Oscar 2014 | Como foi

A grande noite da entrega do Oscar 2014 reservou para o final, e com muito suspense, a consagração de ”12 Anos de Escravidão” como o filme do ano. Até então, “Gravidade” já havia levado uma enxurrada de Oscars e, se levarmos em consideração o ínfimo número de estatuetas que os demais filmes haviam conquistado – nada dava como certo a vitória do longa de Steve McQueen. No entanto, quando Will Smith surgiu no palco para anunciar o melhor filme da noite, minha previsão se confirmou e “12 Anos” encerrou a noite de gala como o grande vitorioso.

Dias antes da entrega do Oscar, pude intuir que a Academia iria coroar o sucesso desse filme, que foi ganhando prêmios seguidamente, como o Globo de Ouro e Bafta. Na minha palestra anual beneficente, comentei que a presença de um grande número de atores afro-americanos como apresentadores, incluindo o mitológico Sidney Poitier (que foi o primeiro afro-americano a vencer o Oscar de melhor ator há incríveis cinquenta anos) era um grande sinalizador dessa vitória.

‘”12 Anos de Escravidão”  é um épico corajoso, forte, comovente e inspirador, que mostra as profundezas da crueldade que o ser humano pode atingir, mas também as alturas de sua força, fé e esperança para sobreviver, prosseguir e conquistar um bem inestimável, de direito de todos, que é a liberdade. Na era de Obama, o filme ganha  ressonância para o povo americano.

http://www.youtube.com/watch?v=kL3-T0LdVHQ

O anúncio de “12 Anos de Escravidão” como Melhor Filme

Na pré-estreia do filme, no instante em que vi a linda e talentosa estreante Lupita Nyong’o em sua primeira cena, acreditei muito na sua vitória como atriz coadjuvante. A jovem Lupita, de fato, levou o prêmio e discursou lindamente; seu prêmio foi muito valorizado pela fantástica companhia em que estava, disputando com as notáveis Jennifer Lawrence (“Trapaça”), Sally Hawkins (“Blue Jasmine”), June Squibb (“Nebraska”) e Julia Roberts (“Álbum de Família”).

A propósito, Jennifer não repetiu a vitória do Oscar (em 2013 foi melhor atriz por “O Lado Bom da Vida”), mas reviveu o célebre tropeço no ano passado, desta vez no tapete vermelho, fato que não passou em branco pela espirituosa MC Ellen DeGeneres, que, durante a cerimônia, garantiu-lhe que levaria o prêmio até onde estava sentada para evitar nova queda.

Ellen fez piadinhas também com Jonah Hill, com teor ligeiramente erótico, mas sutil, ao referir-se à nudez frontal do ator em “O Lobo de Wall Street”. Jonah, Bradley Cooper (“Trapaça”), Michael Fassbender (“12 Anos de Escravidão”) e o estreante amador da Somalia, Barkhad Abdi (“Capitão Philips”), aplaudiram  o anúncio do favorito absoluto Jared Leto como melhor ator coadjuvante, no extremamente difícil e desafiador papel de um transexual em “Clube de Compras Dallas”.

Alfonso Cuarón discursa após receber prêmio de Direção

Os brilhantes roteiros de Spike Jonze para “Ela” (original) e, de John Ridley, para ”12 Anos de Escravidão”, foram reconhecidos.

Durante a premiação, a divertida Ellen continuou aprontando das suas, confirmando sua fama de boa apresentadora e comediante: tuitou um “selfie” com uma dezena de astros ao fundo e bombou na internet, encomendou pizza para a plateia nobre de Hollywood, que embarcou na brincadeira (só Leonardo DiCaprio não aceitou seu pedaço), recolheu dinheiro para a gorjeta  e, após uma bonita homenagem aos 75 anos do  megaclássico ”O Mágico de Oz” (Pink cantou ”Somewhere Over the Rainbow” – grande responsabilidade, pois Liza Minnelli, filha de Judy Garland, estava presente), a irrequieta Ellen arrancou risadas surgindo como a boa fada de Oz. Infelizmente, foi justamente com a estrela de “Cabaret” que Ellen fez sua única brincadeira desastrada, ao dizer que ali estava um transformista perfeito.  Logicamente não foi intencional, mas não pegou nada bem.

Foram apresentadas imagens da premiação dos Oscars Honorários entregues à extraordinária Angela Lansbury pela contribuição de sua arte como atriz, e humanitários para o ótimo comediante Steve Martin e a musa Angelina Jolie.

O ”In Memoriam” homenageou as perdas do cinema no último ano, de James Gandolfini, Shirley Temple, Joan Fontaine a Philip Seymour Hoffman, não esquecendo o talentoso brasileiro Eduardo Coutinho. Pediu-se para não aplaudir as imagens icônicas, e Bette Midler, em plena forma, cantou em homenagem às estrelas que partiram.

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Enquanto alguns filmes eram premiados, como “O Grande Gatsby” (remake de Baz Luhrmann com DiCaprio) que recebeu dois Oscars por seus lindos figurinos e design de produção,  outros filmes muito bons acabaram no limbo: “Philomena”, “Nebraska”, “O Lobo de Wall Street” não levaram nada. Tampouco “Capitão Philips”, que, lembrando uma antiga expressão que cai tão bem nesse caso, ficou a ver navios.

A lendária musa de Hitchcock, Kim Novak, numa rara aparição, anunciou a vitória de “Frozen” como melhor animação, e logo mais esse novo e simpático trabalho da Disney receberia também outro Oscar, pela canção “Let it Go” (que havia sido apresentada pelo carismático John Travolta, em plena forma aos 60 anos recém completados, mas que se atrapalhou ao pronunciar o nome da cantora Idina Menzel).

Outros vencedores foram: o poético longa italiano “A Grande Beleza”, como melhor filme de língua estrangeira, o cativante “Mr. Hublot”, como melhor curta de animação, o contagiante “20 Feet From Stardom”, como melhor documentário e “The Lady in Number 6: Music Saved My Life”, o sensível curta/documentário sobre a última sobrevivente do Holocausto.

O aclamado independente “Clube de Compras Dallas”, depois de seu primeiro Oscar para Jared Leto, ainda levou mais dois: melhor maquiagem e o de melhor ator: Matthew McConaughey,  realmente o favorito pela sua formidável interpretação de um cowboy grosseiro, ignorante e encrenqueiro que se humaniza ao ser diagnosticado como portador do vírus HIV, nos anos 80. Sua impressionante interpretação rendeu-lhe os principais prêmios de melhor ator, e o Oscar não foi exceção. Matthew recebeu o Oscar das mãos da linda Jennifer Lawrence, que, ao entrar no palco, disparou “Por que estão rindo?”, em referência ao seu mais recente tombo, num momento de bom humor.

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Foi um ano muito concorrido também nessa categoria: estavam também indicados o fantástico Chewetel Ejiofor (“12 Anos de Escravidão”), o incrível Christian Bale  (“Trapaça”), o ótimo Bruce Dern (“Nebraska”) e o sempre versátil, impecável Leonardo DiCaprio (“O Lobo de Wall Street”). Curiosamente, Leo não foi esnobado pela Academia nesse ano: as vítimas foram o icônico Robert Redford em “Até o Fim”, um tour de force similar ao de Sandra Bullock em “Gravidade”, e o excelente Tom Hanks, com sua autoridade em “Capitão Philips”. Redford lamentou que o estúdio não se interessou em promover o filme para a Academia; já Hanks deve ter tido seus votos divididos porque também estava bem em “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”.

Visivelmente aflita na plateia, a brilhante atriz Cate Blanchett, linda e elegantemente vestida como vencedora, abriu o sorriso ao ouvir seu nome na voz de Daniel Day-Lewis. Quando este lhe deu a estatueta, ela deu um grande suspiro de alívio e em seu discurso destacou o talento do grande Woody Allen, que criou sua complexa, amargurada personagem, a socialite decadente e abandona de “Blue Jasmine”. Cate também era favorita nessa sua sexta indicação, mas o grande número de Oscars que “Gravidade” tinha arrebatado fazia da extraordinária Sandra Bullock uma grande ameaça. Também estavam disputando a encantadora Amy Adams (“Trapaça”), a fabulosa Judi Dench (“Philomena”) e a recordista Meryl Streep, na sua 18ª indicação, por “Álbum de Família”, com duas vitórias como atriz principal e uma como coadjuvante no currículo. Cate e Meryl já haviam disputado anteriormente, e junto com a grande Fernanda Montenegro, mas foi Gwyneth Paltrow que venceu por “Shakespeare Apaixonado”. Coisas de Harvey Weinstein.

A ausência de Emma Thompson também foi muito sentida na lista das indicadas. Ela estava perfeita em “Walt nos Bastidores de Mary Poppins”. A festa poderia ter sido mais divertida com a participação dessa grande atriz.

Cate Blanchett venceu como Melhor Atriz

Como era esperado, o supertalentoso Alfonso Cuarón tornou-se o primeiro latino-americano a vencer o Oscar de direção, recebendo seu Oscar pelo grande Sidney Poitier, com a sempre bela Angelina Jolie ao lado, pelo extraordinário trabalho em “Gravidade”, ficção científica existencialista que confirmou sua excelência com sete prêmios: além deste, levou o de edição, fotografia, efeitos visuais, mixagem de som, edição de som e trilha sonora.

A tendência da Academia nos últimos anos, de não mais se sentir obrigada a premiar um filme como o melhor do ano juntamente com seu diretor, foi confirmada  quando Will Smith anunciou “!2 Anos de Escravidão” como o grande vencedor da noite, num total de três estatuetas. Faltava um épico do quilate desse filme sobre este tema na história dos Academy Awards, sobre um período sombrio que assombrou não só os EUA, mas diversos países, inclusive o Brasil, onde a escravidão se tornou uma das mais trágicas lembranças e que não deve ser jamais esquecida.

Lupita Nyong’o falou de sonhos em seu emocionante discurso, mas anteriormente tinha declarado na premiação do Sindicato dos Atores que o diretor Steve McQueen ao decidir realizar esse trabalho, armou-se com um flashlight para procurar embaixo dos tapetes e assoalhos da nação por essa vergonha, sobre a qual infelizmente o país também se ergueu. Através dela pode-se entender muito sobre cultura, preconceito e liberdade nos dias de hoje. Uma grande vitória, sem dúvida, e o Oscar, além de aumentar sua importância, consagra também o livro escrito por Solomon Northup com o Oscar de roteiro adaptado, e que será distribuído em todas as escolas do país.

Enquanto o corajoso produtor Brad Pitt era aplaudido e beijado no palco pela equipe de “12 Anos” e Steve McQueen dava pulos como uma criança feliz, “Trapaça” saía da cerimônia como o maior perdedor (10 indicações e nenhum Oscar), fazendo companhia aos outros perdedores já citados. Na história do Oscar, só fica atrás de “A Cor Púrpura”, de Steven Spielberg, que continua na posição de maior derrotado do Oscar (11 indicações). Coisas do Oscar.

Waldemar Lopes é artista plástico, engenheiro mecânico, professor, cinéfilo. Anualmente realiza em Santos uma palestra beneficente sobre o Oscar, que se tornou tradicional na cidade. Também já realizou encontros sobre cinema para a Universidade Católica de Santos, Universidade Monte Serrat, Secretaria de Cultura de Santos e Rotary. Escreve para o CineZen e o 50 Anos de Cinema.

3 thoughts on “Oscar 2014 | Como foi

  1. COMO VOCE CONSEGUE PASSAR PARA O PAPEL TODO O ACONTECIMENTO DESSA NOITE!!!COMO TAMBEM NA PALESTRA BENEFICENTE SOBRE O OSCAR,TUA MEMORIA FOI NOTADA E COMENTADA POR PESSOAS ALI PRESENTES!!!!COMO VOCE FALA PARA OS ESPECTADORES,EU FALO AGORA PRA VOCE!!!!VOCE TAMBEM MERECE UM OSCAR!!!PARABENS PELO TRABALHO!!!

  2. A apresentação da entrega dos “OSCARS” no último domingo foi mais uma vez abrilhantada com os comentários do Waldemar. Ele já havia dito na sua palestra que “12 Years a Slave” provavelmente ganharia como Melhor Filme e acertou em cheio! E agora esta crônica super legal resume mais uma cerimônia do OSCAR 2014. Congrats!!! 🙂

  3. Waldemar você está de parabéns pela excelente palestra e por esta cronica impecavelmente escrita. Não pude assistir a cerimonia do Oscar este ano mas ter a oportunidade de ler a sua cronica me transporta para esta grande noite…Isto é um dom, um presente precioso de Deus, com certeza você é merecedor deste presente por isso continue nos proporcionando estes momentos de alegria..bjs

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