A Vida Secreta das Palavras: a dor alheia e as ondas não se repetem jamais

Sou atraída por tudo que se refere à palavra. Não é exagero, juro. Para mim, é como se elas vivessem numa espécie de Minhocário das palavras. Mesmo quando escondidas, estão ali perfurando, fazendo novos túneis de significações. As palavras têm ainda o poder de remodelar o passado de acordo com a emoção que colocamos nele. Elas criam formas para nossos sentimentos. Fazem bagunça nas nossas relações amorosas. Muitas vezes, aproximam pessoas. Noutras, pioram as coisas igual a passaporte para o deserto. Palavra quando fica escondida no peito, pesa. Palavra dita sem coração dói no outro. Palavras têm tons, cores, cheiros, sabores. Há palavras que salvam e outras que matam. São exímios martelos que ficam batendo madrugada afora.

Eu não sabia o que estava guardado dentro deste filme. Assim, quando vi o título “A Vida Secreta das Palavras”, não titubeei. Achei aquilo bonito: vida secreta das palavras. Acabei me lembrando do meu próprio Minhocário e me aventurei a assistir a esta película da diretora catalã Isabel Coixet. Queria ver, sob outros pontos de luz, como as palavras têm o poder de acionar dores e curá-las. Sim, eu acredito nisso!

O filme começa com Hannah, trabalhadora diligente em uma fábrica em algum lugar da Europa. O trabalho mecânico, os gestos secos e sem grandes aberturas pouco revelam sobre ela, a não ser seu jeito eremita de ser. Num belo dia, Hannah é chamada pelo chefe que, curiosamente sugere que ela viaje. Ao contrário dos outros funcionários, ela não faltava ao serviço e nem tirava férias. Era estranhamente assídua e exemplar; metódica e sem expressão. E quase que cumprindo uma ordem de cunho empregatício, obedece.

Tudo é estranho: o ônibus, o quarto do hotel, a comida. Quando parece estar perto de enlouquecer, oferece-se, em plenas férias, para ser enfermeira de um homem acidentado numa plataforma de petróleo. É neste ponto do filme que começam as experimentações humanas. Porque a gente só é de verdade quando esbarra no outro. A plataforma estava desativada devido a um acidente. Os trabalhadores dali estavam apenas aguardando os encaminhamentos da empresa. Curiosamente, cada um ali é atraído por um tipo de solidão. Desde o cozinheiro que, só para ter um pouco de alma, deixa tocar no rádio a música referente ao país da receita que executa, como o oceanógrafo que mede o número de ondas que batem na plataforma. Em vez disso, ele queria mesmo era salvar os mexilhões que ali vivem. São poucos que restaram ali e cada um atravessa os dias na sua pequena solidão. Mesmo assim, na plataforma, há balanços, música e sonhos para ninguém se esquecer que ainda moram humanos naquele lugar.

O paciente acidentado e com graves queimaduras pelo corpo é Joseph, sujeito ácido com as palavras. Ele está cego temporariamente e, ironicamente, é cuidado por uma enfermeira que pouco quer falar. Dentre os muitos diálogos do filme, ele lhe pergunta sobre sua comida preferida. Ela só comia frango, arroz branco e maçãs religiosamente. Então ele solta palavras no ar que vão quase se corporificando naquele quarto: chocolate com coco, semente de girassol, sorvete de gengibre, passas, tâmaras… Ela parece ignorar, mas bastou isso para passar a devorar outros sabores. Ah, as palavras…

Ele, mesmo sem enxergar, sabe que ela é loura. Sente tão forte seu cheiro de sabonete de amêndoa doce. Aos poucos, Hannah começa a falar. Em meio aos cuidados destinados a Joseph, ela consegue imaginá-lo com quinze anos. E, senhores, quando uma mulher faz isso, é sinal de que ela está se apaixonando. Joseph é esperto, percebeu que ela gostava um pouco dele. Mas muita coisa acontece. Mais dentro que fora dos personagens. Será que um homem suporta o passado de dor de uma mulher? Foi uma das perguntas que ficou flutuando na minha cabeça enquanto eu acompanhava o desenrolar do enredo.

Hannah pouco fala, mas as palavras estão ali dentro dela, desobedientes, sem cessar. Sua consciência tem a voz de uma criança e é audível para o espectador. Ecoa cá dentro de nós também quando diz: “Isso é tudo? Matar o tempo antes que o tempo te mate?”. E percebemos que há pessoas que escolhem viver assim. Há metáforas espalhadas pelo filme. As feridas visíveis de Josef doem menos do que as internas. Seu estado momentâneo de cegueira revela um homem que não quer enxergar certas coisas. Hannah, além de pouco falar, carrega um aparelho de surdez. Talvez por medo das palavras moradoras dela se cruzarem com as palavras moradoras de outros seres. Talvez tenha medo de não suportar dores alheias.

O filme é belo e denso, de imagens difusas, luz discreta para não alardear o desolamento dos ambientes e das pessoas. Mostra também como a política afeta nossas relações. Assim, o longa transita em dois planos, o pessoal e o político. Fala da guerra dos Balcãs, do quase esquecimento do sofrimento de milhares de armênios nas mãos de Hitler, etc.

avidasecretadvd“A Vida Secreta das Palavras” é belo e me apontou várias perguntas: como suportar a dor do passado de alguém? Hannah, diante do convite de Joseph para irem morar no Chile, acionando as palavras moradoras dela, achou melhor se afastar dizendo: “Vou começar a chorar tanto, que nada nem ninguém vai me fazer parar. As lágrimas vão encher o quarto, não vou conseguir respirar… Vou levar você para o fundo comigo, e nós dois vamos nos afogar”. E ele responde: “Eu vou aprender a nadar… Eu juro que vou aprender a nadar… ” Será que ela aceita? Será que o argumento de um coração que ama é capaz de salvar um coração que sangra? Ah, e Joseph, apesar de trabalhar em uma plataforma de petróleo, não sabe nadar. Ironias…

O filme acaba. Apago a luz, mas as palavras moradoras de mim cutucam as palavras moradoras da consciência de Hannah: “As ondas nunca se repetem.” As palavras moradoras de mim respondem: As ondas não se repetem jamais.

Um beijo cheio de emoção, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

2 thoughts on “A Vida Secreta das Palavras: a dor alheia e as ondas não se repetem jamais

  1. Nossa!!!!! Despertou em mim uma imensa vontade de assistir esse filme……sozinha….comendo pipoca e com um pacote de lenço de papel…..Obrigada por essa sensibilidade contagiante…..bjo grande

  2. fico sempre encantada quando leio alguma publicação sua…Amo vc querida!
    Beijos no coração.
    Lena

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