A Menina e o mundo ou quando levei a minha criança interior ao cinema

Crianças são poderosas. O mundo delas, em que habitam, é ainda em tinta fresca. E isso me agrada, apesar de algumas vigas minhas de sustentação já estarem criando limo. Aquela gosma verde que indica que está preservado, sim, mas talvez com um toque de abandono.

“O menino e o mundo” é um filme que segundo o seu diretor Alê Abreu, “é para crianças que habitam os adultos”.

Gosto de pensar como ele. Que há uma criança que me habita. E como parte de mim, merece respirar.

Mais do que isso. Merece ir ao cinema.

E foi o que fiz. Levei a menina que habita em mim para assistir  “O menino e o mundo”.

E combinei que seria ela a contar a experiência:

“A adulta que eu habito adora ir ao cinema. Eu vou junto, claro, não tenho outra saída, mas a maioria das vezes durmo. Quando começa a ficar escurinho, vai me dando um sono, mais um sono… que só acordo quando sinto o gosto do café que me invade. Sim, se tem coisa que ela adore tanto quanto cinema, é beber café. Aí, quando sinto o cheirinho.. (nem sei como é que ela pode gostar disso), começo a me espreguiçar, bocejo também e acordo. Ás vezes, sinto pena dela, porque quase sempre ela vai sozinha ao cinema. Ela diz que precisa estar concentrada. Acho que não é bem sim, não! Mas como ela não me ouve… bem, não me ouvia… porque uns dias atrás ela começou com uma ideia que queria me levar ao cinema. Primeiro, não entendi que ela estava falando de mim, porque ela disse que queria levar a criança interior ao cinema. Achei que não era comigo, porque eu nem conheço essa criança e até fiquei com um pouco chateada com ela, sabe! Ia levar outra e não eu!? Eu que habito nela e tenho que  aguentar todos esses filmes de adulto que ela vê!. Tudo triste. Mas ela gosta. O pior não é ver o filme, o pior e quando ela gosta tanto e vai ver mais que uma vez. Haja paciência!. Mais ainda tem mais… o problema não é ir ao cinema. Não, não! O problema é ter que viver com todas as imagens, frases, ideias que ela guarda na cabeça para depois escrever. E você acredita que as pessoas leem?

Só que dessa vez foi diferente. Ela me levou ao cinema não com ela, nem por ela. Mas por mim.

Eu nem queria acreditar e até fiquei um pouco nervosa porque não queria dormir dessa vez. Já estava tão acostumada… Na verdade, nem consegui dormir na noite anterior. Estava elétrica!

Quando chegamos ao cinema, reparei que havia muitas crianças. Pensei – deve ser um filme muito legal. E a verdade, (ela não precisa ouvir e por isso vou falar bem baixinho), ela tem bom gosto!

O título era “O menino e o mundo”. Torci assim de leve o nariz, porque achei que ia ser uma coisa de menina, sabe.

Cruzei os braços e emburrei. Queria era uma coisa e saiu outra.

Quando estava me preparando para dormir, de repente apareceu um menino na tela e depois… Ah, depois… uma explosão de cores. Parecia que eu estava em uma montanha-russa. Tudo muito rápido. Tudo correndo. O menino vivia uma aventura.

Fiquei com medo e até fechei os olhos bem apertadinhos quando vi árvores de verdade sendo cortadas e caindo no chão. Acho que morrerão, mas não quis perguntar. Tive vergonha.

E também chorei. Mas isso foi quando o menino que se chamava Cuca se agarrou na perna da calça do pai com tanta força, mas tanta força, que as marcas dos dedos dele ficaram lá. Quase, quase peguei na mão da minha adulta, mas não quis dar o braço a torcer. Eu sou brava, sabia?

E se eu ficasse sozinha no mundo, com tanta gente passando com pernas tão altas e sem olhar para mim.

Como eu me sentiria? Acho que sozinha…

Também fiquei meio cismada porque ela me disse que era um filme que eu ia entender. Até parece! Era uma língua esquisita, parceria que tava tudo de cabeça para baixo…

Mas ao mesmo tempo, tinha uma música e essa música eu entendia. Tanto gostei que até decorei um pouquinho.

Vou cantar para você:

“É café, algodão, é terra, vendo o chão é certo
É direção afeta, é solidão, é nada (é nada)
É certo, é coração, é causa, é danação, é sonho, é ilusão”

Achei bonito! E até me emocionei – isso eu aprendi com a minha adulta que se está sempre ficando com os olhos vermelhos com essas coisas. Ela até tem uma palavra para isso (Ah! Esqueci de dizer que ela tem palavra para tudo e quando não acha, inventa) A palavra que ela adora é estética.

omeinoposterE na música, também tinha.

Quer ver:

“São lágrimas no escuro e solidão
Quando o vazio é mais do que devia ser
Lembro da minha mão na sua mão
E os olhos enchem de água sem querer”

Aí, não teve jeito. Segurei na mão dela e apertei com toda a força do mundo. Que nem o Cuca com a perna do pai. Estava gelada. Acho que era do ar-condicionado.

Quando a luz acendeu, ainda ficamos um tempo sentadas, olhando para aquela tela grande.

Aí, sabe o que aconteceu? Ela me convidou para beber um café, você acredita?.

E eu aceitei. E olha que eu não achei tão ruim assim…”

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

One thought on “A Menina e o mundo ou quando levei a minha criança interior ao cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *