Qual o nome do filme?

Cada um ao nascer, traz sua dose de amor.

                              Mas os empregos, o dinheiro, tudo isso, nos resseca o solo do coração.

Vladimir Maiakovski

Não, não se trata da famosa brincadeira de adivinhação ou daquelas piadas rápidas. Realmente eu queria saber o nome de dois filmes que se perderam no tempo da minha memória. E esta crônica está mais para serviço de utilidade pública do que qualquer outra coisa. Acontece que alguns filmes, aos quais assisti ao longo da vida, grudaram na cabeça sem ao menos eu lembrar o nome deles. E isso me atormenta dia e noite. Alguém poderia me ajudar?

Talvez eu nunca venha saber o nome deles. Talvez eu os reencontre em alguma madrugada destas. Mas, por obséquio, alguém poderia me ajudar agora? Vocês me acharão mais louca do que já me permitir mostrar?

Bem, é caso de utilidade pública, considerem. Todos aqui já sabem que filmes têm o poder de nos significar. E eu sou campeã em outorga-lhes esta missão.

Bem, um dos filmes que me atormentam surgiu diante das minhas retinas numa daquelas madrugadas despertas. Eu trocava de canais e acabei me deparando com uma sequência de cenas que me fisgou. Um homem de meia idade, aparentemente morando na Inglaterra, gostava de cantar. No entanto, sua voz não era das melhores. Ele tinha uma atividade secular que, claro, não o satisfazia como pessoa. Era de alguma forma, criticado pelas pessoas que o cercavam, mas ele tinha um pequeno grupo de amigos frequentadores de um pub, que gostavam dele. Detalhe: seus amigos estavam quase sempre bêbados. Numa dessas noites, regados a muita bebida, ele olha para o alto e começa a falar dos sonhos. Na cena, o telhado do lugar onde eles estão é mostrado, assim como o céu sobre suas cabeças. (Não tenho certeza se neste momento uma estrela cadente aparece). Então, ele mira os olhos para o alto e diz que, independente de sua arte dar certo, ele continuaria sonhando com isso porque cantar era como tocar as estrelas.

Esta cena e esta fala flutuam, feito nuvem, dentro de mim até hoje. Naquele momento, eu apertei o botãozinho do controle remoto para voltar, para ver a cena outras mil vezes, mas foi em vão. A cena que tanto me significou passou sem me conceder reprise. Assim como tantas outras cenas da vida que nos significam a ponto de nos traduzir. Nessas horas, a gente quer parar e mostrar para os outros: “Olha, é exatamente isso que eu sinto!” Mas o tempo, feito um trem, chega e nos leva para outra estação.

Ele era um sonhador incompreendido. Mas um sonhador localizado e inteiro dentro deste sonho mais real do que sua própria realidade. Dada a situação em que eu estava vivendo na época em que fui presenteada com esta cena, ela se fez tanto mais importante para mim a ponto de fazer este apelo. Talvez pela ideia guardada nela, que coaduna com as palavras de Mário Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… ora!/ Não é motivo para não querê-las…/ Que tristes os caminhos, se não fora/ A presença distante das estrelas!”

Outro filme que povoa minhas lembranças nebulosas e que também me atiça a curiosidade em saber seu nome trata de um professor que se apaixona pela sua aluna. Eles conversam bastante e o mundo retratado no filme não é tão politicamente correto como agora.

O casal se envolve, porém, uma série de conflitos permeia a relação. É recíproco o que sentem um pelo outro, mas há confusão na comunicação de ambos, como também haverá possível estranhamento da sociedade se o caso vier à tona. O professor é bem mais velho que ela, mas extremamente passional.

Em uma das cenas de desenlace, ele pega uma cadeira, num ato de desespero pela sensação diante da constatação do naufrágio do amor, e amarra uma corda em uma das vigas da casa. Sobe na cadeira e posiciona a cabeça na corda pronta para o enforcamento. Quanto olha pela vidraça, vê sua amada se aproximando, com um semblante de saudade e iminente retorno a seus braços. Neste momento, numa das cenas mais irônicas da sétima arte, seu cachorro vem correndo e derruba a cadeira onde estavam apoiados seus pés. O olhar do professor antevendo a morte justamente na hora em que a solução para os conflitos de seu coração estavam a caminho, ficou congelada na minha memória e, acredito na de quem assistiu à cena.

Foi um dos finais mais bestas de filme a que pude assistir. Mas a vida é besta, como já dizia Drummond em “Cidadezinha qualquer”.

Bem, aqui termino, meus amigos, com esperança de que possam me ajudar os cinéfilos de plantão a encontrar o nome dos filmes acima descritos. Desejo ainda que minha angústia aguce a curiosidade dos leitores que não tiveram o prazer de ver estas películas, pois tenho certeza de que se trata de duas obras fascinantes desta tela mágica que se chama cinema!

Um beijo e aguardo ansiosa pelo resultado deste meu humilde apelo!

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

One thought on “Qual o nome do filme?

  1. Não vi nenhum dos dois, Mô. Gostei de sua descrição bem cinematográfica.

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