Um up para mim, um up para você

Eu fico imaginando encontros. Pela rua, pelo bairro. Pode ser no metrô ou na padaria. Encontros que mudem a vida. Por esses eu sempre espero. Encontros cheios de cores e cheiros. Encontros de sorrisos e apertos. Com os olhos de dentro abertos, eu presto atenção nos transeuntes, nas conversas das pessoas ao longo do dia. Eu presto atenção e associo tudo à minha vida. Pretendo achar sinais. Amo sinais! Nunca imaginei a luz no fim do túnel. Eu sempre a imagino pairando ao meu redor, flutuando na altura da cabeça ou dos tornozelos.

E foi assim que me senti neste final de semana. A vida tem tido muita originalidade ao me presentear com cenas inesperadas de felicidade sutil. Aconteceu que acabei tendo encontros engraçados com algo que permeou a minha infância: balões!

Um detalhe tão banal no dia de alguém, pra mim fez enorme estrondo por dentro. Estou falando de balões na maior metrópole do país. Balões coloridos em Sampa, onde tudo, geralmente, é cinza. E no meio dos balões, muitas ideias e lembranças da menina que fui.

Tudo começou na cidade da minha infância. Havia dois desfiles cívicos anualmente. E meus pais, por tradição, sempre me levavam. Eu adorava o som dos instrumentos de percussão batendo forte dentro do meu coraçãozinho. Eu deveria ter quatro, cinco anos. Eu queria marchar e nem sabia o que isso significava. Nem sabia que quando crescesse, seria revolucionária e minha marcha seria sempre contrária. Mas o que mais me fascinava eram aquelas balões amarrados às mãos do vendedor. Eu ficava olhando, desconfiada, imaginando se ele, o vendedor de balões, não poderia flutuar junto com os balões a qualquer momento. Eu pensava: nunca me arriscaria assim. Este homem deve ser muito corajoso. Deve ter escondido um gancho que o prende ao chão. Enfim, achava, por demais, aquele serviço muito perigoso. E se aqueles balões o levassem para um lugar desconhecido, distante daqui, sem que ele quisesse?

http://www.youtube.com/watch?v=7el1dy5paxs

O drama maior, porém, acontecia quando, depois de ficar fascinada com o fato dos balões flutuarem, meu pai comprava algum para mim e amarrava-o em meu dedo. Eu, absorta, esquecia do desfile, de todo aquele barulho e da multidão. Meus olhos se fixavam apenas na minha bexiga cheia de gás hélio, flutuando acima das minhas ideias de criança curiosa.  Quando de repente, na distração da minha alegria, a linha devagar se soltava do meu dedinho. Será que é assim que perdemos um grande amor? Aquele nó não era suficiente para segurar o balão e eu, todas as vezes, voltava em prantos do desfile.

Depois da despedida, mantinha meus olhos fixos naquele balão que ia sumindo no céu. Eu viajava todas as vezes com ele. Ficava imaginando por onde ele iria passar. Que florestas iria sobrevoar e eu ali, no chão, no mísero chão, sem poder sair do lugar.

E por mais bobo que possa parecer, eu senti vontade de assistir ao genial “Up – Altas Aventuras” novamente. A expressão “espírito de aventura”, grafada no balão que nosso pequeno personagem segura enquanto sonha pelas calçadas do bairro onde vive, marca bem a vida que levo agora. Até que ele escuta vozes de alguém que sonha mais do que ele. Será isto possível? Alguém sonhar mais que eu? Seria divertido. Quando vai espiar, descobre uma menininha com o cabelo mais esquisito já visto nas redondezas. (Estranhamente me identifico). Então ela revela, gentilmente e, de forma inocente, seu sonho de desbravadora. O sonho que ela nunca conseguiu realizar. Mas Ellie é a alma gêmea de Carl, que mais tarde se torna sua esposa e isso garante todo o brilho ao enredo.

E apesar da frustração por nunca terem concretizado juntos o sonho, “Up – altas aventuras” conseguiu ser uma das mais lindas histórias de amor a que já assisti. Ela sempre atirada nos braços dele. E ele quase sempre assustado com os repentes dela. Realmente, ele foi surpreendido por um lindo e genuíno amor. E quantos homens têm esta sorte?

Eu não sei quantos balões ainda vou ter. Quantos ainda vou perder vendo-os escapar e voarem para longe de mim. Mas eu continuarei a perseguir sonhos. Acompanhada ou não, eu sou ainda aquela menininha descabelada que não tirava os olhos de céu. E até hoje me pego a imaginar onde estariam agora todos os balões perdidos. Não, eu não vou parar de sonhar. Em algum lugar estará meu paraíso perdido!

Um beijo, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

2 thoughts on “Um up para mim, um up para você

  1. Que texto lindo, Mô! Eu também me sentia assim, vendo o balão partir e eu no chão triste, triste, com uma lagrimazinha saindo no canto do olho. Obrigada por tanta doçura <3

  2. Cara, Mô,
    lembrei desse poema lendo sua crônica!
    TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. – Fernando Pessoa- meu preferido! bjos

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