Entrevista | Andrea Pasquini prepara filme sobre o Angra

A cineasta paulistana Andrea Pasquini mantém uma relação estreita com Santos. Frequentemente está na cidade para ministrar alguma oficina, aula, etc. Nesta quinta-feira, 23, ela volta ao município para participar da Mostra Cine Brasil Cidadania: a partir das 19h30, na sala 1 do Sesc Santos, quando será exibido o documentário “Os Melhores Anos de Nossas Vidas” (2003). Logo após a sessão, a diretora baterá um papo com o público, mediado pela cineasta santista Raquel Pellegrini. O filme acompanha de maneira sensível as vidas de pessoas portadoras de hanseníase no Sanatório Santo Ângelo, de Mogi das Cruzes. Elogiado pela crítica, foi premiado no Festival É Tudo Verdade, principal do gênero documentário no país.

Pois bem. Mais de 10 anos se passaram de “Os Melhoras Anos…” e Andrea realizou vários outros trabalhos, entre eles “Fiel”, que aborda a visão dos torcedores a respeito da queda e ascensão do Corinthians no Campeonato Brasileiro. E agora prepara “Notas Sobre o Tempo”, reflexão sobre a passagem do tempo a partir das histórias dos integrantes do Angra, banda de heavy metal mais importante do país. Foi sobre este trabalho que conversamos com a diretora. A seguir, saiba como surgiu a ideia do longa, o recorte que o filme terá, a dinâmica de filmagens – que teve equipe bem enxuta – e o que podemos esperar do projeto. Afinal, são 160 horas de material e a expectativa é que o documentário seja lançado no É Tudo Verdade 2015.

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Como surgiu a ideia de fazer um documentário sobre o Angra?
Conheci a banda durante a gravação do álbum “Acqua”, em 2010. Na época eles pensavam em produzir algum material audiovisual para encartar no disco e a Ana Duffey, minha amiga e sócia do estúdio onde o álbum era gravado, me procurou.   Marcamos uma reunião e eu fui encontrá-los lembrando de quando ouvi falar pela primeira vez do Angra, 20 anos atrás. O vídeo para o CD não deu certo, mas eu fiquei com muita vontade de acompanhar a banda por um tempo e entender a química que mantém um grupo reunido por duas décadas.

Ao longo de três meses nos encontramos periodicamente para conversar, assisti alguns shows observando a relação entre os integrantes no palco e fora dele e

assim fui descobrindo um universo muito rico a ser explorado num documentário: a dinâmica dos relacionamentos durante a passagem do tempo.

O que esse documentário abordará? Não será exatamente uma história da banda, certo?
O Angra tem um história incrível, é a maior banda de heavy metal no Brasil e desde que lançou seu primeiro disco, em 1993, conquistou além daqui, fãs apaixonados no Japão, Europa e América Latina. Mesmo com uma carreira consagrada, o que mais me atraiu para fazer o filme não foi a biografia da banda. O que me atraiu foi o contraste entre o glamour do palco (e a mítica do sexo, drogas e rock’n’roll) e a realidade fora dele. Por esse motivo não considero “Notas Sobre o Tempo” uma biografia estritamente. A história da banda está presente, assim como sua música, mas o foco do filme são as histórias pessoais de cada um dos cinco integrantes do Angra.

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Numa sociedade ávida  por  modismos  onde  tudo  é  descartável,  como resistir e carregar uma história em comum por tantos anos?  Quem são hoje esses homens?  E voltando no tempo, quem eles eram no início da banda, com 20 anos de idade e um sucesso estrondoso e repentino?  Quais ambições e sonhos eles realmente tinham ao entrar no estúdio pela primeira vez e o que mudou ao longo dessas duas décadas de convivência? Que marcas ficaram? Encontros, separações, família…  Como  lidar  com  a  passagem do tempo estando sobre o palco fazendo música para fãs tão jovens? Foram esses questionamentos sobre os caminhos que escolhemos na vida, que nos tomam quando os 40 anos de idade chegam, que definiram o recorte de “Notas Sobre o Tempo”.

Quando começamos o documentário três anos atrás, eu não imaginava o quanto esse período seria intenso e definidor para a banda e em especial para seus integrantes. Em 2011 o Angra completou 20 anos de estrada e a celebração da data se deu em meio a uma forte crise acompanhada de perto pelos fãs e pelo filme e os questionamentos que motivaram “Notas Sobre o Tempo” foram sendo levantados pelos próprios personagens espontaneamente. Na estrada pelo Brasil, França, Argentina, Chile e Japão, o filme foi se revelando.

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Como tem sido a dinâmica da produção e das filmagens?
“Notas Sobre o Tempo” é um filme feito muito na raça – como se algum filme não fosse feito assim (risos). A ideia do documentário surgiu junto com minha parceira e sócia no projeto, Ana Duffey. A nós se juntou a produtora Black Lab e a diretora de fotografia Masi Torres. E assim começou nossa aventura.

