Escrevendo sobre a radiografia do pensamento de cineastas

Quando penso em cinema, logo me vem à cabeça a ideia de que todo filme deveria ser comentado, analisado, independente de sua qualidade, de estar ou não em cartaz. Mas a verdade é que há muitos filmes órfãos e, que para eles, ninguém teceu comentário algum. Triste, não? Isso até me faz lembrar a máxima citada por criaturas polêmicas de nossa tosca sociedade: “Falem mal, mas falem de mim.” A coisa é mais ou menos por aí.

O fato é que existem mais filmes que críticos. Porém, independente de um filme ser brilhante ou não, escrever sobre cinema é uma arte. Já li críticas sobre certos filmes tão boas, mas tão boas, que ofuscaram a verdadeira beleza da película. Mais ou menos com o que acontece no ramo da propaganda, quando um comercial supera o produto.

Bem, mas o que escrever quando o assunto é cinema? Na verdade, há cursos e professores altamente gabaritados para conduzir interessados nesta jornada. Meu intuito aqui não é ensinar nada, apenas passear pelo tema, afinal, sou sempre debutante, amadora quando o assunto é a sétima arte. Então, vou me ater mais no que diz respeito ao ato de escrever. Em primeiro lugar, o camarada simplesmente precisa gostar de escrever. Sim! Quem gosta de escrever, escreve sobre qualquer coisa, escreve até sobre o processo que deixa a revestidura do fruto do abacateiro com manchas escuras. Escreve sobre o processo de ventania que levanta a saia das mulheres e acarreta crise de asmas em crianças que sentem saudades de suas mães que trabalham demais.

Percebem? Escrever é o ponto, é dar o ponto, o nó, o laço, puxar a linha da história. Escrever é um tricô, um crochê, um bordado de letras e palavras que fazem amor sem a gente perceber. É pra quem gosta, vai além da técnica propriamente dita. Tem que ter aquela paixãozinha irresistível, de não aguentar ficar sem falar sobre algum assunto, seja ele qual for. Tenho um amigo que volta e meia ergue um dos braços e diz: “Ah, eu tenho que escrever sobre isso!” Chega quase a ser maior que a gente mesmo. É paixão!

E quando o lance é paixão, mergulhamos e tentamos captar tudo, desbravar, desvendar o absurdo. Mas o assunto aqui é escrever sobre cinema. Sugiro que você comecem a reunir tudo que sabem sobre um determinado filme: opiniões de pessoas que já o assistiram, o nome da obra (inclusive em outros países); ano de lançamento, o nome do diretor e seus trabalhos relevantes, o gênero, etc. Esses, evidentemente, são dados básicos. Seriam como o ponto meia do tricô. O início básico do tecer.

Outra dica seria fazer anotações enquanto você assiste ao filme. Eu já fiz isso no escurinho do cinema. É claro que derrubei a pipoca e a Coca-Cola Zero e perdi partes delicadas da trama a que assistia. Por isso, é sempre bom assistir duas vezes ao filme sobre o qual se pretende escrever. Para quem gosta de cinema, digo, para quem gosta mesmo, há certos detalhes que dão tanto prazer a quem assiste e percebê-los é um prêmio. Escrever então sobre eles, uma glória.

cinema (1)Esses detalhes podem estar ligados ao figurino, à fotografia do filme ou até a algum erro de continuação. Mas lembrem-se: detalhes são de suma importância para demonstrar o nível de envolvimento do crítico com o filme em questão. Tal qual um homem apaixonado que percebe uma sarda sobre a pontinha do nariz da amada. Quem ama vê minúcias desprezadas e esquecidas pelo resto das pessoas.

Outra coisa legal é observar como se casam as diferentes mecânicas do filme: luz, fotografia, cenário, figurinos, aproximação da câmera, técnicas usadas para filmar a película, roteiro, edição, música, etc. Tudo tem um porquê e, se não tiver, a gente inventa. É para isso que servem os escritores. Porque escrever sobre cinema não é apenas contar o filme, entregar a sinopse, resumir o roteiro. Vai além. Quase montamos uma tese sobre o mesmo.

Parece engraçado, mas é verdade.

Montar uma tese sobre um filme parece soar arriscado, mas é quase isso que fazemos quando nos atrevemos a escrever sobre cenas da grande tela. Trata-se de um pretenso exercício, mas o texto vai se formando a partir de uma sequência de imagens, a partir de uma cena específica do filme que fica martelando na nossa cabeça, aquela imagem que congela. E o processo é contínuo. Escrever sobre um filme é escrever sobre a mente de um diretor, sobre a radiografia de seu pensamento. É muito sério isso. Você nunca sabe onde isso vai parar e no que vai se transformar. E em cima do que você pensou, outros olhares estarão colocando a sua própria luz, no caso, o olhar dos leitores.

Outra coisa importante é entender também que nem sempre um filme é feito para explicar algo, para ter sentido. Cinema é arte e, como toda arte, dispensa explicações muito técnicas. Você pode até desejar que o pintor dê seus motivos para o quadro, mas a arte por si só, já tem suas mensagens e linguagens próprias. Fico imaginando o quanto alguns diretores não devem lamentar as inúmeras entrevistas pelas quais têm de passar para explicar algo que eles mesmos ainda estão descobrindo sobre sua arte ou sobre aquele filme fresquinho. A realidade e o mundo aqui fora querem explicações racionais, mas o cinema é o mergulho no inconsciente, ainda que busque sistematizar e traduzir os sentidos individuais ou coletivos. Não é pouca coisa afirmar (ainda eu e minhas teses) que o cinema é uma linguagem que nos aproxima uns dos outros como nenhuma outra arte. Porque para enxergarmos de verdade, precisamos desvendar todas as formas de ilusão dos sentidos. É quase um despir dessa robotização para nos tornarmos crianças encantadas diante da grande tela.

E por fim, mas ainda com a sensação da impossibilidade de esgotamento sobre o assunto proposto, e sempre, reveja o filme. Garanto que você vai se surpreender ao refazer o olhar. Pois como disse Heráclito: “…não podemos entrar duas vezes no mesmo rio.” Assim, quando eu assisto ao filme pela segunda vez, tanto eu como o filme estamos mudados. É como revisitar histórias de amor. Sempre será outra história.

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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