Lila, Pollyanna e tantas outras meninas imaginativas

Eu tinha doze anos quando conheci o livro Pollyanna. Foi numa viagem para o Rio de Janeiro, na casa dos meus tios. Entre um passeio e outro para a praia da Barra ou para Ilha do Governador, numa bela tarde de tédio, minha prima me apresentou este livro. Foi numa daquelas tardes onde não tinha nada pra fazer que me descobri Pollyanna. A correspondência foi imediata com a personagem. A partir dali, ganhei uns traços dela e os levei para a vida. Mais tarde, numa preleção sobre Neurolinguística, percebi que já aplicava certas técnicas citadas, todas aprendidas com a garota do livro. E hoje eu sempre sei quando uma mulher adulta não leu Pollyanna: geralmente, elas são muito ‘’reclamonas’’ e rabugentas.

O livro, escrito por Eleanor H. Porter, conta a história de uma menina de onze anos que, após a morte do pai, vai morar com uma tia muito severa, com quem não tinha intimidade, sequer a conhecia. Em meio a situações desagradáveis e, muitas vezes tristes, ensina às pessoas ao redor o “jogo do contente” que havia aprendido com seu pai. O jogo funcionava assim: para cada coisa triste ou desagradável que acontecia, ela procurava extrair algo de bom e positivo,  enxergando o lado bom das coisas.

Mas por que será que estou falando de Pollyanna, se esta é uma coluna para cinema? Não sei se vai fazer sentido o que vou dizer, mas é que esta personagem tem muito a ver com Lila, de quem irei falar a seguir. Bem, dia desses me deparei com um charmoso curta de Carlos Lascano, que na hora me lembrou Pollyanna. Mas só depois de assistirem é que poderão dizer se há algum sentido, alguma relação entre as duas.

A história é singela, doce e charmosa. Lila é uma bela jovem que, através de sua arte, pinta o mundo do seu jeito. Uma espécie de fada francesa, à la Amélie Poulain, que quer ajudar todo mundo. Enquanto vê pessoas pela cidade, envoltas em suas pequenas solidões ou tristezas, pinta outra possibilidade. E querem saber? Eu adoro isso! Um viva para as possibilidades que desafiam as probabilidades!

Sobre Carlos Lascano? Ele é um artista multifacetado: escreve, dirige, ilustra, fotografa e seu maior veículo de expressão tem sido o cinema com a produção de curtas geniais. Ele também é autor de “A sombra de azul”. Ah, ele usa boina e tem barba. Não sei por que, mas aposto que escuta Piaf. Sei lá, palpite…

O curta

Sobre meninas imaginativas? Ora, sou uma! E se sou! Quantas vezes não inventei finais felizes em meio a desfechos desastrosos? Se pintei apenas na tela da minha imaginação, no papel pude criar poemas-enredos que deram certo. Mas todas as pinturas estão dentro de mim e ninguém as vê, a não ser, por enquanto, através da escrita. Quem sabe um dia ao mundo eu ainda possa mostrar? O melhor de tudo tem sido ver que a vida é mais bela do que me pintaram e que as cores das quais disponho criam o meu mundo interior cheio de praças com lindos chafarizes.

Eu já aprendi muito sobre inventar cores e alegrias por dentro. Aprendi também com as crianças com quem convivo diariamente. Em 2012, no meio de um atendimento a um garoto de seis anos, fui surpreendida com a seguinte fala que saiu de seus lábios: “Sabe, tia Mô, não importa o quanto eu sofra, eu nunca quero perder o sorriso do meu rosto.” (Ele vivia no hospital passando por procedimentos bem dolorosos e constrangedores por causa de uma doença congênita).

Pollyanna e Lila, nossas personagens de hoje, têm muito a ensinar sobre o uso feliz de nossa imaginação. Sim, porque se não houver um mundo assim interior, a vida terá sido pouca, cinza e triste. Agora mesmo, tocam violinos dentro de mim!

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

One thought on “Lila, Pollyanna e tantas outras meninas imaginativas

  1. Amiga, Mô Amorim, eu vi este curta e o achei lindo, poético. Nós somos duas meninas querendo colorir o mundo. Beijos!

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