Semicoisas, confissões e depois dos créditos

“Confissões de adolescente”, um original de Maria Mariana, fez-me pensar em um punhado de situações, coisas, memórias e afins.

Também no que vem depois dos créditos.

Normalmente, assim que o fim é ditado, levanto-me e saio abrindo a porta para a realidade. O que será que perdi?

Muito, talvez. Mas sei que depois das confissões ficarei até o fim mesmo depois das letras desaparecerem.

Esperarei até as luzes substituírem o escuro e vou certificar-me que não haverá nada a mais a ser revelado.

E o que justificou a permanência?

O luar, estrela do mar
O sol e o dom

O som da música de Djavan dividido em pequenos quadrados em que os atores cantavam a “Sina”, cada um do seu jeito.

Que gosto de cocada branca – pensei. Sem sentido, na superficialidade, mas a associação é originária do ímpeto e vou respeitá-lo.

No filme, a figura paterna faz uma relação entre bolinhas de sabão e o arrebatamento. Gosto de ambos.

E como tudo faz parte do todo, ao sair do cinema, fui ladeada por bolinhas de sabão que flutuavam. Eram de uma criança, mas as aceitei como minhas.

confissõesAssim, como os vinte anos que se passaram desde a série que assisti, enquanto adolescente.

Tudo mudou?

Aparentemente sim. A comunicação e o relacionamento são céleres e múltiplos. Mas o ímpeto persiste – apesar do tempo passado e do mundo de cabeça para baixo.

Como um morcego.

Confesso, e sem ser de uma adolescente, que às vezes sinto-me como um: cega e longínqua de uma sociedade de bytes e poucos olhares.

Quando penso em tudo isso, penso nas semicoisas.

Penso em:

Outras versões da verdade
Do outro lado do espelho
Outro dobro metade

Assim escreveu Paulinho Moska.

O outro lado do espelho existe e apesar da virtualidade, ainda somos humanos.

Provas? Tenho-as. Uma em especial que está recortada e colada em minha memória – como as imagens e frases de revista nos diários de papel.

Bianca, a mais contestadora das irmãs, mantém uma relação misteriosa que a leva a garantir a privacidade no banheiro de sua escola. A porta, assim como em outros tempos, tem inscrições, mensagens. E ela, de forma delicada, desenha folhas com sua canetinha verde em um tronco de galho seco – deixado por uma adolescente em conflito.

O outro dobro da metade se compôs com a natureza que de morta, se transforma em potência de vida – que pode florescer.

O outro dobro da metade é o que vem depois do crédito.

Para quem sabe esperar.

Mediadora de processos criativos. Gosta da experimentação, talvez por isso o primeiro título publicado “Laboratório do escritor”, premiado pelo PROAC em co-autoria.

6 thoughts on “Semicoisas, confissões e depois dos créditos

  1. Nossa! Viviane, tenho que confessar que fiquei arrepiado ao ler o seu texto (e você ainda colocou trechos de “Sina”, de Djavan que eu adorava na série que era cantada por Gilberto Gil) pois sou fã de “Confissões de Adolescente” desde o começo dos anos 90 (assisti o espetáculo em 1992, quando tinha 12 anos de idade, no teatro do SESC Santos e fiquei encantado com a história, com as confissões e com o talentoso elenco que contava com as atrizes Maria Mariana, Carol Machado, Ingrid Guimarães e Patrícia Perrone). Bem…eu também fiquei até o fim dos créditos e ao sair parece mesmo que se abre as portas da realidade. Eu acho que o filme conseguiu mostrar muito bem a “geração facebook”, mas mesmo revendo a série hoje, se percebe que continua atual, afinal, independente da tecnologia que os jovens tenham em mãos, os sentimentos, dilemas e conflitos são semelhantes, pois o ser humano não muda em sua essência. Viviane, parabéns pelo ótimo texto sobre esse belo filme. Abraços

  2. Ô, menina. Como voce escreve bem… solta, consegues ser objetiva e aleatória.
    Difícil acompanhar tua mente e ao mesmo tempo deliciosa.
    Sempre fiquei lendo, voando com os créditos para o teto do cinema e nunca me arrependi pois descobri nomes, autores, músicas, locais e até finais inesperados. Basta esperar, o luar, estrela do mar…

  3. Viviane, como sempre acontece após a leitura de suas reflexões observei quantas cenas não vi, quantos textos não ouvi, quanto da história contada deixei passar….. Essa idéia do “depois do crédito” sempre aparece quando assisto um filme mas confesso que nunca havia pensando como um momento tão importante.
    Gostei da adaptação e naturalmente fiz comparações à série original que assisti junto da minha filha adolescente…. “Depois dos créditos ” saí pensando e com dúvidas se minhas netas já poderiam ver o filme…
    Parabéns Viviane.

  4. Viviane,

    O filme não acabou …as percepções tem um novo sentido, pois ultrapassam o mais óbvio que é o agora, transmutam o tempo e dobram o espaço formando uma ponte entre o universo vivido e o universo querido. A habilidade de ver além é um exercício de constante transformação um ser eternamente dado ao que está sendo, com a fina e rara capacidade de construir o que será …
    Rica, inesperada, simples, e complexa é a palavra que que ali por vc está sendo, um convite que agrada o paladar dos curiosos e dos críticos mais aguçados.

    Parabéns

  5. Belo texto, Vivi, de uma sensibilidade ímpar. Um olhar totalmente novo e revelador sobre o aparentemente comum. Esta, para mim, a maior prova da qualidade artística. Parabéns!

    Bárbara

  6. Vivi!

    És mesmo uma mediadora de processos criativos, vejo que isso acontece o tempo todo e está presente aqui, na vontade que sentimos em compartilhar com você. Muito bacana!!!
    O mundo gira, novas tecnologias surpreendem, mas continuamos irremediavelmente humanos. Que bom!!
    Beijos com bolinhas de sabão…
    Fabi

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