woodley).A adolescente enfrenta um câncer que já lhe devastou boa parte do pulmão e se mantém viva graças a uma droga experimental. Após anos lutando com a doença, é forçada pelos pais a participar de um grupo de apoio cristão. Lá, conhece Augustus Waters (Ansel Elgort), que perdeu uma perna quando teve câncer. Eles pensam diferente, encaram seus problemas de maneiras diferentes. E se completam. Inicialmente é ele quem se apaixona, se aproxima. Logo, o sentimento será mútuo.

Vale a pena se envolver, mesmo sabendo que ambas as vidas podem não durar tanto? Há o medo de machucar o companheiro. Existe a relação com os pais protetores. Lá está a tristeza. Estão lá as consequências causadas pelos tratamentos. No entanto, não há autopiedade. Por mais que haja a tendência ao choro, à lágrima, existe perseverança, uma certa graciosidade nas situações. Principalmente quando o casal protagonista está junto: Woodley e Elgort, que foram irmãos em “Divergente” (2014), nos passam a impressão de serem almas gêmeas. São bons atores. Ela, que despontou em “Os Descendentes” (2011), quando fez a filha de George Clooney. O ator esteve na refilmagem de “Carrie, a Estranha” (2013). Há química, uma cumplicidade que soa real. Gostamos de vê-los. Torcemos pela felicidade deles. Felicidade essa que aparece aqui e ali, por mais que a doença seja devastadora.

culpaAlguns poderão apontar que, na vida real, jamais seria assim. Que pacientes terminais não agem dessa maneira. Outros terão uma visão preconceituosa, dizendo que os protagonistas são jovens bonitos, brancos, de classe média. Seria de uma generalização tola. O filme fala de perseverança, esperança e é capaz de emocionar pessoas de qualquer raça, classe social, origem. É pontuado por diálogos espertos, tem humor – especialmente nas cenas que envolvem o melhor amigo de Elgort, Isaac (Nat Wolff) e uma trilha sonora cool, que remete a “(500) Dias com Ela”. E é crítico quando precisa. O escritor interpretado por Willem Dafoe, autor do livro que inspira o casal, é retrato do amargor, da frustração, do intelectual que resolve se isolar da sociedade para cair de cabeça em seu mundinho particular, agindo de maneira prepotente, cínica. A incapacidade inicial dele em entender e corresponder à atitude dos jovens pode ser a mesma de críticos que julgam prematuramente adaptações de romances adolescentes: negá-los sem ao menos se aprofundar sobre o assunto.

Em certos momentos, aborda o esquecimento, o que fazer para sermos lembrados. Uma questão complexa, e não à toa surgem á tona Anne Frank, seu diário e sua casa. No entanto, o filme e seus personagens ficam conosco na memória. Bonito, singelo, com um elenco interessante que inclui Laura Dern (a mãe de Hazel), “A Culpa é das Estrelas” está muito acima de outros longas do gênero. Nos faz rir, chorar e refletir a vida. Precisa mais?

Estreia no Brasil: 05/06/2014.

André Azenha
Jornalista por formação, crítico de cinema, produtor cultural, pesquisador, curador, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Colaborou com críticas semanais nos jornais Expresso Popular e quinzenais no jornal A Tribuna. Colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest - Festival Internacional de Filmes de Santos, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest e PalafitaCon. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante. Atualmente participa do projeto Hora da Cultura, pela Secult Santos, levando sessões de filmes e bate-papos às escolas da rede municipal. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi. Escreveu sobre cinema para sites, jornais e revistas de Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Limeira e Maceió. www.facebook.com/andreazenha01

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