O Menino e o Mundo

Quando estava em Barcelona, mais especificamente no museu de Miró, fiquei maravilhada com o encantamento de crianças diante de um de seus quadros. Deveriam ter uns seis ou sete anos, talvez cinco. Não sei qual é a idade do garoto, protagonista do longa de animação “O Menino e o Mundo”, mas acho que deve ter mais ou menos essa idade.

Ao assisti-lo algo me soava familiar. Achava que era porque meu namorado trabalhou nesse projeto. Mas, quando li uma crítica na Folha de S. Paulo explicando que o diretor do filme, Alê Abreu, se inspirou em Miró foi o momento que eu exclamei: “sabia que me fazia lembra de algo!”.

De qualquer maneira, o filme não tem nada de cópia, ao contrário, é artesanal, único e criativo. Dá para sentir as pinceladas, o lápis e até algo que parece um giz de cera. As cores estão lindas e é aí que me remete ao Miró e a sua poesia através das cores, formas e sensações. Aquela sofisticação de um artista que não esqueceu da simplicidade do olhar infantil. A trilha sonora do Emicida dá o tom da crítica à sociedade.

O roteiro olha o mundo o qual vivemos hoje sob o ponto de vista de uma criança. Uma cena que me “pegou” foi a do senhor que esconde sua doença para não perder o emprego. Entretanto, a tosse o denuncia. A “coisificação” do ser humano. A terceirização do trabalho que acaba transformando as pessoas em coisas. O importante é que se produza e, se a peça pifa, ela é substituída. Mesmo se a peça, no caso, é um ser humano. Nada de reclamar das condições do teu trabalho ou do teu salário, apenas fique feliz porque você está empregado. Afinal, “o combinado não sai caro”. Bom, desculpem-me ainda estou influenciada com um outro texto que estou escrevendo sobre o longa espanhol “Lunes al sol” e o curta argentino “O emprego” que será publicado em breve.

omeninocapaA ida do homem rural para a cidade em busca de uma vida melhor, a violência policial, a manifestação do Carnaval e a perca da inocência diante da dura realidade são abordados nessa animação que pode ser tanto para adultos, como para crianças. O homem-máquina já é uma fórmula velha que o Chaplin magistralmente o fez com seu maravilhoso “Tempos Modernos”. Aliás, “O Menino e o mundo” tem poucas falas e, quando há, é tudo ao contrário como fazíamos quando éramos crianças (ao menos eu). Bom, meu primeiro e-mail, nos primórdios da internet era “enaitat” e já estava na adolescência…

O filme “Pretty Woman” é uma clara inspiração da Cinderela: se a gata borralheira fosse uma prostituta?  Até hoje há muito marmanjo que chora quando o pai do “Rei Leão” morre. Existe mais gritante inspiração do que o filme de nosso querido Simba com o maravilhoso Shakespeare de Hamlet? Só que o objeto fruto da inspiração vai além e se torna algo novo e único. O genial Hakuna matata de Timão e Pumba já é um clássico. Esses coadjuvantes foram além e até série de animação viraram. Portanto, não é ruim que o roteiro remeta a algo já discutido e visto várias vezes. Porém, ao ser contado de maneiras distintas passa a ser inédito. As questões levantadas em  “O Menino e o Mundo” são atuais por mais velhas que elas sejam (infelizmente). A arte que esse filme transborda, a poesia das cores é o que faz essa animação algo que traz a sensação de novidade e leveza, como os quadros de Miró. Por quê? A arte desse filme trouxe as cores que sabemos combinar magistralmente só  quando somos crianças. Mas esquecemos dessa combinação quando crescemos.

“O menino e o mundo” conquista as crianças porque as cores são iguais ao do mundo infantil. Para nós, que já saímos há algum tempo da “terra do nunca”, essa animação nos faz lembrar daquela caixa de giz que ficou esquecida em algum lugar de nossa infância, mas que não significa que elas não estão mais dentro de nós.

O filme estreou em Ottawa, Canadá, e recebeu uma menção especial do júri. Em Havana, Cuba, ganhou o prêmio de melhor filme de animação. No Brasil, ganhou uma menção honrosa no Festival do Rio e o prêmio juventude na Mostra de Cinema de SP. A animação também será lançada  na França, nos Estados Unidos e no Canadá ainda este ano.

  • A Fundação Joan Miró é localizada no Parque de Montjuïc, em Barcelona, Espanha.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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