Fofoqueiros e selvagens

A fofoca mata. Os educados falam em boatos, para reduzir o peso da palavra. A fofoca simboliza – popularmente – a leviandade e a irresponsabilidade nas relações entre as pessoas.

A fofoca assassina reputações, mancha biografias, corrói a credibilidade por meio de ataques psicológicos de quem passou longe do caráter. A fofoca, irmã gêmea da maledicência, se reproduz pela intolerância.

A dona-de-casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, não foi linchada pela fofoca. Ela foi espancada no dia 3 de maio, em Morrinhos, no Guarujá, por selvagens. Morreu na terça-feira, dia 6. A fofoca não empunhou os paus ou usou os braços e pernas que viraram armas. Mas a fofoca deu o motivo para o crime, o que a torna cúmplice de homicídio.

A morte de Fabiane tem que nos apontar caminhos para compreender a responsabilidade de viver em sociedade, no mundo real e no mundo virtual. O assassinato desta dona-de-casa nos mostra o quanto se devem rever certezas superficiais, que parecem proteger pessoas atrás de seus computadores ou de seus vizinhos sedentos de sangue alheio.

Fabiane morreu para nos alertar sobre as falsas concepções de civilização. Fingimos ter adormecido nossa bestialidade. Os palcos virtual e real expuseram o descontentamento social com a violência, mas – paradoxalmente – também iluminaram a forma selvagem de protesto.

Parcelas da sociedade usam a decepção com as políticas de segurança pública para invocar a lei do Talião. O olho por olho, dente por dente, que alimenta ativistas de sofás confortáveis, conduz sujeitos ditos normais a extravasar a animalidade mais cruel.

Confusos, estes selvagens acrescentam a expressão “com as próprias mãos” ao termo Justiça. A política do “bandido bom é bandido morto” existe porque também encontra respaldo nas instituições que deveriam nos proteger e em engravatados com mandato que deveriam pensar coletivamente.

A ironia é que aqueles que pedem justiça rápida via linchamento se calaram quando viram que os “justiceiros-assassinos” erraram a mão e o alvo. E agora? Pedir justiceiros para os justiceiros? Ou, cinicamente, falar que “erros acontecem”, como eu li no Facebook?

A morte de Fabiane Maria de Jesus também nos permite pensar sobre o que fazem os jornalistas (e os pseudo-repórteres). A postura de uma página como Guarujá Alerta despertou o espírito de corpo em muita gente da imprensa. A principal defesa, ainda que simplista, foi apontar a lanterna sobre os responsáveis pela página e dizer: “não são jornalistas.”

Não são jornalistas porque não possuem diploma? Ou não o são porque desrespeitaram princípios elementares da profissão, como pesquisa, apuração, checagem, entrevista? Sensibilidade e responsabilidade não estão escritas em canudos acadêmicos, e sim tatuadas naqueles que escrevem de olho no outro e cientes de que palavras têm consequências, seja no The NY Times, seja em qualquer postagem de uma rede social.

Agarrar-se ao diploma só reforça o quanto os jornalistas se tornaram frágeis diante das mudanças sociais a partir dos meios de comunicação e as novas tecnologias. Em vez de subir no pedestal da arrogância que exime de responsabilidades, é a hora de rever práticas não tão profissionais que se tornaram cotidianas.

Muitos jornalistas estão habituados a reproduzir conteúdos a partir de páginas como Guarujá Alerta, que – em tese – serviriam como referência para insatisfações da população. Visitar tais páginas e, a partir delas, procurar pessoas e estabelecer contextos é um comportamento responsável.

Outra postura é simplesmente apertar quatro teclas no computador (Ctrl C e Ctrl V) e achar que se fez Jornalismo. Muitos colegas de profissão se queixam de que suas matérias são plagiadas. A reprodução criminosa é recorrente em parte do Jornalismo atual, pouco importa o tamanho e o alcance dos veículos.

A mídia matou Fabiane? Certamente não. Os agressores são justiceiros? Não, são homicidas. Independentemente de quem desceu o porrete ou gritou “mata e esfola”, todos devem desculpas à Fabiane. O resto é torcer pela Justiça dos homens que ainda podem ser chamados de civilizados.

Marcus Vinicius Batista é jornalista e professor universitário. Adora escrever sobre histórias cotidianas e personagens anônimos. Escreve também sobre educação, política e futebol. É um goleiro mediano, leitor voraz e, paradoxalmente, sereno. Gosta de um bom cinema, que pode também ser um filme ruim. Apaixonado pela praia, pelo mar e por seus dois filhos, Mariana e Vinicius.

2 thoughts on “Fofoqueiros e selvagens

  1. marcus meu caro sem dúvida vc esta no seu ponto que analiso e vejo todo sentido , sou estudante de jornalismo . lógico a “imprensa” , faltou dar voz a fabiane, faltou apurar , o que esta havendo vou dizer em poucas palavras seja de “imprensa ou cidadãos ” , há um julgamento e. já lhe olho e julgo e todos precisam ter voz sim um assassino , um estuprador , pedófilo , assaltante , ladrão , todos tem o direito sim a voz … e defesa……
    e cidadão nenhum tem direito de julgar , só os juízes sim de direito……..
    grande abç………….

  2. Caro, Vinícius,
    Eles queriam apenas alguém para descarregar essa coisa ruim que carregam em seus pseudo-corações, encontraram pelo caminho Fabiane. A sociedade está doente pelo medo, mas esse mesmo mesmo medo tem matado mais que a coragem para enfrentá-lo. É lamentável! Mais uma família órfã a espera de justiça. Mas que justiça?!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *