Uma carta de Theodore para Solomon

Ao postar uma carta nos correios, pensei nos selos que quando criança tentava adivinhar de onde viriam. Pensei também em todos os destinatários que se cruzaram no meu caminho e em mim enquanto remetente. Quantas notícias foram dadas e recebidas, quantas alforrias de tormentos concedidos?

Theodore (Joaquin Phoenix) é mais um dos habitantes de uma grande cidade em um futuro de tão próximo, me assusta.

Ele escreve cartas. Mas de uma maneira absolutamente inovadora de tão antiga. No tempo de Theodore, os sentimentos estão á venda como tudo o resto. Ele acompanha a vida de casais, famílias por anos e afeiçoa-se a eles de forma que possa escrever como escreveriam.

Instigante ver a letra manuscrita e à partida intransferível  aparecendo na tela do computador ao comando da voz de Theodore – também ele um sistema operacional. Sim, somos todos sistemas biológicos em operação. Alguns mais inertes do que outros, mas a tendência é o movimento.

Talvez por isso, a naturalidade com que recebeu e fez crescer a presença do ombro amigo tecnológico – a voz afável, inteligente e divertida de Samantha (Scarlett Johansson).

Curioso que ao escolher o sexo, a opção recaiu sobre o feminino. Justificativas há muitas, e a mais prosaica delas seja o fato de estar quebrado em um milhão de pedacinhos após uma separação que ainda permanece em suspenso. Sua amiga e confidente Amy (Amy Adams) com os seus pedacinhos também espalhados pelo chão, opta por uma voz feminina. Uma companheira invisível que poderá até partilhar o batom em frente ao espelho de um banheiro público.

São opções.

Para além das cartas que me emocionaram pelo simples fato de ser palavra escrita em um pedaço de papel antes ausente, sem vida, a potência auto-insuflada do querer viver de Samantha me contagia e ao deprimido Theodore. Maravilhosa a cena em que ele pergunta-lhe: “Você quer se divertir?” E passeiam pelo metrô (o que já por si só é uma aventura), descendo e subindo escadas, cruzando com desconhecidos como numa montanha-russa de solo.

Ela se deslumbra com a vida e nós procuramos dentro onde está o dispositivo que fará nossa bateria recarregar.

Ao escrever cartas, as melhores de seu escritório, Theodore alimenta, em meio a solidão desesperante da envidraçada cidade, os vínculos afetivos que nos mantém em sobrevida. Samantha delicia-se com a referência ao “dentinho torto” de uma das endereçadas – um detalhe captado pelo sensível Theodore (gosto do vermelho chiclete da sua jaqueta) em um das fotografias do casal apaixonado, cuja relação é imortalizada em carta.

ela2O Sistema Operacional, nome completo de Samanha é tão vibrante e obstinado que sistematiza as informações, compila as cartas e envia um original á uma editora que publica em livro o envolvimento de Theodore, ainda que indireto, afetivo-literário com almas humanas. “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.” dizia o poeta.

Assim como o amor, o detalhe pode salvar uma vida.

Lavrado por escrito, em plena tinta preta possuindo o espaço virgem e branco do papel, Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), foi declarado livre.

Um cidadão americano que tocava violino.

A música foi a isca para que humanos de intenção e índole duvidosa, o seqüestrassem. O convite para tocar num circo seria sim, um sinal de bem aventurança e alegria. Um sorriso tomou conta de seu rosto e distraído não viu a sombra que se aproximava.

Em 1841, as mãos de Solomon são presas e postas á serviço de material tão suave quanto a melodia musical que tocava em família – o algodão. Vendido como mercadoria, e durante doze anos, colheu em campos vastos e abertos, a fibra branca como pluma.

Para sobreviver nas trevas imposta pela crueldade, acessava o seu eu interno construído tijolo por tijolo, durante uma vida. Memórias que invadiam a sua alma cegando-o com permissão própria, para a realidade que de tão absurda não tem nome..

Solomon encontra nos detalhes a capacidade para sustentar a humanidade que, apesar de tudo, habita nele.

Como não se curvar em sinal de intenso respeito ao momento em que entalha na madeira do violino, os nomes da mulher e dos filhos? Aproxima-o da jugular e com eles, por momentos, pulsa. É sangue liberto pela música.

A cor violeta é o símbolo da transmutação. Talvez Solomon ao observar a tinta violácea desprendida das amoras e que misturava-se com a água, tenha tido uma intuição que a liberdade poderia estar naquele caminho. Naquelas frutas silvestres.

