A Grande Beleza: Canibais e cordeiros

Jep Gambardelli cordeiro ou canibal? Em A “Grande Beleza”, filme de Paolo Sorrentino, a memória de uma vida que balança entre o divino e o pagão. Ou para além disso.

“Além está o Além e eu não me ocupo com o Além.” Jep Gambardelli é um homem do momento. Caminha com benevolência pelas ruas de Roma. Como se fizesse um favor por permitir que seus pés pisem nas históricas calçadas. Uma concessão do “Rei dos Mundanos”, como se indigita. Não é suficiente estar nas festas, o que interessa de verdade é ter o poder de fazer fracassá-las, profetiza com o cigarro na ponta da boca.

Jep é uma divindade.

Mas não é imortal e uma pausa para a reflexão acontece entre uma tragada e outra: Jep completou 65 anos e mesmo para o rei dos mundanos chega o tempo em que as fichas caem.

Como no outono, é inevitável as folhas que se desprendem das árvores. Mesmo que queiram ficar.

Jep é uma divindade entediada.

“O aparelho humano”, livro único escrito com tempo vencido, o embeleza, mas também o aprisiona. Procura, mas com uma vontade preguiçosa, a grande beleza: a história e o personagem que merece um desvio do seu caminho da mundanice e se proponha a escrever.

Nem mesmo o jovem tresloucado e filho de uma milionária pintado todo de vermelho, nem a artista pseudo contemporânea que bate violentamente a cabeça numa pilastra em um teatro a céu aberto para que o sangue sustente a intenção artística, movimentam a caneta em direção ao papel.

Enquanto isso, a vida acontece em festas inócuas, aplicações de botox, personalidades forjadas na futilidade. Ou na ganância.

Como a menina obrigada pelos pais a criar arte com a mistura aleatória de tintas jogadas em fúria em uma tela branca e gigantesca. Mãos pequenas entre gritinhos, espalham e desenham com as cores largadas. Sem propósito.

https://www.youtube.com/watch?v=wKvCxmQQ3IA

As pessoas aplaudem e evitam a melancolia visível da criança que quer ser veterinária.

Jep está entre eles, mas o branco da tela continua enigmática. Incomodando, mas de forma velada.

Como poderemos ser em branco, com uma vida já percorrida?

Senti-me em trepidação com a festa inaugural logo após o preto na tela. Lembrei-me de uma dança circular em que canibais, nem sempre famintos, mas pela perpetuação do ritual, preparam-se para comer.

Carne humana.

Ele já não come mais. Vê e deixa os outros comerem. Com a vista da sua varanda para o Coliseu de Roma, Jep começa a questionar-se o que fazer, agora, com o tempo correndo em sentido contrário.

Busca no passado o que ficou.

agrandebelezaposterA sensação que tenho dele é de alguém que observa a arte atrás da linha divisória de segurança que impede que a respiração danifique a obra.

De longe, artificialmente, vai girando, circulando como uma pluma que de tão suave, a presença é sempre benvinda.

Mas cansa.

Fica a ideia de que apesar da sedutora materialidade, o espaço interno precisa da espiritualidade.

Jep tenta falar com a suposta (e mais próxima) representatividade da fé na figura do cardeal que se esquiva. Quer saber, mas também o alívio aparece por não ter que conversar sobre o assunto.

Em “A Grande Beleza”, a metáfora é soberana. Está nas entrelinhas, nos olhares trocados entre os personagens, nos silêncios auto imunes, na dança histriônica e respiros de angústia. Elejo a girafa com seu enorme pescoço que assusta Jep pela imponência doce como um farol que ilumina e que desaparece em um passe de mágica, como a mais bela.

Por ser grande, ela é efêmera.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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