O esqueleto de Glória

Glória é uma mulher madura. Viveu com intensidade experiências constitutivas da formação de um sujeito: um casamento, filhos, um emprego estável.

Separada, procura algo. E encontra num baile onde a maturidade circula ao ritmo da música.

Glória me surpreende por sua entrega. Rodolfo, um homem de meia idade, abre uma clareira no cotidiano dessa mulher que vive só e tem uma armação de óculos desajustada. Apesar de ser bonita, o adereço desconstrói sua imagem. Mas, os olhos escondidos atrás das lentes são preservados. O que me cativa é a iluminação de suas pupilas. Ela é vibrante.

Como estou na passagem para o meio do caminho, interesso-me por saber como chegar ao meu destino final. Gostaria de envelhecer, mas com a consciência do que isso representa para um ser humano.

Começo a escolher as sementes que quero plantar e também em que terrenos elas irão florescer.

Para além de todos s condicionamentos externos.

Ao contrário de Glória, a primeira parte da história com laços afetivos criados não atei. O que de alguma maneira me deixa como uma maior liberdade para criar um enredo próprio.

Rodolfo se apaixona por ela e “é uma coisa física e concreta que me acontece em relação a você”. Ele não mente, ela acredita, mas não é tudo.

Pressionado pela família do qual se separou há pouco mais de um ano, sentia-se sufocado, quer respirar, mas tem medo.

Ou é desajeitado.

Vejo a velhice como uma mistura dessas duas coisas. Nos desajeitamos dentro de nosso corpo e nos assustamos com as mudanças impostas pelo tempo cronológico.

Minhas primeiras rugas, as descobri pela manhã ao acordar. Estou certa que quando anoiteceu no dia anterior, elas não estavam lá.

Trabalham de noite, na surdina, sem perdão. Pequenas e vis criaturas que puxam linhas por extenso em nossos rostos.

Que ancestralidade terei quando o tempo passar? O que vou ofertar e o que gostaria de ser?

No Oriente, a velhice é reflexo de como se lidou com os momentos enquanto adulto. Creio nisso e organizo meu cotidiano como um mosaico: várias peças que ao se encaixar constroem uma unidade atemporal.

Como projeção, converso com a parte de mim que está no futuro. Interesso-me pelo tema, e “Glória”, filme de Sebastián Lelio levanta questionamentos importantes sobre o afeto e a sexualidade.

Será que muda tudo tanto assim?

Rodolfo é inseguro e não consegue se desvencilhar das obrigações da família. Simbolicamente, fez uma operação ao estômago e perdeu massa de gordura, mas não a culpa.

E isso compromete a relação, mesmo encantando-se por Glória e pela verdade dela em dizer que é uma mulher contente, que ás vezes fica triste pela manhã, ás vezes a tarde.

Em nada difere de um adulto, ou até mesmo de alguém que é jovem no tempo biológico.

Gosto da ideia de envelhecer produzindo, mas reconheço que essa é uma tarefa que demanda um tempo interno que se dedica ao florescimento. Assim como um bonsai, que exige e é dádiva do tempo.

O tempo das coisas também me agrada. A culpa soterra Rodolfo e Glória se decepciona, porque gosta dele. Há num entendimento entre corpos e almas uma promessa de que seremos eternos. Uma sensação química? Ou um ânimo que se agita? Sem explicações aparentes ou até mesmo necessárias, Glória não quer se magoar, nem ter rugas na alma.

O encontro com um esqueleto dançante em um shopping de Santiago no Chile, movimenta suas ideias e seus sentimentos. Confronta o fim e como agradecimento, uma moeda no chapéu de quem manipula a marionete. A morte agradece em gargalhadas.

Para além do tempo que circula no relógio, há uma outra espécie. O que significa. Um conflito entre a sequência linear que desdobra segundos em horas e multiplica dias em anos, Chronos e o revelado na sua dimensão profunda de Kairós.

Oscilo entre as duas definições de tempo, mas com a tendência para aceitar o que Kairós me oferta: “Quem sou, então, e para onde estou indo”.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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