12 Anos de Escravidão dentro do Robocop e com Ela como projeto na política do cinema mundial e outras pequenas e inúteis provocações…

Já havia em uma coluna anterior lamentado a escolha de José Padilha em filmar o “Robocop” dentro dos Estados Unidos e detrimento de um outro projeto menos óbvio – cito na matéria uma possível refilmagem de “Queimada”, de Pontecorvo, no Haiti por exemplo.

Depois de ver o filme, mantenho minha ressalva. Padilha nada acrescentou a esta peça cinematográfica de humor negro de Paul Verhoeven, além de cineasta Verhoeven é matemático e físico e seu “Robocop” é um filme que desconstrói a si mesmo pelo  fato de não se levar a sério em nenhum momento. O mesmo não pode ser dito do filme de Padilha, que tenta esboçar uma tese sobre a paranóia e suas ligações com a hegemonia e o imperialismo americanos, ao invés de fazer um grande filme. Senti falta da cena em que ele se rebela contra a máquina dentro de si e constrói uma espécie de embate interno entre a máquina e o humano parcialmente fundidos um no outro, como o que pressentimos em “Ela”, de Spike Jonze.

O filme de Spike Jonze cria uma nova vertente, a dos filmes que tem como protagonistas um ator em estado de invisibilidade ou a não-presença de um dos atores em cena utilizada como presença. Não se trata de uma animação onde isto acontece de um modo figurado há décadas. A voz do programa: as vozes de Scarlett Johansson, Brian Cox, Bill Hader, Spike Jonze e Kristen Wiig no filme simulam a presença  do humano dentro do programa de computador que por sua vez simula para si mesmo uma humanidade que acaba por si.

robocopSe descontarmos o final new age do filme, provocar um choque no sistema da máquina e pane no programa que leva as personagens humanas do filme representadas pelos atores Joaquin Phoenix e Amy Adams a um reencontro com o grande vazio da solidão, único lugar onde o outro pode ser tocado sem simulações. O que nos leva ao chamado “mundo real”, uma das grandes e mais patéticas invenções da mente humana.

E no mundo real dentro do tempo histórico, mas dialogando e muito com o tempo presente, acontece o enredo de “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen, ganhador do Oscar de melhor filme deste ano, como nos sonhos de José Padilha, aqui temos um filme que consegue ser uma tese e contar uma história ao mesmo tempo.

A escravidão do filme equivale em muitos momentos a algumas cenas da via crucis do “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. São cenas cruas de torturas físicas e psicológicas típicas dos regimes totalitários que se utilizam da escravidão como vetor. Não existe redenção catártica no filme e se o humaníssimo herói negro do filme é libertado, ele está para o resto de sua vida transfigurado pela dor e humilhações sofridas.

Permitam-me abrir um parêntese: para falar um pouco sobre racismo e arte, duas coisas que conheço na pele. È óbvio que o racismo (e o feudalismo) estão entranhados dentro da ideia de Nação que se esboça no Brasil e em outros países, e que a tensão social que ele gera tem uma mão dupla: vejo em amigos e amigas minhas, quando se dirigem a minha pessoa para digamos “analisar” meus comportamentos, diversos átomos do discurso racista e excludente, onde práticas do mais abjeto servilismo são projetadas sobre mim. Nada incomoda mais a sociedade brasileira do que um negro intelectual.

Nas províncias como Santos, Guarujá e outras da região, predomina a ideia do negro folclórico, bonzinho e servil, do “sambista alegre” e do “negro trabalhador” (para quem é este trabalho?). Avançamos para exceções que são – a todo o momento – desacreditadas (como o caso extraordinário do Ministro do Supremo Joaquim Barbosa).

ela2Guardadas as proporções, me sinto uma exceção também, quantos poetas e pensadores negros existem hoje em dia”?”. O próprio diretor do filme Steve McQueen, quando esteve aqui no Brasil para uma oficina de cinema na FAAP, depois de uma longa olhada pela sala fez a pergunta fatal que desmonta qualquer noção de “País cordial e sem racismo” que é vendida pelo Brasil para  gringo não ver: “ Onde estão os negros ?.

“12 Anos de Escravidão” não é realmente um grande filme, mas seu maior mérito é levantar estas e outras indagações, ao utilizar o passado para iluminar o presente. No fundo os grandes escravos do nosso tempo são os isolados de si mesmos e alienados do outro pela ditadura do digital muito em ilustrada em “Ela”, de Spike Jonze.

Em breve todos serão Robocops.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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