Como a banda estava em plena fase de lançamento do “Acqua”, primeiro álbum depois de três anos sem gravar, eu precisava começar o filme imediatamente para garantir o registro no momento exato dos acontecimentos (a linguagem do cinema direto é parte das referências do documentário). Então nos lançamos na estrada antes mesmo do filme ter sido aprovado para captação e isso implicou numa adaptação do estilo de produção a que estava habituada. Eu não teria uma equipe. A equipe seria eu e a Masi. E isso foi assustador. E libertador. Com exceção de quatro shows no Brasil, quando tive uma equipe maior, durante três anos, formamos Masi e eu, uma dupla de cineastas viajando com uma banda de heavy metal. A Masi, diretora de fotografia, cuidava das imagens, enquanto eu fazia o som direto – e a gente se dividia entre filmar a banda, fazer nosso check-in nos aeroportos, pedir autorização para gravar no lobby de algum hotel e claro, carregar nossos equipamentos por toda a parte (risos).

E foi justamente essa maneira menos formal de produção, com a qual eu não estava acostumada, que me encantou. O filme imprimiu a urgência que tínhamos em registrar os eventos e muitas vezes fomos surpreendidas por situações que nos obrigaram a encontrar alternativas muito rapidamente. Entender que filme estávamos fazendo foi fundamental para nos mantermos no caminho.

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Há vários documentários sobre rock que marcaram a história. Você procurou assistir alguns para fazer este novo projeto?
Sim! Na verdade usei alguns desses filmes para entender como a banda se relacionaria com o documentário. Eu precisava ter certeza de que teríamos portas abertas sempre, mesmo em momentos de crise, para não correr o risco de fazer um filme chapa branca. Eu não estava interessada no glamour, na imagem da estrela do rock; eu buscava o homem comum por trás da personagem que cada um incorpora dentro do grupo. E para isso era fundamental que eles entendessem quais minhas intenções com o filme e confiassem em mim.

Uma alternativa que encontrei foi assistir alguns documentários junto com eles e ir apontando situações semelhantes que poderíamos enfrentar no processo do nosso filme. As reações de cada um, inclusive um certo desconforto causado por algumas passagens dos filmes que vimos, foram elementos muito valiosos para compreensão de como iríamos estabelecer nossa relação.

Dentre os vários filmes que assistimos, três foram muito provocativos para a banda: “Don’t Look Back”, de D.A. Pennebaker (1967), “Anvil! The Story of Anvil”, de Sacha Gervasi (2008), e “Some Kind of Monster”, de Joe Berlinger e Bruce Sinofsky (2004).

Foto: Gui FonsecaE como fazer para imprimir um olhar seu no filme? Será um documentário de autor? Podemos chamar assim?
Creio que todo documentário construído a partir das impressões e do recorte pessoal do realizador, é um filme de autor. No caso de “Notas Sobre o Tempo”, o tema principal que alinhava a narrativa – a passagem do tempo, as decisões que tomamos e suas implicações – foi motivado por questionamentos muito pessoais e que reverberaram no filme. Além disso, ao  longo de três anos, à medida que eu me aproximava mais dos personagens, também fui me aproximando mais do filme, deixando de ser uma observadora distante para assumidamente participar das situações. Então quando penso no documentário, me vejo invariavelmente misturada a ele. Se isso é bom ou não, a reveladora sala de montagem vai me contar, espero que em breve.

Ficha técnica – Notas Sobre o Tempo
Direção – Andrea Pasquini
Direção de fotografia – Masi Torres
Som direto – Andrea Pasquini
Produção executiva – Ana Duffey, Andrea Pasquini e Paula Rossi
Produção – Black Lab, com Cinesolar Filmes e Jambeiro Filmes

André Azenha
Jornalista, crítico de cinema, produtor cultural, assessor de imprensa. Criou o CineZen em 2009. Escreve uma coluna semanal, aos sábados, para o jornal Expresso Popular, colabora semanalmente com a Rádio Santos FM. Escreveu entre 2012 e 2017 para o blog Espaço de Cinema no G1 Santos. Criador e coordenador do Santos Film Fest, CulturalMente Santista - Fórum Cultural de Santos, Nerd Cine Fest. Em 2016 publicou o livro "Histórias: Batman e Superman no Cinema". Já colaborou com sites, revistas e jornais de diversas partes do país. Realizou 102 sessões de um projeto de cinema itinerante, em Santos. Mestrando em Comunicação pela Universidade Anhembi Morumbi.

3 thoughts on “Entrevista | Andrea Pasquini prepara filme sobre o Angra

  1. Só falta saber se o Andre Matos aprovou isso, porque se não lá vem mais um processo! Tirando isso, a ideia é ótima para os fãs quanto para banda, que nesse momento está numa fase boa.

  2. Bom, se Andre matos, Edu Falaschi, “Jesus”… não aparecerem… ai fica complicado né.

  3. A idéia é Otima ,porém o Angra não gira em torno de Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt ..

    Como ja mencionaram acima ,se não tiver ,André Matos ,Luis Mariutti ,Edu Falaschi e Aquiles Priester ,e mesmo Fabio Laguna ,Fabio Ribeiro e Douglas las casas ,tudo isso será em vão , o Angra é maior que isso ,e todos tem que ser lembrados ..

    Abs;

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