No: Um retratado das ditaduras pós-guerra

A vitória dos Aliados, na Segunda Guerra Mundial, cessou as batalhas reais daquele período, onde se disputavam os campos, os ares e os mares num embate frente a frente, visceral.

Mas o fim das “batalhas reais”, simplifiquemos e sintetizemos assim, com a vitória dos Aliados (formados principalmente pelos Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra) sobre o Eixo (Alemanha, Itália e Japão) desencadeou uma nova guerra, agora política, onde seriam divididos países e povos sob um novo conceito de guerra de modelos/sistemas econômicos: capitalistas ou socialistas.

Neste novo embate, Estados Unidos e União Soviética brigavam para expandir os seus sistemas econômicos e políticos e, consequentemente, ampliar seus territórios e seus poderes no mapa geopolítico.

Depois das disputas sobre os países europeus, foco da Segunda Guerra, os desdobramentos desta “guerra silenciosa” atingiram os ares, as terras, os mares e os lares latino-americanos com intensidade na década de 60, quando os Estados Unidos; no sentido de coibir qualquer iniciativa de se formarem novos países sob a regime socialista, financiou ditaduras militares numa imensa e complexa operação denominada “Condor”.

O Chile, país onde se passa a história do filme “No”, foi um dos na América Latina em que os Estados Unidos fez ascender, em 1973, os militares ao poder. E que se mantiveram por meio de repressão sangrenta do povo que buscava a liberdade e a democracia. Poder que fez calar as insatisfações com os recursos de torturas, jatos de água, cassetetes e inúmeras mortes.

Depois de 15 anos de ditadura militar, em 1988, com o Chile apresentando uma das maiores dívidas per capita da América Latina, a favelização crescente e revolta diante de tanta violência, o povo saiu às ruas para cobrar a retomada da liberdade.

Diante de tanta pressão, o General Augusto Pinochet, propõe um plesbicito, que decidiria pela manutenção do regime ditatorial nos próximos oito anos, ao votar em SIM; ou pela democratização do país, dizendo NO à ditadura, determinando prazo de um ano para que os militares deixassem o poder.

O filme condensa um período dos 27 dias em que a ditadura estabeleceu para a campanha do plebiscito, que seria exibida, por 15 minutos em rede nacional da TV.

Com poucos recursos e sem a máquina estatal, os intelectuais de esquerda procuraram uma agência publicitária e depararam-se com René Saavedra (Gael García Bernal), um jovem acostumado a realizar comerciais de refrigerantes.

A trama se desenvolve entre os conflitos da intelectualidade da esquerda, que buscava a melhor forma de passar os seus conceitos socialistas em formato publicitário, porém, com uma uma barreira a mais: a falta de consciência do jovem Saavedra.

Larraín consegue equilibrar o filme em diversos pontos, não o tornando meramente documental sobre o plebiscito de 88 no Chile. Distribuiu o peso do fato histórico, em seu sentido macro, para questões micro, relativas à comunicação e as aflições individuais dos personagens.

Do ângulo particular, Larraín promove cenas que nos fazem questionar o discurso da esquerda, a dificuldade e até mesmo intransigência envolta em meio a tantos conceitos por um mundo melhor. Conceitos que nem sempre o povo, a massa, poderia compreender se não comunicada de forma a se entender.

A massa despolitizada é metonímia fílmica no personagem publicitário Saavedra, que além de não ter consciência ou não se interessar sobre o que o país vem passando, tem o olhar educado para o consumo, para o lucro do Capital, o gera conflitos e vazios em seu processo criativo das peças publicitárias para a votação ao NÃO, frente ao sistema militar.

Numa relação dialética, entre opostos e complementares ao mesmo tempo, a intelectualidade e o publicitário Saavedra colocam em discussão algo bem mais amplo, que é: como comunicar/transmitir às massas, conceitos, valores, teses, sem distorcer ou reduzir o conteúdo? Como equilibrar os conceitos sociais e democráticos, sua importância, em uma linguagem acessível a todos sem tornar o socialismo em mais uma mercadoria do capitalismo?

Tanto os intelectuais de esquerda quanto Saavedra tiveram que rever os seus conceitos (do ponto de vista da comunicação), ajustá-los de forma a passar a mensagem a favor da volta do regime democrático, sem ser superficial como uma propaganda de refrigerante.

Ao pesquisar os materiais para as peças, Saavedra começa a compreender a realidade que o povo chileno estava sofrendo com a repressão proveniente da ditadura.

A campanha que produzia também  o transformava. Saavedra já não era mais o mesmo depois daquele contato com os militantes e diante de tudo o que via de terror imposto pelo sistema ditatorial.

Em meio aos conflitos teóricos e existenciais, o diretor Larraín mostrou todas as artimanhas do regime ditatorial, que boicotava, investigava, ameaça todos os envolvidos na campanha pelo fim do sistema.

Entre idas e vindas, protestos, repressões, ameaças, crise familiar, infiltrados e tudo o mais que o aparato militar poderia proporcionar, os militantes de esquerda suportaram a pressão.

Chegara o dia 5 de outubro de 1988, quando o povo Chileno decidiria pelo SIM ao regime militar, ou NO, pela volta de democracia.

O filme não é a história de uma simples campanha com apelos históricos. Amplo, retrata ao ditadura no Chile, mas é um despertar de consciência.

“No” é filme quase que obrigatório para os profissionais de comunicação, que diante de tanta diversidade de plataformas e conteúdos, vem tendo que se reinventar para manter a comunicação atrativa, eficiente,  inserida em um mundo globalizado, digital, informatizado e, ao mesmo tempo, cada vez mais vazio de si.

Coloca-nos a pensar: Como equilibrar forma e conteúdo na hora de se comunicar com os trabalhadores? Como conseguir conscientizar, falar sobre as relações entre Capital e Trabalho num mundo em que as pessoas, quando leem, não ultrapassam 140 caracteres?

“No” se apresenta como uma grande interrogação para os meios de comunicação sindical. Ao mesmo tempo, um grande ponto de partida para buscarmos o ponto de equilíbrio entre estabelecer uma comunicação que se compreenda, sem que seja simplista e vazia.

nocartazPrêmios e indicações – O filme foi indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro no Oscar 2013. Também venceu o Prêmio Júri Popular da 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2012.

Curiosidades – “No” é baseado na peça inédita “El Plebiscito de Antonio Skármeta” também  estrelado por Gael García Bernal.

“No” é um filme chileno de 2012 dirigido por Pablo Larraín, escrito por Pedro Peirano,

No (Chile, 2010). Diretor: Pablo Larraín. Elenco: Gael García Bernal (René Saavedra), Alfredo Castro (Lucho Guzmán), Antonia Zegers (Verónica Carvajal), Luis Gnecco (José Tomás Urrutia), Marcial Tagle (Costa), Néstor Cantillana (Fernando Arancibia), Jaime Vadell (Ministro Fernández), Pascal Montero (Simón)

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso

Ricardo Flaitt (Alemão) é colunista do Cinezen Cultural, historiador e assessor de imprensa do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos. Autor do livro “O Domesticador de Silêncios”. Contato: ricardoflaitt@hotmail.com

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