O Gigante e a menininha

“Sou pequenininha do tamanho de um botão, carrego papai no bolso e mamãe no coração. O bolso furou, papai caiu, coração fechou e mamãe ficou…”, essa era a adaptação caseira feita pela minha mãe do famoso poema infantil. Por alguma razão, meu pai não gostava quando eu recitava. Era uma época gostosa onde não entendia muito sobre a vida.

Nunca acreditei em papai noel. Tinha uma amiga que defendia a existência dele com unhas e dentes. Depois de longas discussões, ela encerrava o assunto com a frase: “Meu pai diz que o papai noel existe e escrevo cartas todos os anos. Meu pai nunca mente para mim!”.

Anos depois, nós duas estávamos vendo o filme “Milagre da Rua 34”, no Cine Iporanga, em uma promoção para os alunos do curso de inglês que fazíamos. Tínhamos uns 12 anos. Estávamos naquele limbo entre a infância e adolescência. Havia me identificado com a personagem da menininha que não acreditava em papai noel. Confesso que uma dúvida pintou nos meus devaneios de criança-adolescente. Fora apenas um segundo, aquele em que a imaginação é mais forte que a razão. “E se ele existisse?”.

Quando vi pela primeira vez o curta-metragem, “O Gigante”, não teve como não lembrar do poeminha decorado em algum lugar do passado e sentir um nó na garganta ao lembrar do meu pai. Os dez minutos em que ele dura estende aquele segundo em que a imaginação é mais forte que a razão.

Fico feliz de uma animação que toca a alma está entre os escolhidos ao Goya (Oscar espanhol) para curta-metragem em animação. A história é de um gigante que leva a filha dentro de seu coração. Ele é uma co-produção entre Espanha, Brasil, Portugal e Reino Unido. O argumento é de Nélia Cruz, a partir de uma ideia de Júlio Vanzeler.   É uma bela história sobre pais e filhos. O vi pela primeira vez por causa da produtora executiva Chelo Loureiro, que foi minha professora e depois repeti a dose em sua casa em Ferrol em um bate-papo sobre animação.

A analogia desse curta me faz sempre lembrar a canção do Toquinho que meu pai cantava para mim quando criança. O sentimento transmitido desse curta de animação é o mesmo que os brasileríssimos  Vinícius de Moraes e Toquinho escreveram na canção “Menininha”.

E na simplicidade de ainda olhar a vida como criança, levava ao pé da letra o que me cantavam (sempre fui baixinha e invocada). Ficava brava quando meu pai cantarolava “menininha não cresça mais não fique pequenininha na minha canção”. Hoje, me pego rindo sozinha e admitindo que cada palavra dessa letra do poetinha estava certa, pois na vida há muitos “bichos-papões”.

Hoje me lembro de outra música que também tinha naquele vinil azul com capa dos bichos da Arca de Noé:  “dorme meu pai sem cuidado, dorme que ao entardecer…Tua filha sonha acordada, com o filho que ela quer ter”.

Santista, atualmente, mora na Espanha onde fez um mestrado em produção e gestão audiovisual. Pós-graduada em Política e Relações Internacionais, é repórter freelancer da Revista BiodieselBR. Trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo (2004-2011), fez reportagens para as revistas Exame, Casa & Mercado, Revista Young e Docol. Publicou textos no Jornal da Tarde e no site Terra. Exerceu o cargo de analista de Mídia e Redes Sociais e de Relações com a Mídia no Grupo Máquina PR (2012). Porém, precisou ir para o outro lado do Oceano Atlântico para redescobrir o audiovisual. Entre 1999 e 2002, foi estagiária da Santa Cecília TV e fez um curta-metragem para a Oficinas Kinoforum em 2003. Quando desembarcou na terra do D.Quixote pensava que iria se dedicar somente aos documentários, mas descobriu uma outra paixão: a animação. Já produziu dois “filhos”, ops, trabalhos nessa área como roterista e produtora executiva. E já está com um terceiro “filho” a caminho. Aprendeu que o melhor da vida é surpreender-se com novas culturas, lugares e até consigo mesma.

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