Por que você me lê?

“O estudioso é uma vela acesa pelo afeto e pelo gosto de toda a humanidade”. Essa afirmação de Emerson me ilumina em uma busca pessoal que partilhei com os leitores: Por que você me lê?. Também influenciada por Virgínia Woolf puxo o anzol com o peixe que traz na boca um lembrete: “Temos sempre dentro de nós um demônio que sussurra em nossos ouvidos – ‘detesto, gosto’ – e somos incapazes de silênciá-los”.  Perguntei sem medo e as respostas vieram.

Garatujas são os primeiros traços que a criança produz na tentativa de representar o mundo. Fá-lo livremente e é algo muitas vezes incompreensível para os adultos. No entanto, estes são importantes na exploração do traço, da criatividade e da expressão emocional. Definição plana de uma palavra que suscita redemoinhos e que arranha a garganta. Gosto.

Cy Twonbly, artista americano, que escolho como plataforma e inspiração para ilustrar o texto desenhou garatujas porque, sim, continuava a descobrir o mundo.

Era inquieto, com a reflexão no céu da boca, assim como Natasha Félix:

“Durante vários momentos me peguei pensando nessa questão de ”por que ler?”. Há um mistério tão complexo dentro desses chamados subentendidos em títulos ou em algumas palavras-chave dos textos, que seria quase um sacrilégio tentar achar a sua chave. Algumas coisas existem para serem simplificadas. Leio porque gosto, leio porque tenho curiosidade, leio porque instiga. E ponto.”

Quando escrevo, sinto-me como “Uma guardadora de rebanhos”, e peço licença a Fernando Pessoa para modificar o genêro:

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim

Marcelo Reis, que partilha afeição pela coluna Godivas com a escritora Mô Amorim, endossa o meu pedido à Alberto Caeiro:

“Por ser a visão feminina sobre a arte e sobre a vida. E isso dá um diferencial muito mais amplo e interessante à arte: lembro dos primeiros filmes de Jane Campion (“Um Anjo em Minha Mesa” que mostrava a vida da escritora Janet Frame, além do premiado e belíssimo “O Piano”) e dos fabulosos romances de Jane Austen (“Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sentimento”, “Persuasão”, entre outros). Tanto os filmes de Campion quanto os livros de Austen têm essa visão feminina, analisando de forma crítica seus personagem e o meio em que vivem”.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.

Peço licença também a Patrícia Oliveira, por dessa vez, colocar poema no meio do texto:

“Eu leio você porque você tem muita poesia. E não poesia de colocar poemas no meio do texto. São suas palavras, sua formação de palavras seu texto. que deixa tudo mais poético. É como se a vida ficasse um pouquinho mais amena cada vez que eu pego para lê-los. Tanto que sempre procuro os ler quando eu sei que vou estar em um momento de concentração e absorver o máximo possível do universo que você tem para me contar;

Queria que o jeito suave que voce conta as coisas fosse passado para vida. Porque mesmo eu lendo algo muito sofrido que voce escreva não me dói tanto, quanto na vida”.

É de arte que falo e de amarras como identificou com a lupa da observação atenta Janaína Almeida:

“Te leio porque gosto da brincadeiras e das amarras que faz com os diferentes textos, além de pontuar e propor uma reflexão sem resposta e abrir sempre uma nova possibilidade para as diferentes perspectivas…..
É isso…”.

Já Bárbara Ferreira relaciona, como se fosse uma opção siamesa a ligação entre as várias manifestações artísticas:

“A Arte é, para mim, alguma coisa como a representação dos dramas humanos, em linguagens diversas, cada uma apta a se comunicar com recursos próprios…

Creio que o tom poético e reflexivo de suas críticas levam o leitor a se interessar imediatamente pela obra cinematográfica, pois a ela assistirá um público já compenetrado das palavras. Assim, ainda que, em última análise, o filme não agrade ao espectador tanto quanto esperado, a leitura anterior da crítica feita pelas mãos da escritora certamente terá sido de inquestionável proveito”.