Detalhes que só uma alma limpa,como o algodão que colhia, pode ver.

Resolveu escrever uma carta com a tinta improvisada em um pedaço de papel, que assim como a sua liberdade, foi usurpada das compras do senhor.

Sem culpa. E como poderia haver nesse caso?

12anos2Um pouco de adaptação, assim como em tudo que há, e a história de um engano, um homem livre enclausurado na escravidão, foi sendo contada na folha de papel.

Ao postar uma carta nos correios, pensei nos selos que quando criança tentava adivinhar de onde viriam. Pensei também em todos os destinatários que se cruzaram no meu caminho e em mim enquanto remetente. Quantas notícias foram recebidas e dadas, quantas alforrias de dúvidas concedidas?

O envelope,depois de extraviado por mãos desonestas, encontrou o seu destinatário e a liberdade, como num último folgo de ar que avança pelas narinas com pressa, chegou para Solomon.

Theodore, por certo, gostaria de ter escrito essa carta.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

8 thoughts on “Uma carta de Theodore para Solomon

  1. Olá vivi.

    Lendo seu texto me fez ter um pouco de coragem para ver o 12 anos de escrevidão que eu parei em 38min, porque acho que é muito dramático, aí você tem de estar preparado.
    Gostei muito de como você uniu os dois filmes por cartas.
    Achei muito triste o Her, porque não me parece muito distante de nossos dias atuais, essa solidão generalizada e acompanhada somente de tecnologia realmente me assusta.
    Mas uma coisa me faz pensar, as pessoas não escrevem mais cartas, salvo algumas exceções. Eu por exemplo se tenho algo muito difícil de dizer à alguém escrevo uma carta. Acho mais fácil. Aí da pra falar tudo o que se quer e fazer refletir.

    Um grande beijo.

  2. Como sempre acontece, seu texto nos convida para ver ou rever os filmes comentados, sempre nos dando elementos novos que ampliam nossa reflexão .

  3. Nossa! Que texto lindo sobre a condição humana. Viviane, que ponte bacana você fez sobre esses dois filmes (“Ela” e “12 Anos de Escravidão”) tão importantes e propícios à reflexão. Ambos vem sendo, merecidamente, conhecidos e reconhecidos pelo público, mas que, principalmente, nos levem a rever como tratamos o próximo, como vivemos nossa vida. Enfim… duas belas lições de vida, retratadas nesse ótimo texto da minha coluna preferida desse site, o Godivas. Parabéns, Viviane e continue nos proporcionando textos tão brilhantes quanto esse.

  4. E pensar que ainda ontem comecei a assistir (online) o filme Her. Ele está em cartaz por aqui, mas a legenda em Espanhol ainda seria um problema. Quero terminar de assistir. Não conhecia 12 anos de solidão, mas me parece um baita drama, não? Preciso me preparar para filmes assim.
    Seu texto, mais uma vez, encantador.
    Assim que eu voltar, quero mais um daqueles cafés filosóficos! Bjkss.

  5. Ainda não assisti aos dois filmes, mas o farei em breve, com a sensibilidade mais aguçada por suas palavras. Muito obrigada!
    Uma frase que disse muito: Assim como o amor, o detalhe pode salvar uma vida.
    Acredito nisso!
    Beijos, muito obrigada por trazer detalhes que fazem toda a diferença…
    Fabi

  6. Ainda não assisti aos dois filmes, mas o farei em breve, com a sensibilidade mais aguçada por suas palavras. Muito obrigada!
    Uma frase que disse muito: Assim como o amor, o detalhe pode salvar uma vida.
    Acredito nisso!
    Beijos, muito obrigada por trazer detalhes que fazem toda a diferença…
    Fabi

  7. Querida Vivi, mais uma vez testemunho você emprestar a sua sensibilidade à arte (ou provavelmente é tão sensível porque tem sede de arte…).
    Você é uma ‘bordadeira’ caprichosa das palavras, seu artesanato literário encanta.
    ’12 anos de escravidão’ me tocou na alma e fiquei com uma questão na garganta: Como os meus antepassados sofreram para que eu chegasse até aqui tão livre?
    Chorar aliviou o engasgo…
    É preciso fôlego p/ resistir a tanto horror!
    Ela está na lista dos ‘preciso assistir’.
    De todo modo o seu texto só me instigou a vê-lo logo, antes que saia de cartaz.
    Parabéns pela bela sacada das cartas entre os personagens.
    Beijos inspiradores

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