Capitão América 2: O Soldado Invernal é o melhor filme do Marvel Studios

É sintomático: na última semana, após o lançamento de “Capitão América 2: O Soldado Invernal”, foi divulgado que a franquia Marvel superou “Harry Potter” como a mais lucrativa dos EUA. São US$ 2,45 bilhões em nove filmes contra os US$ 2, 39 bilhões e os oito longas do bruxinho. Prova do acerto do Marvel Studios, em levar às telonas a essência das histórias em quadrinhos concebidas pela editora ao longo de décadas. Ou seja: dar aos fãs o que eles desejam. Não a reprodução total das páginas para o vídeo. O conceito.

Digressão sobre o mercado

Tal qual acontece à Pixar, a Marvel desenvolveu um padrão de qualidade, não tão artístico é verdade, porém tem uma assinatura cinematográfica. Que não desagrada a crítica e atrai o público em massa. Em ambos os casos, menos importa quem é o diretor. Sabemos que no cinema blockbuster as decisões criativas são do produtor. Nos casos de ambos os estúdios (e é preciso reiterar que os dois pertencem, atualmente, à Disney), há profissionais extremamente criativos nessa função. Na Pixar, John Lasseter, que também dirige. Na Casa das Ideias, Kevin Feige. Eles entendem o público. Sabem a quem atingirão. Talvez seja essa falta de tato que tenha faltado a tantos outros colegas que praticamente levaram o cinemão norte-americano ao colapso. Não é novidade que as megaproduções dependem, cada vez mais, do mercado internacional e dificilmente se pagam com a renda obtida dentro dos Estados Unidos. Exceção às animações, aos super-heróis e algumas adaptações de best-sellers.

Nem tanto com os filmes da Pixar, que volta e meia são concebidos por grandes cineastas (Lasseter, Andrew Stanton), mas na Marvel há uma retomada do que acontecia na Era de Ouro dos estúdios hollywoodianos: o diretor não era o autor do filme. Não passava de um técnico que obedecia às normas do estúdio.

O filme

Afinal, quem são os irmãos Joe e Anthony Russo, que dirigem o segundo longa estrelado pelo Sentinela da Liberdade dentro da franquia? Qual a relevância deles? Ok, já fizeram alguns trabalhos. Nada digno de nota. A dupla é responsável por “Capitão América 2: O Soldado Invernal” ser tão legal? Não. Cinematograficamente, o filme é mais bem estruturado que o próprio “Os Vingadores”, o grande filão até agora do estúdio e das maiores bilheterias da história.

A trama remete aos thrillers de espionagem dos anos 70: não à toa traz Robert Redford no elenco – é o primeiro “arrasa quarteirão” na carreira do veterano astro. Capitão América e Viúva Negra estão em missão. Quando retornam, Nick Fury é executado, a S.H.I.E.L.D. não perece ser o que é e o mundo, claro, pode sofrer sérias consequências. Fatos e personagens do primeiro filme virão à tona. Temas sérios e atuais como vigilância, patriotismo e liberdade são abordados em meio às tiradas certeiras e bem humoradas dos diálogos e excelentes cenas de ação. No entanto, o longa não seria envolvente se os realizadores não soubessem trabalhar o protagonista. Steve Rogers, o Capitão América, é um sujeito velho em corpo jovem. Um herói da Segunda Guerra. Retrato de uma era diferente. De valores diferentes. Concordemos com eles ou não. Mas sua nação mudou. O modo como o mundo encara a terra do Tio Sam também.

https://www.youtube.com/watch?v=IA33cvSQDOo

Na ansiedade de lançá-lo ao público, “Capitão América: O Primeiro Vingador” (2011) soou apressado e irregular. Agora, com sua figura apresentada ao mundo, os roteiristas, baseados em um período recente e importante das HQs, tiveram a chance de desenvolvê-lo (a duração é de 2h16m) e o transformaram num questionador da política de espionagem dos EUA. Alguém que gera empatia no espectador estrangeiro. Chris Evans nem precisa ser bom intérprete ou ter o carisma de Robert Downey Jr (o Homem de Ferro) para segurar o filme. O fato da Viúva Negra de Scarlett Johansson sequer trazer algum resquício de sua origem russa (só o sobrenome) não incomoda nem ao fã mais ardoroso dos gibis. Há ainda Anthony Mackie, digno na pele do Falcão, primeiro herói afro-americano da Marvel (o Pantera Negra é africano). Samuel L. Jackson e Cobie Smulders vivem outra vez respectivamente Nick Fury e a agente Maria Hill.

capitao2Ágil em sua edição, com citações que deixarão os fãs de quadrinhos empolgados e diversão pura para quem não acompanha as revistinhas, “Capitão América 2: O Soldado Invernal” é a produção mais redonda entre as nove do Marvel Studios, caso raro de continuação que supera o original e infinitamente superior a “Homem de Ferro 3”.

Percepção

Os produtores da Marvel entendem o mercado, o desejo do espectador. E, no caso, não é a assinatura de um cineasta descolado. Não é a transformação de heróis em seres densos. É a essência. Diferente da Warner, que faz os filmes baseados nos quadrinhos da DC Comics e onde os produtores parecem bater cabeça para fazer o filme da Liga da Justiça. Nem sempre a plateia tem razão. Mas quando se trata de histórias em quadrinhos, a relação é diferente. Até a crítica deve estar preparada e perceber as peculiaridades deste subgênero de ação e fantasia.

Ah, há cenas durante e após os créditos, que deixam pistas para “Os Vingadores 2: A Era de Ultron” (2015) e “Capitão América 3” (2016).

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *