Alguém que nos segure

“Se eu tivesse de desejar alguma coisa, não desejaria riqueza e poder, mas […] o olho que, sempre jovem e ardente, vê o possível.”

Soren Kierkegaard (filósofo dinamarquês)

Em tudo que faço, sempre procuro algo que me toque. Eu preciso estar de verdade dentro das situações que envolvem o meu dia. Necessito viver sensações que me acrescentem. E sempre, para o meu bem, sou presenteada com algo que dá sentido à minha existência. Faz uns dias, fui convidada para assistir a uma palestra no Lar das Moças Cegas daqui de Santos. Sempre tive curiosidade de conhecer o trabalho da instituição. Fiquei fascinada com a organização e o propósito das pessoas que lá trabalham. Também serviu como exercício para colocar-me no lugar de quem não enxerga, de quem vive no escuro para sempre. Quase na hora de nos despedirmos, foi rodado um vídeo, já conhecido meu, mas sempre motivo de emoção quando assistido. Trata-se do curta-metragem espanhol “Cordas”. Não é à toa que recebeu o Prêmio Goya 2014, a maior premiação do cinema espanhol, na categoria curta-metragem de animação.

Bem, nem preciso dizer que mais uma vez fui às lágrimas. Acontece toda vez que assisto a este curta. E não tem jeito: chorava até com Rock-Gol da MTV.  Mas no caso desta animação, a grande responsável pelo cisco no olho é Maria, a personagem que decide ajudar o novo aluno e morador do orfanato, portador de paralisia cerebral. Ela não enxerga suas limitações, muito menos faz disto uma separação entre eles. Pelo contrário, a pequena Maria investe horas neste contato e o trata com simplicidade e carinho. É o olhar de uma criança que ainda não foi contaminada pelos preconceitos bobos que permeiam nosso cotidiano tão de perto.

Porém, apesar de todos os esforços de nossa pequena heroína, o menino na cadeira de rodas responde apenas com os olhos. A animação é tão bem trabalhada que se consegue perceber o sorriso impresso no olhar do menino. E isso é muito legal também de ser visto e sentido. Às vezes, pensamos que um doente ou vítima de alguma síndrome, aparente incomunicável, preso em seu mundo, não nos ouve e que tudo que fizermos será em vão. Não é assim. Nunca poderemos saber o que se passa dentro do outro, em que ponto, no seu mundo, adentramos.

Inconformada, Maria quer que ele também participe das brincadeiras. Abandona suas brincadeiras com as outras crianças e passa a inseri-lo em sua brincadeira preferida: pular cordas. Você devem estar perguntando: “Mas como um cadeirante poderá pular cordas?” Assistam para descobrir! Ela não se intimida e dá um jeito, juro! Usou o que tinha e conseguiu fazer a diferença na vida dele. É inspirador.

Fusion TIFF FileTudo nos arrebata em “Cordas”, desde a minúcia com que os personagens são desenhados até o enredo. Tudo é encantador: a trilha sonora, o jeitinho da Maria, as cores… É tão lindo de ver o dentinho meio quebrado, torto do nosso pequenino garoto. São 10 minutos de filme que fisgam quem se atreve a parar um pouco e prestar atenção, além de emocionar e levar à reflexão. Vale lembrar que o curta foi baseado em fatos reais. O personagem principal chama-se Nicholás na vida real. E a Maria também existe!

“Cordas” é obra de Pedro Solis Garcia, autor e diretor.

O final é lindo e consegue nos convencer a acreditar que certas pessoas, mesmo não podendo mudar o mundo, mudam o mundo de outras vidas ao redor. Nem que seja para nos abraçar, nem que seja para transformar braços em cordas que nos segurem para nunca mais soltar.  Um beijo a todos e feliz maio!

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

One thought on “Alguém que nos segure

  1. Mô, miga linda!!! Tão bom poder ver coisas e ler coisas que nos emocionam, que nos fazem sentir melhor, nem que seja por um pequeno instante 🙂 Lembrei muito de mim quando convivia mais de perto com minha amiga deficiente visual…no final, vc nem percebe que a pessoa tem alguma deficiência <3 Adorei saber que este curta existe e que você escreveu sobre ele para nos brindar mais uma vez com suas lindas palavras <3 Parabéns!!!

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