Mesmo que a gaiola estivesse aberta

Maria e José deixaram Portugal há mais de trinta anos. Seus filhos nasceram em França e eles, apesar de serem apreciados por sua dedicação servil em seus postos de trabalho, continuam portugueses.

A metáfora da gaiola dourada é representativa de uma realidade de muitos que exilaram-se por conta própria e descaso do Estado.

A servilidade dos personagens me angustia, apesar das cores e (berros) vibrantes. Tudo à flor da pele e talvez uma pitada desconectada da alma melancólica do ser português.

Penso que é proposital.

Se a pátria de um ser humano é a sua língua, fica claro que Maria e José são expatriados. O português se esconde, está camuflado nas palavras que quase só saem em francês – o idioma do país acolhedor e que se agradece a Deus todos os dias pela generosidade.

Por ato falho, ou como uma fagulha de rebeldia ainda acesa, palavras em português aparecem sussurradas ou escondidas em becos escuros que não convém iluminar.

gaiola2Afinal, somos gentis e estamos aqui para vos servir.

Um contraponto do destino modifica a história: a tão sonhada casa em Portugal fruto de uma herança de família.

Mas para isso será preciso deixar a gaiola. E aonde estarão as forças? Animal domesticado esquece o riso, e como encarar a porta que sempre esteve aberta?.

“Gaiola dourada”, é um filme que assim como malas, tem chave de segurança.

É preciso saber o código para que a superficialidade dos estereótipos se afaste e o olhar do espectador invada a tela e encontre pontos de conexão.

Como numa passagem secreta.

A emigração e todas as suas vicissitudes é o código de acesso. Ali estão todos os pontos obscuros, o balanço do que se perde e o que se ganha por estar para todo sempre no meio do caminho.

“ A meio caminho na jornada da vida, dei comigo perdido numa floresta escura, tendo perdido o caminho”. Maria e José evitam a peregrinação e a revisão do significado da vida proposta por Dante.

Enquanto podem.

Quando falamos de emigração, é de sacrifício que se fala. Imola-se o corpo, para que a alma não se venda. Como diz o fado “Prece”, a morte poderá vir de várias formas: na praia, na rua irmã das pedras no luar, no leito com as mãos em cruz sobre o peito ou até mesmo entre grades com o coração corroído de saudade.

Com uma única condição no contrato com a vida: “Das mãos de Deus tudo aceito
Mas que eu morra em Portugal”.

Na hora do regresso, há o medo de não pertencer mais. Quando se retorna, há um fio que se gastou e que não permite o recompor-se de uma história.

Em “Gaiola dourada”, nem tudo que reluz é ouro, mas o toque de Midas está sempre à espreita.

Quem garante a liberdade?

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

One thought on “Mesmo que a gaiola estivesse aberta

  1. Emocionante! A leitura me fez chorar…… só uma jovem com sua trajetória de vida poderia ter escrito tal comentário , que como sempre amplia nosso olhar sobre a história contada.

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