Amarcord

Dizem que, na hora da morte, numa fração exageradamente ínfima de segundos, passa um filme na cabeça de quem morre. Dizem que nesse filme constam as cenas mais importantes para aquela pessoa. Numa divagação pouco provável, atrevo-me a pensar se tais cenas fossem publicadas, refletidas em nuvens enquanto a alma sobe aos céus. Talvez, decepcionados ficariam os parentes mais próximos ao perceber que não foram deles que o novo morador celestial mais se lembrou na hora da partida. Por exemplo, uma mãe, daquelas passionais, iria ficar em choque ao ver que dentre as cenas mais marcantes no filme da vida do filho estivesse, por exemplo, sua primeira transa, o gol que ele marcou no colégio numa final de interclasses, o mergulho nu depois de um porre, o charuto que distribuiu aos amigos quando nasceu o filho, o beijo proibido atrás da igreja, a última ereção, a mulher por quem chorou e nunca ninguém soube. Ela ficaria em prantos, ao perceber que não estava presente como protagonista em nenhuma cena escolhida inconscientemente pelo filho.

Talvez, as cenas em questão não guardem propriamente sensações, mas as pessoas que as causaram. Uma mulher bem velha uma vez me disse que na hora da morte, a pessoa balbucia o nome de quem amou de verdade.

Há algumas cenas que povoam o filme íntimo da minha memória. Das publicáveis, uma das mais remotas lembranças que me invade foi quando ganhei do meu pai um jogo de xícaras de plástico transparente, devidamente embalado em uma bandeja. Vinha com bule, pires e todas as peças eram miudinhas. Até hoje adoro miniaturas. Lembro-me que eu tinha por volta de quatro anos e ainda dormia no berço. Ele chegou, abriu o mosqueteiro e colocou o presente ali, do meu lado enquanto eu sonhava. Mas o mais lindo, é que eu estava sonhando exatamente  com aquele joguinho de xícaras e quando acordei, ele estava ali. Foi um momento de alegria inexplicável. Guardo em mim este flashback cheio de delicadezas e tantos outros.

E no fluxo desta ideia, eu fiquei pensando nas cenas mais lindas de cinema. Fui garimpando na memória, e logo me veio o longa francês “Un homme et une femme”, filme do diretor Claude Lelouch. A música, os gestos, tudo me atrai nesta película. A cena a que me refiro é de uma despedida. Daquelas cortantes. Simplesmente, fazendo o que tem de ser feito: pegar o telefone, fechar a conta do hotel e conferir o próximo trem para Paris. Esse negócio de fazer o que tem de ser feito numa despedida é o mais cruel. Agir como se nada estivesse acontecendo, como se aquela despedida fosse normal, como qualquer outra. Mas na verdade, o que acontece é um ‘tchau’ prolongado, querendo que o ser amado não se vá. O filme é recheado da recusa de diálogo, ou seja, os amantes, torturados por suas bagagens emocionais, falam sobre tudo, menos sobre seus fantasmas. Menos sobre o iminente amor. A história por trás da cena é de partir o coração em mil pedacinhos por causa da inflexibilidade do casal.

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Outra cena de tirar o fôlego acontece em “Amarcord”, de Federico Fellini. Tomados por uma neblina, as personagens começam a dançar. É mágico. Inesperado. Leve, porém potente. Num misto de lirismo e caricaturas, “Amarcord”, que no dialeto romagnolo significa “Eu me recordo”, arrebata a alma com cenas oníricas, tão próprias de Fellini. Enquanto um rapaz dança, sussurra em meio à neblina: “Dove sei, amore mio?” imaginando-a nos braços. Lindo de ver.

Há muito que se falar de cenas belas no cinema. Cada um coleciona a sua lista. Assim como cada um terá sua seleção de cenas a ser rememorada nos segundos finais deste grande filme que se chama vida.

Quanto a mim, eu ainda tenho uma lista infinda guardada comigo. Mas para pausar esta conversa (que pode continuar em outro momento), não há como se esquecer de “As Pontes de Madison” (foto acima) em que a bela personagem de Meryl Streep está com a mão posta sobre a maçaneta da caminhonete quando avista a última chance de fugir com Robert, fotógrafo da revista National Geographic, interpretado por Clint Eastwood. Chove muito. O semáforo fecha. Ai, que cena! O coração gela. A gente torce para ela ir e ela não vai. Eu ainda dei pause e voltei mil vezes para ver se em alguma cena ela deixaria todo aquele medo e fugiria com ele. Frustrou-me. Sorte, meus queridos, é de quem tem coragem para o amor. Pois, como disse alguém em algum filme desses por aí: pecado é não amar!

Um beijo, Mô Amorim.

Moça de família quase boa que presta atenção no comportamento de estátuas, pombas e transeuntes. Formada em Letras, cultiva certa dor pelos livros que ainda não leu. Publicou em 2010, pela Editora Adonis, o livro "A nuvem vermelha", e escreve, como se fosse remunerada de raios de sol, poemas e crônicas para o blog “Estripitize-se!”, o qual mantém desde 2007.

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