A Menina que Roubava Livros: Papel machê

Há filmes que precisam de tempo para se acomodarem em nós. Sabe aquela poeira que faz embranquecer os nossos sapatos quando passamos perto de uma obra em construção? Continuamos caminhando seguindo o nosso destino até que o branco se sacuda de nós.

“A Menina Que Roubava Livros”, uma adaptação do romance de Markus Zusak, lembra-me dessa poeira, ou dos flocos de neve que inundam a tela no primeiro momento em que a Morte fala conosco.

Liesel, a mãe e o irmão menor viajam num trem, mas para o menino, a próxima paragem será eterna. A Morte interessa-se pela menina e ela pelos livros.

Com dez anos, não sabe ler, mas carrega como um amuleto o livro que ficou, como espólio, do enterro do irmão.

Um casal a adota por dinheiro, mas o pai, quer também afeto e estabelece com Liesel uma relação de amor as palavras. Alfabetiza-a com o “Manual do Coveiro”, o livro amuleto, e oferta-lhe um dicionário gigante pintado a tinta e giz na parede de uma cave que pouco tempo depois albergará o jovem Max, um judeu que luta contra a fogueira insana da presença hitleriana.

Livros foram queimados em praça pública e Liesel, como uma bombeira, resgata um. As fagulhas ainda estão acesas, como as palavras que guardamos do que lemos. A fumaça do papel queimado trespassa o casaco dela e se mistura com o nevoeiro frio e baixo.

Max  beberá como soro que hidrata, as palavras dos livros que Liesel roubará da biblioteca do prefeito.

Praticamente inconsciente, com a saúde debilitada, ele absorve a vida que vem como num canudinho: palavras que iam se transformando em imagens, post its de várias cores que são afixadas na memória.

A Literatura salvou a vida de Max, assim como a de muitos de nós.

Foragido, está na penumbra e pede a Liesel que lhe conte como está o tempo. Ele vê o sol com o som que sai da boca da menina.

Entre bombas e estilhaços, os habitantes da Rua Paraíso, se protegem num abrigo antiaéreo. Liesel está lá e tenta driblar o perfume da Morte contando uma história.

Na audiência, ela ronda o ambiente e paira atenta no ar para ouvi-la.

“Os seres humanos me assombram”, afirma a Morte. Entendo-a e prossegue: “O ser humano é contraditório. Um punhado de bem, um punhado de mal. É só misturar com água.”

Papel Machê.

Lembro de Papel Machê.

Uma massa feita com papel picado embebido na água, coado e depois misturado com cola e gesso.

A Literatura transforma. Abre espaços, cava caminhos subterrâneos. Como o que Max ofereceu, em agradecimento a Liesel por sua dedicação.

Com cola branca, apagou uma história já registrada em letra preta impressa para que ela escrevesse a sua própria narrativa. Um livro pronto para ser escrito, uma morte que torna a nascer “violeta e azul”, como canta João Bosco em seu “Papel Machê”.

A Morte molda o papel picado de nossas vidas, mistura com a cola do tempo e cria uma nova figura.

De que cor?

A Morte pergunta: “qual será a cor de tudo nesse momento em que eu chegar para buscar você? Que dirá o céu?”

Pergunta que tem tempo único para ser respondida. Nem um minuto mais.

Enquanto isso, nos resta viver.

E ler.

Sobretudo.

Estreia no Brasil: 31/01/2014.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

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