O que ainda não foi dito sobre Ninfomaníaca Vol. 1, de Lars Von Trier + uma pequena nota sobre Ela, de Spike Jonze

Lars Von Trier utiliza todos os esquemas da linguagem publicitária a serviço de um tipo de simulação do distanciamento brechtiano, de uma redução, uma ampliação dentro de um esquema de manipulação típico dos grandes mistificadores da imagem cinematográfica.

A imagem nos filmes dele é utilizada como a fala em uma ópera: serve a um propósito encantatório. Digamos que ele usa ao mesmo tempo uma simulação de um didatismo típico dos filmes políticos-publicitários, mas dentro de uma chave de fábula ou alegoria.

É o que ocorre em “Ninfomaníaca Vol. 01”, em que a pesca é utilizada como parâmetro para o desejo erótico e é explicada didaticamente para que seja vista como uma metáfora da natureza perversa e esquemática dos amantes. Não estamos no terreno de um Bataille, mas próximos de uma aproximação entre uma ilustração fabulista de um jogo psicanalítico que imita a pulsação de uma novela voltariana dentro de uma peça didática de Bertold Brecht. L.V.T.  é capaz de criar um diálogo com um distanciamento que alcança o poético, mas faz um uso esquemático dele, como nos filmes de propaganda, como nos videoclipes, mas dentro de um contexto trágico

Seus filmes parecem nascer de pesquisas sobre temáticas típicas das agências de tendências. Ele é uma espécie de discípulo mais esperto de Tarkovski, que trocou a lentidão escultória do tempo pela lentidão onírico-publicitária de um longo e engenhoso videoclipe de uma tese. Fui ver o filme com uma grande amiga poeta e ela notou que o que L.V.T. quer dizer  neste “Ninfomaníaca Vol. 01” está dito de modo mais nítido e iluminador  em um dos capítulos do livro “A Dupla chama do amor e do erotismo”, de Octávio Paz

É óbvio que cineastas como L.V.T.  se vêem como pintores e romancistas, o que é ótimo, e tentam se aproximar da espiral de ideias que giram dentro de um romance onde as imagens estão interiorizadas. Nos filmes se dá o oposto e é raro que uma imagem pense, o que seria o ideal, assim o cinema (o de L.V.T., por exemplo) sairia da dimensão teatral ou televisivo-publicitária para a dimensão da poesia, dimensão que ele simula muito bem em seus filmes e este é um dos triunfos do cinema de Lars Von Trier: se utilizar dos meios e mecanismos publicitários do melodrama e da fábula para simular um poderoso poema imagético em camadas operísticas.

http://www.youtube.com/watch?v=7HW4UjB4wkY

Existe um problema hoje no cinema e ele se chama “a duração ou a tensão entre o tempo dos filmes e o tempo de apreensão da imagem como pensamento”. A meu ver, grandes filmes criam uma outra temporalidade e zonas de contemplação, como “Berlin Alexanderplatz”, de Fassbinder, um dos paradigmas para o cinema de L.V.T..

“Ninfomaníaca” parece ter sido pensado como um único filme de longa duração dividido em dois por questões puramente comerciais – o cinema é, em essência, um negócio e por isso está nas mãos dos empresários e banqueiros e não de artistas, das chamadas agências de cinema ou das produtoras televisivas, que são bancos de venda de imagens e conteúdos associados a valores do capitalismo, seja ele capitalismo de Estado (controlador  e pantanoso) ou de mercado, esquemático e aleatório ao mesmo tempo, embora tenha a aparência de um “ente abstrato-coletivo do determinismo”, a economia de mercado se comporta como uma religião meteorológica.

Bom, agora penetro no ponto que realmente me interessa neste artigo: Lars Von Trier, como Copolla em “O Poderoso Chefão” ou Peter Jackson em “O Senhor dos Anéis”, retornando ao lugar de “O Reino”. Sua série televisiva se insere mais do que nunca dentro do jogo publicitário, algo que Tarkovski também deve ter aprendido na escola de cinema e com o qual rompeu em função da pesquisa por um tempo pictórico para a imagem filmada. Lars Von Trier aqui faz como Tarantino que simula e dilui procedimentos de alguns filmes de Jean-Luc Godard e de Takashi Miike , simulando e diluindo de modo engenhoso procedimentos dos filmes de Andrei Tarkovski e Alexander Sokurov

É um caso raro em que a diluição (querendo ser decomposição) e diluição (querendo ser desconstrução) podem ir além dos originais, mas eu prefiro os originais. Tarkovski, se estivesse vivo, seria capaz de filmar uma verdadeira ópera silenciosa com imagens a partir de “Guerra e Paz” de Tolstoi – sonho com uma versão menos kitsch e mais fiel a uma boa tradução imagética do romance “Morte em Veneza”, de Mann por Sokurov. E gostaria imensamente que Lars se voltasse para este universo-fonte de imagens capazes de pensarem por si mesmas sem se reduzirem a uma defesa de tese.

Imaginem que filmar “Battaile” seria mais honesto do que essa tentativa de recriar a dimensão das tensões entre erotismo e amor contidas em um parágrafo de seu extraordinário “A história do olho”. Mas é óbvio que o projeto de criação de uma assinatura fílmico-romanesca de Lars Von Trier nega este tipo de projeto em detrimento de algo mais poderoso e muito mais difícil: ser para o cinema o que Bertold Brecht foi para o teatro utilizando para isso “a linguagem do inimigo”, ou seja, a linguagem publicitária. Gostei muito de “Ninfomaníaca Vol. 01”, mas em minha opinião François Ozon em “Jovem e Bela” foi mais longe, sendo mais delicado, sutil  e perspicaz no modo como aborda o esvaziamento do desejo e o questionamento pelo sentido do amor no mundo contemporâneo. Aguardemos “Ninfomaníaca Vol. 02”.

elaposter****

“Ela”, de Spike Jonze, é um ensaio sobre a solidão e sobre a imanência, como em “Blade Runner”, de Ridley Scott, aqui existe uma projeção de uma humanidade profunda em uma máquina, mas o que importa mesmo no filme é sua proximidade com nossa vida cotidiana, proximidade de milímetros. Não deixem de ver este filme!

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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