Amante a Domicílio: A falta que você me faz

Há um provérbio africano que diz que quando um ancião morre, uma biblioteca se perde. Talvez por isso, senti uma necessidade de assistir uma vez mais e com um intervalo mínimo de tempo “Amante a domicílio”. Na ficção, uma biblioteca se fecha porque já não existem homens raros para ler livros raros.

Banalizou-se.

Assim, como o sexo, que no papel de um florista de meia idade, solitário encarna “a mais velha profissão do mundo”, como diz Murray, personagem de Woody Allen.

Minto.

Fioravante, o florista, não banaliza, porque não é da sua natureza.

O contato íntimo e delicado com as flores que toca e cuida faz dele um terapeuta.

Um mágico que traz felicidade para as mulheres solitárias.

Mas, ele é mais solitário do que todas e procura um amor verdadeiro.

Sim, homens se apaixonam.

E ele, cativado pela delicadeza de uma viúva judia, Abigal, se envolve no rodopio de um carrossel de sentimentos que se quer viver.

Pétalas de suavidade, podadas por Fioravante, especialmente quando Abigal diz-lhe que gosta de ouvir, quando o seu nome saí em som modular da boca dele enquanto em bicos dos pés ela se pôe pronta para ser beijada.

Uma narrativa paralela à história que começa com uma proposta de um encontro a três. Mas, na verdade, do que se trata é de um emaranhado de fracassos, desilusões e não lugares.

Não lugares, no sentido em que o contato humano ainda é o que nos salva.

https://www.youtube.com/watch?v=FdbVmrBKZpI

É como uma concha que sem o desconforto da fricção, o contato com o objeto estranho, não gera pérola.

Protegida, poderá sobreviver por séculos, mas ausente da vida.

Da sua real natureza.

Do processo que lhe é constitutivo.

O processo criativo das coisas do mundo é algo que me faz parar para pensar. O que teria em mente Picasso quando entortou as formas, desfigurando os cânones. Onde o pensamento de Dali estaria quando derreteu relógios e subverteu o olhar. Ou Gabriel Garcia Márquez, quando terá ouvido pela primeira vez o som ancestral da família Buendia.

Pressinto que com Woody Allen, quando o processo criativo não existir mais e forem só revisitações, um vazio tomará conta de mim.

O diálogo que estabeleceu com John Turturro, assim como na ficção, é de um testemunho de que se vai passando em um passeio que se faz com um amigo de longa data em uma manhã fria de inverno.

O que se quer contar, ás vezes o que se tem pressa para dizer, é envolvido em fumo branco. Uma leve névoa provocada pelo contato do som com o frio.

amanteposterContam-se segredos, partilham-se estratégias. É transmissão em um primeiro momento, a criação virá depois.

Assim como as flores, que no início são semente.

Precisam da água na medida certa, a luminosidade precisa, o olhar que a nutre.

Um processo lento, em demanda contínua, gerador de atenção, a partir de instruções escritas no papel ou ouvidas da voz do outro.

Mas é de cuidado de que se fala. Ou de contato.

Em “Amante a Domicílio”, Woody Allen reforça essa convicção.

Estreia: 01/05/2014.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

2 thoughts on “Amante a Domicílio: A falta que você me faz

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *