Anos (+ ou -) felizes

O bernardo-eremita é um caranguejo que não tem casca protetora própria. Para sobreviver, usa um búzio ou concha vazia. Quando cresce, e a casa fica pequena, ele se muda para outra concha.

“Quem é ela” – pergunta Serena.

“É a tua ausência” – responde Guido.

Uma ausência pode ser grandiosa. Em “Anos felizes”, de Daniele Luchetti, um artista que se pretende na vanguarda dos processos criativos é um bernando-eremita.

A casa que o alimenta é externa. Sua mulher, Serena, é ciumenta e quando o contrapõe com suas supostas relações fora do vínculo do casamento, ele reage referenciando Picasso, suas três mulheres e quatro filhos, como se essa fosse uma condição da arte. Ou do artista.

Paolo Canton, editor italiano, afirma que o belo é uma condição para encontrar a verdade.

É um argumento que compreendo como se o belo fosse constitutivo de um olhar generoso e atento ao outro. E daí, a verdade, como grama verde que se pisa com os pés descalços.

Falo de liberdade.

Mas Guido, um artista atormentado por uma não compreensão que é uterina – a relação com a mãe é conflituosa, para não dizer áspera – entende o belo como uma imposição da verdade absoluta.

O filho mais velho, Dario, na transição da idade da inocência para as coisas do mundo, é o narrador que cristaliza em película a história do verão de 1974.

Um tempo que éramos felizes – como ele diz – e não sabíamos.

“Anos Felizes”, não é um filme sobre a felicidade. É um filme sobre couraças.

Como uma tartaruga, cascos formados de camadas de ossos, que crescem com ela.

Uma tartaruga, quando está em perigo, recolhe-se para dentro da casca.

Foi o que Serena fez. Ela amava o artista e não a arte e para ela, amor e arte eram a mesma coisa.

https://www.youtube.com/watch?v=21IRvm2scuA

Não foi suficiente. Não segurou. A casca foi apodrecendo por dentro.

Em uma performance em Milão, Guido espera o ponto da virada em sua carreira imberbe.

Enquanto proposta artística, cria “cascas” de gesso em corpos de mulheres nuas, com as quais se envolve, mas de maneira descompromissada.

Para Serena, reserva o amor – como afirma.

Reserva o amor, mas não a partilha e ordena que ela não vá. Ela rejeita e segue com os dois filhos para que entendam, de uma vez por todas, que ele tem uma família.

Na performance, mulheres nuas, pintam-se com tintas de diversas cores e Guido, no centro de um círculo, como num ritual ancestral, tem seu corpo impresso com cores pelas mãos dessas mulheres.

Na audiência, Serena assiste.

A névoa se instala quando ela quer fazer parte – que considera um direito seu.

Por amor, talvez. Insegurança, ou posse. Provável.

Com um megafone, uma voz informa que o artista quer sete corpos para serem pintados.

A voz insiste: o artista quer sete corpos.

O único que se dispõe é o de Serena.

Mas não por muito tempo.

O equilíbrio precário se desfaz. A tartaruga é engolida pelo mar que a cambaleia, e vira de casco para baixo. Suas patinhas, de forma lenta e compassada, são o símbolo de uma resistência que não tem força.

É um discurso vazio.

anosfelizesEm tempo de feminismo, Serena, descobre um caminho interno e sedimenta, aos poucos, uma casca pessoal.

“Quem é ela” – pergunta Serena perante a obra de arte que Guido criou em um momento de profundo abandono. Uma mulher gigante, viva, em que a água como símbolo da maternidade e das marés a envolve. Mas também são lágrimas.

Escorrem pelas feridas abertas de um relacionamento que só se compreende a importância, quando já não se tem.

“É a tua ausência” – responde Guido.

É a falta da casca.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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