O que você me provoca?

Tempo… muito tempo que um filme não me provocava… Provocava a leveza que tenho em mim.

Quando sento na poltrona de uma sala de cinema, estou pronta para acionar o cérebro que pensa e o coração que sente. Há, quando a luz se apaga, um acender interno de que é preciso apertar um botão do desligar.

É vermelho esse botão. Alerta? Talvez. Intensidade, quem sabe.

Entre correrias de tempo do cotidiano canibal, apertei o botão. Mas algo não correu como o esperado.

Uma cena de um concurso de vacas introduz o filme que irei ver. Alguma confusão inicial. O título era “Um Amor em Paris”.

O botão afrouxou, talvez, até pelo estranhamento e como foi bom!

As vacas eram um pretexto de ambientação de um relacionamento em que a frustração é.

Brigitte  e Xavier são casados e com um filho que, ao contrário do pesado pai, quer ser trapezista.

Quer cruzar os céus em movimentos livres e efêmeros.

Assim como a mãe que tem uma semente de liberdade, ao contrário das vacas que pastam nos campos.

Xavier gosta de vacas. Brigitte olha a semente da sua vida que de tão abafada tem medo que morra.

De repente, começo a simpatizar com os cabelos ruivos de Brigitte escondidos no gorro de pele para proteger contra o frio.

Simpatizo com a angústia de respiração. Da força do oxigênio que ela precisa respirar.

Assim como eu.

O pretexto para sair, uma aventura, vem da casa ao lado, da festa ao lado. Um convite de um jovem homem, para uma Brigitte na meia idade, torna-se irrecusável.

E ela vai.

Para Paris.

Quando era jovem, quando Xavier se apaixonou por ela, era intrépida, destemida.

Estudavam em uma Escola Agrícola e foram perguntados sobre o que gostariam de ser.

Brigitte respondeu: “Pastora”.

Adoro essa simplicidade e procuro por ela.

Em Paris, tudo é “folie”. Sinto-me rodopiar com os seus pés que caminham pelas calçadas. O coração acompanha a ansiedade por encontrar o jovem que despertou a sua intenção.

De viver.

E o que é a intenção de uma vida? Procuro pela minha, entre cacos de porcelana, cartas escritas e rasuradas. Garrafas jogadas ao mar com mensagens criptografadas.

O problema é que, por vezes, esquecemos o código. Ou fazemos de propósito.

Brigitte foi em busca dos símbolos que pudessem reconstituir a mensagem escrita em sua juventude.

Depois de um desencontro com a projeção de um amor sem limites (talvez selvagem), um outro, plantando pelo destino.

Esse sim. Real.

Cruzamentos entre almas solitárias – vindas de lugares frios – ele da Dinamarca e que oferece a Brigitte a aventura de subir e descer na roda gigante.

Que tranco é esse que antecede o momento da virada? Alguns não querem ver. Fecham os olhos com os dedos, deixando frestinhas de espaço que fica para uma espreita.

Brigitte pula.

E volta para o marido.

umamoremparisMas com a ajuda do olhar azul de céu claro do dinamarquês encontrou as peças do quebra-cabeça da imagem da “Pastora” que estava apagada em sua memória.

A luz ilumina a imagem e ela pode, então, se reconhecer.

Na mesma e na diferença.

Quando a luz se acende no cinema, reparo no meu botão.

Reparo que ele mudou de tonalidade. Está mais próximo de um rosa. Sem alerta, sem defesas.

“Um Amor em Paris”, provocou-me.

Senti-me leve.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

2 thoughts on “O que você me provoca?

  1. Belíssimo texto, Vivi! Assistir a um filme como este depois de tê-lo lido será uma satisfação redobrada. Fiquei sinceramente interessada. Parabéns!

    Um beijo!

    Bárbara

  2. Poxa, acabei de olhar a programação e não está em cartaz. 🙁
    Paris como cenário… Sempre dá vontade de ver 🙂

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