O Oscar da sobrevivência: Favoritos da Academia, os nossos favoritos, como funciona

Antes tarde do que nunca. Amanhã acontece a principal premiação do cinema. E, conforme pedidos, eis um post com os prováveis premiados, quem gostaríamos que vencesse e algumas informações sobre o Oscar: o sistema de votação, os melhores “termômetros” para quem participa de bolões, etc.

Polêmico, charmoso, alvo de críticas e sempre visto, o Oscar não é o prêmio mais justo do cinema. Não traz o caráter artístico de um festival. No entanto, pode ser considerada a mais democrática das premiações. Vejamos: se em Cannes, Berlim ou Veneza temos júris de poucas pessoas, com um presidente que possui grande capacidade de influência no resultado final, na Academia de Hollywood votam milhares de profissionais da indústria. É uma eleição. E tal qual uma eleição, há campanhas, jogo de influência, o momento político e social dos EUA é levado em conta. Porém, no fim, o que vale é a opção de cada membro da entidade. Não há ilegalidade, compra de votos ou coisa parecida. Tanto que há punições severas para quem extrapola: em 2014, por exemplo, a canção indicada “Alone Yet Not Alone” foi desclassificada por que o autor Bruce Broughton “usou sua posição como ex-governador e atual membro-executivo do comitê para promover pessoalmente sua própria candidatura ao Oscar criando a aparência de uma vantagem desleal” – justificou a Academia.

Sistema de votação

A eleição é realizada em dois turnos. Inicialmente, os integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood votam na área onde atuam: roteiristas votam nos melhores roteiristas, diretores nos diretores, e assim por diante. Todos também têm direito a um voto na categoria Melhor Filme. Após a apuração, saem as listas de indicados.

Com as listas de nomeados definidas, todos recebem cédulas de votação e aí participam de todas as categorias. Por isso que os prêmios dos sindicatos (SAG, PGA, etc) são considerados os melhores termômetros para quem tenta antecipar os ganhadores do Oscar. Pois possuem praticamente os mesmos votantes da Academia. Equivocadamente há quem cite o Globo de Ouro como prévia confiável. Não é. Quem vota no Globo de Ouro é a imprensa estrangeira em Hollywood, ou seja, algumas poucas dezenas de jornalistas e críticos. As surpresas acontecem quando os votantes mudam de opinião do Sindicato para o Oscar, ou justamente por que, no segundo turno, todos votam. Há ainda casos como o roteiro adaptado de “12 Anos de Escravidão” este ano, cujo roteirista não é membro do Sindicato dos Roteiristas dos Estados Unidos, e sequer foi indicado nele, mas está concorrendo ao Oscar e possui boas chances.

Para poder se inscrever ao Oscar, a produção precisa ter, no mínimo, 40 minutos de duração (exceto nas categorias de curtas-metragens), ser exibido em Los Angeles entre os dias 1º de janeiro e 31 de dezembro do ano anterior ao Oscar e ter cópias em 35mm ou 70mm ou digitais de 24 ou 48 quadros por segundo.

Oscar 2014: o Oscar da sobrevivência

MCDTWYE FS008As escolhas do Oscar representam, em boa parte das vezes, um pensamento plural dos acadêmicos ou o momento político e social que permeia os EUA. Seria como se a premiação tivesse um “tema” implícito naquele ano. Em 2014, podemos dizer que o assunto em questão é a sobrevivência. Vejamos os dois principais favoritos:

“12 Anos de Escravidão” é sobre um homem livre que é seqüestrado e transformado em escravo e, por 12 anos, luta para superar todos os terrores que enfrenta, mesmo que certas ações gerem questionamentos em outros escravos.

“Gravidade” é mais explícito no tema, um tour de force de uma única pessoa à deriva no espaço e que tenta de todas as formas voltar à Terra.

Mas não são apenas esses filmes que versam a respeito. Se olharmos com atenção, as atitudes de todos os trambiqueiros de “Trapaça” são nada mais que maneiras encontradas pelos personagens de seguir a vida. Em “Clube de Compras Dallas”, o protagonista lida com o HIV. Em “Philomena”, Judi Dench interpreta mãe que teve o filho sequestrado e passa os anos sem saber onde ele está. “Capitão Phillips” traz a tripulação de um navio a mercê de piratas. “A Menina que Roubava Livros” é uma sensível jornada da jovem que perdeu a família, encontrou uma nova e se depara com todas as implicações da Segunda Guerra e do Nazismo.

Cada filme, à sua maneira, nos traz situações e pessoas que precisam lutar pela vida, pela esperança. Temas universais capazes de envolver o espectador de qualquer parte do mundo: algo essencial para a audiência do programa, que teve queda de espectadores em várias edições nos últimos anos.

Os favoritos

Ainda não deu tempo de ver todos os indicados, especialmente aqueles às categorias de documentário e curtas. Abaixo, seguem os favoritos, aqueles que eu gostaria de ver premiados, e aqueles que, se levarem a estatueta, estará tudo ok.

Melhor filme:

Deve levar: Além de belo filme, “12 Anos de Escravidão” surge em momento que o presidente dos EUA é afroamericano, vários apresentadores escolhidos para a cerimônia também são. Lembram quando Sophia Loren apresentou o prêmio de melhor ator e seu conterrâneo italiano Roberto Benigni venceu? Pois é, parecia tudo armado… e quem sabe agora a festa se repita. Por outro lado, há quem considere o filme forte demais para os velhinhos e conservadores jurados. É aí que “Gravidade” pode se sobressair. No Sindicato dos Produtores houve o primeiro empate da categoria na história, entre os dois.

Gostaria que levasse: Adoro “Gravidade”. Foi meu primeiro na lista dos melhores de 2013. Mas pelo tema social, a crueza e as grandes interpretações, torço por “12 Anos de Escravidão”.

Se ganhar, não tem problema: Todos os indicados desse ano são bons filmes. “Trapaça”, “Ela” e “Philomena” seriam alternativas adoráveis.

Melhor Diretor:

Deve levar: Alfonso Cuarón, por “Gravidade”. Tem vencido os principais prêmios e fez um magnífico trabalho. De alguns anos para cá, a Academia não elege necessariamente o diretor do Melhor Filme – só lembrar ano passado, quando Ben Affleck sequer foi indicado e seu “Argo” foi premiado. A carreira consistente e perícia técnica são aliados ao seu favoritismo. Steve McQueen, de “12 Anos…” e o queridinho de Hollywood, David. O. Russell (“Trapaça”) correm por fora.

Gostaria que levasse: Alfonso Cuarón. Fez aquele que é considerado o melhor “Harry Potter” (“O Prisioneiro de Azkaban”) e, desde aquele plano-sequência extraordinário de “Filhos da Esperança” (um filme subestimado), que se passa dentro de um carro em movimento, virei fã.

Se ganhar, não tem problema: David O. Russell. Vem de três ótimos trabalhos: “O Vencedor”, “O Lado Bom da Vida” e o recente “Trapaça”. Os dois últimos renderam indicações em todas as categorias de atuação. E sabe, como poucos, desenvolver sequências que reúnem vários atores e diálogos. Por isso todos os astros de Hollywood querem trabalhar com ele atualmente.

ela para parte melhor roteiro originalMelhor roteiro original:

Deve levar: “Ela”. Fruto da mente criativa de Spike Jonze. Volta e meia a Academia elege, nesta categoria, filmes que tenham caráter mais independente. Foi assim com “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças” e “Pequena Miss Sunshine”. “Ela” é a bola da vez, merecidamente.

Gostaria que levasse: “Ela”.

Se levar, não será problema: “Blue Jasmine”, de Woody Allen. Igualmente irresistível.

Melhor roteiro adaptado:

Deve levar: “Capitão Phillips” ganhou o Sindicato dos Roteiristas por que “12 Anos de Escravidão” não podia competir. Agora, a história é diferente e “12 Anos…” sai na frente.

Gostaria que levasse: “12 Anos de Escravidão”.

Se levar, não será problema: Este ano a maior parte dos grandes filmes é fruto de adaptação da literatura. E todos são ótimas adaptações.

Melhor Ator:

Deve levar: Matthew McConaughey ganhou tudo até agora, inclusive o SAG e é favorito. Encontra em Chiwetel Ejiofor um forte concorrente e Leonardo Di Caprio corre por fora. Se houver uma divisão entre os votantes para os dois primeiros, pode ser que Lèo surpreenda.

Gostaria que levasse: Matthew McConaughey ou Chiwetel Ejiofor.

Se levar, não será problema: Christian Bale, por “Trapaça”. Excelente ator, grande atuação, sempre bom.

cate blanchett blue jasmine parte melhor atrizMelhor Atriz:

Deve levar: Cate Blanchett é barbada.

Gostaria que levasse: Cate Blanchett.

Se levar, não será problema: Sandra Bullock… Judi Dench…. Hummm. Não, tem que ser a Cate Blanchett! E Meryl Streep dessa vez nem devia estar indicada. Agiu sem ética ao desrespeitar Emma Thompson publicamente no National Board Of Review. Ser diva e uma das maiores atrizes da história não justificam tal atitude.

Melhor ator coadjuvante:

Deve levar: Jared Leto, por “Clube de Compras Dallas”. A Academia adora atores que se transformam e encarnam o sexo oposto. E ele ganhou o SAG.

Gostaria que levasse: Jared Leto ou Michael Fassbender (“12 Anos…”). Este último já merece um prêmio há alguns anos. Sempre ótimo.

Se levar, não será problema: O que dá pra dizer nessa categoria é: Jonah Hill é que não dá! Até é divertido, mas consegue os papeis por que tem padrinho forte.

Melhor atriz coadjuvante:

Deve levar: Lupita Nyong’o , por “12 Anos…”. Grande atuação, prêmios na temporada e a entrega ao papel a credenciam como favorita. Jennifer Lawrence ganhou um Oscar recentemente, é querida, e corre por fora.

Gostaria que levasse: Lupita Nyong’o.

Se levar, tudo bem: Jennifer Lawrence.

Animação:

“Frozen” é o melhor filme da Disney em muito tempo (e quando digo Disney, não me refiro à Pixar que, apesar de pertencer à empresa criada por Walt, produz seus filmes à parte). Deve levar e merece.

Então, façam suas apostas. Neste domingo estaremos no Cine Roxy 5 (Av. Ana Costa, 443, Gonzaga, em Santos) pelo terceiro ano seguido com a exibição ao vivo do Oscar, a partir das 20h30, na sala 3. Os mestres de cerimônia serão os colegas Gustavo Klein e Waldemar Lopes, que farão os comentários nos intervalos. Haverá sorteio de muitos brindes. A entrada é franca, mas pede-se a gentileza de um quilo de alimento não perecível em prol da ACAUSA e Casa João Paulo II.

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

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