Buscando alternativas à crise, diretor espanhol usa crowdfunding para realizar documentário

O que temos de fazer para conseguir, finalmente, cair no mar (do audiovisual)? Quem busca produzir cultura se depara com muitos problemas. E um deles é dinheiro. Sim, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça. Hoje, com o recursos que temos, podemos fazer um curta-metragem com o nosso celular.  Produzir algo custa dinheiro, como construir prédios e, sim, precisa de profissionais. É preciso termos um mercado maduro, que fomente formação, especialização e trabalho.

Por muitos anos, na Espanha, alguns (para não dizer muitos) produtores audiovisuais eram dependentes dos recursos dos governos. Quando veio a crise de 2008, sobreviveram aqueles que pensavam o audiovisual como um negócio que precisa gerar lucro e ser uma indústria que traz empregos e aquece a economia. E, as “subvenciones” eran só uma pontapé inicial ou um complemento. Esses, a duras penas, têm conseguido sobreviver e criar alternativas. Porém, quem vivia dessas “subvenciones” porque conhecia as pessoas certas ou, simplesmente, porque sabia “preencher” o edital da maneira mais correta para vencê-lo, sentiu muito mais o impacto da crise. É claro que isso não acontece no Brasil, né? Bom, veio a famigerada crise e, aquele país que vivia à crédito (quase) quebrou. E o “dinheiro garantido a fundo perdido” foi cortado… Para se ter ideia, há gente (da área de audiovisual) desempregada há mais de três anos. Muita gente está perdendo as suas casas (financiadas na época do boom imobiliário). Afinal, saúde e educação em época de crise sempre vem em primeiro lugar. O que é justo.

Novamente, a lei da seleção natural foi inexorável. O bom de toda crise é que sempre aparece gente que saber fazer uma boa limonada dos poucos limões que tem. Um exemplo disso é o diretor Iago Vásquez, de La Corunha, na Espanha. Filho de atores famosos da região da Galícia, decidiu fazer um documentário sobre o Teatro Galego através da histórias de seus pais falecidos. A Espanha viveu por muitos anos sob a ditadura do General Franco. Muita gente foi torturada, muito artista teve que se calar… Infelizmente, conhecemos também essa história…

Equipe_crowdfunding _foto2O pai de Iago, filho de pescadores, encontrou no ofício de ator um meio de mudar seu destino. Entre um trabalho e outro dizia para seus filhos: “O que há de fazer para não ir ao mar!”, título do documentário que ainda está sendo gravado. Para realizá-lo, seu filho foi “ao mar” buscar os recursos para resgatar esse baú de histórias que até então ficou fechado por algumas décadas nos mares galegos.

Iago Vázquez nos conta sobre a sua decisão de buscar o crowdfunding (financiamento coletivo) como um dos meios de financiamento para realizar “O que hai que facer para non ir ao mar!”. Espero que ele consiga inspirar aqueles que querem mergulhar na produção audiovisual. Seu documentário já foi gravado e até o final desse ano vai estrear no Teatro Rosalía de Castro, famoso na cidade de A.Coruña, na Espanha.

CineZen: Para você, o crowdfunding é uma maneira de conseguir realizar um produto audiovisual? Por que pensou nessa alternativa?
Para mim, o crowdfunding é uma maneira de conseguir parte do financiamento de produtos audiovisuais concretos. Meu projeto é sobre teatro. Uma série de pessoas conseguiram ressurgir nas artes cênicas da Galícia (região noroeste da Espanha) durante e depois da ditadura do Franco. Sabíamos que havia muita gente que esperava por um projeto que contasse parte de nossa história e, por consequência, poderia colaborar em este sistema de micro-mecenato.

CineZen: Conseguiu o seu objetivo?
Iago: Sim. O objetivo era conseguir 8.000€ (R$ 24.420,40) e chegamos à  8.760€ (R$ 26.740,78). Na verdade, foi melhor do que esperávamos.

CineZen: Como foi o processo de crowdfunding?
Iago: O processo começou a ser gestionado desde esse verão. Fizemos vários focus group entre amigos e conhecidos para ver como ia ser a resposta das pessoas sobre esse projeto. Também sondamos o tipo de recompensa que esperavam. Pouco a pouco fomos tendo claro o objetivo que necessitávamos para começar o documentário. Nas semanas antes do início da campanha crowdfunding falamos com instituições, associações de atores, com a academia de audiovisual, companhias de teatro e explicamos como funcionava o sistema de micro-mecenato.

Tínhamos claro que o documentário teria de chegar aos ouvidos de muita gente. Para isso, o primeiro dia da campanha realizamos uma apresentação em uma escola de arte dramática com um público numeroso e uma quantidade importante de jornalistas. Durante os 40 dias que durou a campanha realizamos três apresentações em diferentes cidades galegas e fizemos um ato cultural para arrecadar fundos para o crowdfunding.

CineZen: Você acredita que o crowdfunding é só uma boa possibilidade para quem está no início da carreira audiovisual?
Iago: Com a atual crise financeira e econômica é muito difícil encontrar financiamento nas instituições públicas ou em empresas privadas. Creio que temos de ser conscientes que as coisas que queremos ver, ler, escutar, etc. têm de ser apoiadas desde o início. Há que ter em conta que o crowdfunding  é uma venda antecipada de produtos, isto é, não é um investimento perdido. Para a gente que está começando no audiovisual ou na música é um sistema que permite ter certa independência e um dinheiro para começar a produzir a sua obra. Não vejo o crowdfunding como um único alicerce financeira de um projeto, mas sim um apoio para a realização do produto cultural.

CineZen: É o teu primeiro trabalho como diretor e vai contar sobre a vida dos seus pais, importantes atores galego. Conseguiu apoio?
Iago: Sim. É um projeto muito pessoal. Realizei vários curtas-metragens e colaborei em várias obras audiovisuais como séries, documentários, mas sou novato na direção e produção de documentários. Meus pais eram muito conhecidos aqui, e isso, tenho que reconhecer que me abriu portas. Os apoios que conseguimos (sua irmã também participa do projeto) até o momento são da Fundação Aisge (uma sociedade que gestiona atores espanhóis), Televisión R, a Universidad de Coruña, a Xunta de Galicia (governo autonômico). Também estamos buscando o apoio da televisão pública galega (TVG), ministério da cultura da Espanha e um ou dois patrocinadores.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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