Uma crônica de cinema mais mademoiselle impossível…

O outono chegou. Diferente de antes, dessa vez ela o viu chegar. Abriu as janelas e logo teve os cabelos despenteados pelo vento. Vive agora de cachos e não se importou se alguns pingos da chuva caíram sobre sua cabeça. Sorriu amarelo: no outono é assim. Tudo fica meio sépia, como os melhores prêmios de fotografia do cinema. Outono é o início de tons cor de cinza que virão quase macios e ternos com o inverno. Aqui não neva, mas se nevasse, com ponches quadriculados ela sairia a brincar. Uma brincadeira tímida, porque tudo no outono é discreto. Parece que cabem mais abraços que beijos nesta estação; mais aconchegos que arroubos.

Outono é tempo de livros abertos e pensamentos dispersos. Tempo de ficar em casa de pijamas ouvindo Miles Davis dizendo “I love you” com seu trompete. Ou ainda, tempo de olhar o mar de ondas revoltas, quebrando brancas e espumantes na praia quase deserta.

Mas o outono também é época especial para ir ao cinema. Tem um sabor especial. Leva-se sempre um casaco, uma chemisier mais elegante. Tanto a prévia quanto o momento pós-filme pedem um café. Chocolates com conhaque também são bem-vindos nesta estação.

No outono, os filmes já foram premiados. O burburinho ansioso já acabou, dando lugar aos títulos alternativos. As cabeças pensantes e os cinéfilos de plantão aguardam qualquer novidade iraniana pintar nas telas.

Ela anda pelas calçadas a caminho do cinema e já avista casais de velhinhos de mãos dadas. Desconfia que neste momento, n’algum lugar, existam amantes felizes. Sabe que são poucos e raros, como raro é o amor. Das teorias que sustenta, esta é a mais triste: raridade são duas pessoas se amarem ao mesmo tempo e com a mesma intensidade. Quando isso acontece, melhor obedecer à loucura do amor para que todo o resto não vire triste monotonia de viver.

meianoiteEla compra o bilhete enquanto Louis Armstrong canta “A Kiss to build a dream on” no café ao lado. Ela não aguenta e sorri. Costuma flutuar com músicas assim, mesmo sem vinho corendo nas veias e dilatando os poros da face do rosto. Hoje ela passou colônia no corpo e sorriu de novo só por causa disso. Vai pisando fofo o carpete vermelho da sala que lhe espera. Um casal aqui, outro ali. Ela senta sozinha e imagina alguém do seu lado. Um ombro forte para deitar a cabeça enquanto o filme não começa. Ou mãos para segurar na hora do suspense, do susto, do medo. Mas não há ninguém. Ela escolheu ficar sozinha porque depois de muito amor, nada se compara, nada se compara… Está levemente rubra neste momento.

O trailer de um filme qualquer pinta na tela e pensa nos beijos desperdiçados. Pensa em tanta coisa. As luzes se apagam por completo. Pensa nas montanhas não escaladas, nas trilhas não percorridas, nos riachos não explorados. Pensa que poderia ser outra e fugir dali. O que e por que o cinema lhe causa isso tudo? Será só com ela? Que força tem uma ficção de acender nela tantos sonhos assim?

De repente, um pensamento lhe cai no ombro esquerdo. É um anjo irlandês que veio direto da Europa lhe contar o que já sabia. Ela nunca imaginaria tanto labor assim só por causa dela, mas ele veio e a tranquilizou. Disse, quase suspirando (porque as palavras em baixo tom são as que reverberam mais), para que ela não se esquecesse: você mora no amor.

cinema e convesa 3Uma lágrima despencou dos olhos da atriz de tez branca e opaca na tela. Outra lágrima deslizou sua própria face. Lembrou que é sempre em salas de cinema que renova os votos de ser quem é. O filme acabou. Nos créditos, tantos nomes bonitos.

Espera todo mundo sair. O rapaz que verifica os assentos cantarola “Amor de loca juventud” e ela só sabe disto porque ama Buena Vista Social Club. Ajeita o casaco e sai. Ainda tem os chocolates com conhaque no bolso. Em casa lhe esperam o vinho, os chinelos novos de quarto e a tela branca do computador. A crônica já está pronta, escrita durante o filme, sem caneta mesmo. Escrita por dentro, íntima e rubra. Mais mademoiselle, impossível.

O outono lhe espera lá fora, assim como outros anjos. Ela sorri.

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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