Narradores de Javé: A história grande

Antonio Biá prefere o lápis à caneta. “Agarra o papel, acolhe a borracha” – justifica a escolha. Percorre o lugarejo de Javé no sertão baiano, à procura da história grande: pré-histórica, histórica. O que importa é que seja científica.

Como escriba, tem a caleidoscópica missão de com palavras, fatos e verdades, salvar os “javélicos” da inundação da represa. Águas abundantes que encharcarão as terras “famélicas” de Javé. E aqui o trocadilho não é inocente.

A abundância de palavras da oralidade que circula nas ruas sem calçamento e abertas , entra pelas janelas de paredes coloridas e não caiadas e faz moradia na boca de uma população que não decodifica a palavra escrita no papel.

Elsa Triolet conta-nos que “O texto escrito, deitado, ao som da sua vozse levanta e caminha”. Os narradores de Javé sabem disso por intuição e também pela ordem inversa porque só conhecem a palavra que caminha.

Não a deitada, em repouso e sacralizada. A peregrina.

A valoração da palavra dita e da que se imprime no papel é diferenciada porque somos uma sociedade letrada que precisa do registro. Da segurança.

Uma coisa é coisa acontecida. Outra é coisa escrita. O escrito melhora o acontecido – Biá responde com sabedoria a um dos narradores que defende com determinação a verdade absoluta da sua versão da história.

E como destrinchar o que de verdade acontece na memória quando de coletiva passa a ser individual?

A escritora nigeriana Chimamanda Adichie ilumina um ponto importante quando falamos de narrativas: “O perigo de uma única história”.

Conta, entre muitas situações, uma que captou a minha atenção, talvez até pela semelhança com a estrutura narrativa do filme de Eliane Caffé.

É a história de Fide e sua família:

“Meu pai era professor. Minha mãe, administradora. Então nós tínhamos como era normal, empregada doméstica, que frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz oito anos, arranjamos um novo menino para a casa. Seu nome era Fide. A única coisa que minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe enviava inhames, arroz e nossas roupas usadas para sua família. E quando eu não comia tudo no jantar, minha mãe dizia: “Termine sua comida! Você não sabe que pessoas como a família de Fide não tem nada? “Então eu sentia uma enorme pena da família de Fide. Então, num sábado, nós fomos visitar a sua aldeia e sua mãe nos mostrou um cesto com um padrão lindo, feito de ráfia seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre eles”.

Ao rotular Fide, Chimamanda Adichie, limitou o seu espectro. Era uma única coisa. Uma uniformidade de palavras únicas e do mesmo tamanho. Diferente do cesto com uma proposta de leitura do mundo múltipla e repertoriada.

Em Javé e com urgência, era necessário recortar, colar e montar a história única. Como num artesanal quebra-cabeça. Mas com muitas cabeças.  E batendo entre si.

E isso é que Antonio Biá, carteiro expulso do lugarejo por criar ficção a partir das histórias dos locais, procura quando ouve atentamente cada um.

Antonio é um escrevinhador de fábulas. Em um lugar de analfabetismo consumado pelo tempo e descaso, como garantir o seu posto de trabalho nos Correios? Como criar e manter a circulação de palavras?

A Literatura salva. E salvou o emprego, por um tempo, de Biá. Ao escrever cartas para conhecidos em lugarejos próximos contando as peripécias ficcionadas dos “javélicos”, garantiu a consolidação da palavra escrita e também a sua expulsão posterior. O escrito tem peso de realidade. Palavras, o vento leva, mas a tinta aprisiona.

Interessante acompanhar o desdobramento da origem da memória do povoado: para uns, um homem forte e viril e para outras, uma mulher destemida e com cabelo nas ventas seria responsável pela edificação do lugarejo.

Mas ainda era necessário encontrar o heróico que transformasse aquele pedaço de chão em patrimônio histórico, é assim intocável.

Os pontos aumentados, ou distorcidos, de cada um não conduziram a um ponto final. A vírgula surge para abrir espaço para mais uma versão.

E será que é de distorção quando se fala do encontro entre a memória coletiva e a pessoal?

E as entranhas das cidades, povoados e lugarejos, não terão a sua própria história?

É preciso saber ouvir o que de palavra eles nos oferecem.

Como digerir a ideia de que seu antepassado, também pedaço de memória vivida, jurada e sacramentada, será invadido por uma corrente de água.

narradoresdvdInundado, perdido… esquecido entre peixes.

Como permitir que por saber mais, se decida a favor de algo que é contra a sua vontade natural, o seu lugar no mundo. Suas vivências serão roubadas, em tempos céleres e sombrios e é preciso um resgate com uma rede de pensamentos de uma coletividade destinada a desaparecer.

O texto escrito tem essa magia de fazer real o que se imaginou, apesar de Antonio Biá preterir a tinta permanente da caneta. Desconfio que também ele, sabedor das palavras, prefere o efêmero das letras borbulhantes que saem da boca e não se acomodam, nem se aquietam.

Mas o poder que faz calar precisa da história ancestral e definitiva.  Antonio Biá apresenta um livro com rabiscos e uma incompletude própria da memória que como organismo vivo se transmuta.

Javé foi submersa e a história virou filme.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

One thought on “Narradores de Javé: A história grande

  1. Olá, Viviane
    Adorei ver seus escritos nesse outro ambiente.
    Que riqueza cultural temos aqui. Fiquei com vontade de ler seu “Laboratório do escritor”.
    Parabéns e força no seu trabalho!

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