Enfim, leio para ver a Arte dialogar com a outra Arte, e assim sair sempre com um toque a mais no que construo de patrimônio intelectual”.

Se tenho uma fixação, e penso que os escritores devem ter várias, é por matrioskas. Bonecas russas que, apesar de ter o invólucro do ser preservado pelo maciço da madeira, se permitem à multiplicação.

Maria Sílvia Mastrocholla fala sobre isso:

“Aprendo muito quando leio os seus textos, pois como sempre digo, você é uma excelente mediadora, e me faz ter vontade  de ler e ver outros textos ( escritos ou com imagens). Sempre com um olhar aberto, sem preconceitos, fazendo conexões incríveis sobre todos essas formas de expressão”.

godivasmaiodoisAssim como a criança conta suas histórias sobre o mundo que descobre, Erika Freire identifica em meus escritos, um quê de garatuja:

“Eu leio seus textos para ficar, primeiramente, informada através do seu olhar, em relação ao cinema e literatura. No seu texto é você me contando novidades sobre duas coisas que eu admiro muito.O que também me faz ler alguém,certamente, é a forma. É como a pessoa conduz a narrativa e o estilo dela (pessoa), impresso nas entrelinhas. No seu caso, o que me atrai, é a coisa meio fora do lugar comum. Você consegue ser autêntica, o que muitas vezes não ocorre quando se escreve sobre cinema.

Seu texto também tem algo que não saberia explicar… ele esconde algumas coisas. Tem vezes que preciso parar e retornar no parágrafo anterior. Ler novamente e com calma. Enfim,sempre paro para ler alguém que seja interessante através de seus textos. E em outros casos, paro para ler quando também me identifico com o autor ou tema”.

Erika prenuncia, intui, algo que vai além da minha pergunta disparadora e Paulo Mauá concretiza como nuvem que se engarrafa:

“Mas te leio como leio tudo, sem filtro, sem regra, sem cuidado especial. Na verdade a pergunta mais correta seria: por que você me relê?”

Marcelo Reis responde a pergunta de Paulo Mauá:

“Acredito, como o cronista Rubem Alves fala sobre a observação do poeta/artista de perceber o mundo de forma diferente, dando atenção a coisas corriqueiras e transformando-as em poesia, em arte, pois o artista enxerga o mundo de forma mais completa, pois se para a pessoa comum tudo é uma sucessão  de atividades rotineiras, para o artista tudo tem potencial para se transformar em arte: um fato corriqueiro se torna em uma crônica, o sentimento por algo ou alguém se tansforma em música ou poesia e assim por diante.Enfim… para termos plenitude na vida é bom sermos um pouco como Amélie Poulain: buscar enxergar tudo como se fosse a primeira vez, como na cena em que ela descreve o mundo ao redor para um cego”.

E Paulo acrescenta:

“Pelo fato de poder viajar entre tuas rimas de vida.”

É de cegueira inicial que se trata quando a folha branca do papel se impôe. É o contraponto entre o escuro e o luminoso. O cheio e o vazio.

Linhas tênues, em um primeiro momento, que se fortificam e riscam, marcando o outro lado.

“Eu te leio porque você me encanta com a força e a beleza das suas palavras. Gosto de ir para os lugares que a sua imaginação me convida, percorre o seu olhar e sou lançada em uma nova experiência. É uma oportunidade de romper a fronteira da minha percepção e, por instantes, ver a vida através dos seus olhos. E isso me agrada. Eu expando, amplio e tenho um vislumbre da totalidade. Eu te leio para viver muito além de mim!”

Fabiana Prando conta-me da extrapolação do corpo pela arte.

E o que isso tem de generosidade? Penso que a largarta quando deixa seu casulo, o casulo é generoso ao extremo. Permite que sua casa, seja a morada de alguém que não terá fixação, mas foi criado para voar.

Almir Silva sintetiza:

“ Penso que é um ato de generosidade…

Escreverem para mim , quando não fiz um pedido,

quando eu mais precisava fugir de mim,

Esta não é uma mensagem de agradecimento, mas “narcisista”.

leio, quando desejo, leio quando quero possuir àquilo que não é meu…

o que me falta, o que nunca pensei , mas desejava ter pensado.

O que me preenche, mas ser nunca será parte de mim.

Leio por um ato de puro egoísmo, pois sonhava em ter dito (escrito) todas as palavras, que nunca são ditas”.

Que tipo de experiência será essa?

“Gosto de ler pessoas que estejam engajadas com o mundo das Artes, porque sei que delas sempre receberei algo mais sutil, cultural e profundo, do que aquilo que recebo no bruto cotidiano, das pessoas mais comuns.
E assim sempre foi, desde que descobri esta fonte incessante de prazer cultural e espiritual. Abençoados sejam todos aqueles que já me fizeram sair do corpo, apreciando a Arte!”

Roseane Barros, me recorda, uma das escritoras que percorrem a jornada próxima a mim, Clarissa Pinkola Estés, e uma benção que nos oferta no abrir da página:

“ Quem ainda estiver acordado ao final de uma noite de histórias sem dúvida irá se tornar a pessoa mais sábia do mundo”.

Harold Bloom, renomado crítico literário, em seu livro “Como e por que ler”, deixa cair uma frase que a olho nu parece uma pluma, mas tem a intensidade de uma bomba que causa estilhaços.

“ Nos dias de hoje, a informação é facilmente encontrada, mas onde está a sabedoria?”.

Penso que está no afeto.

“A leitura acontece por afinidade, curiosidade pelas palavras de determinados textos. Inicialmente, eu lia seus textos por curiosidade de conhecer seu estilo de escrita e suas ideias. Após conhecer seu estilo, passei a ler porque me afeiçoei às suas palavras e pelo desejo de conhecer suas novas criações e opiniões”.

Ana Carolina Barros pontua a responsabilidade de quem escreve. Ou do salto sem proteção no abismo de nossas entranhas.

Intencionalmente, há o desejo de sermos lidos e quando isso acontece é sempre uma surpresa.

godivasmaiortresÉ também o imponderável que vem com a dúvida expressa em Eliana Pace:

“Talvez porque você sempre me surpreenda com seus escritos, resultantes de uma observação afiada, de uma sensibilidade acurada, de um poder de ver o que está à sua frente de uma maneira totalmente nova”.

Antes do título de um texto, há sempre um momento de espera. De escuta. Lê-se o que se escreveu e abre-se para que as palavras respirem e falem com quem as posicionou de uma determinada forma. Assim como os caracteres em uma tipografia manual.

Quando observo a representação pictórica de Cy Twonbly que prepara para o título “Por que você me lê?” é irredutível não pensar no pacto que se estabelece entre o leitor e quem escreve.

Como num jogo, peças se aproximam, cartas se desnudam. Há um olhar que revela  (de propósito) estratégias e linhas que constroem a realidade.

Ler é uma experiência estética de justaposição. Ao observar a proposta artística que encabeça esse texto, figuras, assim como pensamentos, provocam a fricção do encontro.

O estranhamento é natural ao processo, mas a fusão pode acontecer. Ainda que incompleta.

A decisão de ler um autor, permite que sejamos outro e todos, sem perder a originalidade do princípio dos tempos em que o fogo era aceso em cavernas.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

One thought on “Por que você me lê?

  1. Postei esse comentário no facebook e estou repostando aqui no site:

    Nossa! Confesso que estava curioso para saber, durante a enquete, como seria abordado a opinião dos leitores da coluna Godivas num futuro texto e o resultado não poderia ser melhor: o texto “por que você me lê?” da Viviane de Almeida está ótimo e cheio de citações interessantes. Até eu, fã da coluna há tempos, tive frases citadas (o que para mim foi uma honra). Adorei! Foi uma bela surpresa.

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