Uma volta no shopping?

Os jovens aceleram os dedos que castigam as teclas. Endereço definido, data marcada, causas diluídas entre desejos e queixas.  Na rua, é fácil localizar os pares. Nomes e origens não representam nada. Não é novidade. Encontros assim existem há 20 anos, no mínimo.

A aparência e a motivação flexível os unem. Só assim podem ser julgados, pelos olhos de quem teme o que mal enxerga. Há um inimigo comum para os forasteiros: os símbolos que ostentam o que eles não podem ter ou o respeito com quem já obteve a etiqueta presa ao corpo.

No mundo historicamente separado por muros, estar junto sempre provoca reações negativas. Sacode o modelo mecânico, chacoalha as posições de sempre. À distância, as reações necessitam de rótulos. Escolhe-se um nome, alheio ao grupo de transgressores ou pinçado do linguajar deles. A segunda opção é sempre melhor, porque conecta mais uma característica de inferioridade social.

A leitura sobre aqueles que se aproximam é de um blockbuster hollywoodiano. É essencial estabelecer o bem e o mal. O certo e o errado. As regras do jogo à revelia de parte das peças. Individualiza-se a cidadania, como se isso fosse possível. E se fosse você?

O público e o privado se misturam. De quem é o espaço? A rua e o shopping pertencem à quem? Juridicamente, a clareza existe, mas os valores culturais – e o “estou pagando” – mastigam a letra jurídica. Valores culturais gritados pelo consumo. Os desejos são idênticos e não distinguem as classes descritas pelos téoricos. O número de prestações do cartão, idem.

Para sanar o impasse, convocam-se cassetetes, capacetes, gás e spray de pimenta. Porrada em quem pensa diferente e atrapalha o trânsito, de carros ou de pessoas. Seria tudo por 20 centavos? Ou seria por melhor infraestrutura? Sabem o que querem? Ou apenas querem exalar juventude e zoar?

Perdoe-me certo esvaziamento político até agora. É provocação. O jogo de palavras em torno do assunto esconde a ironia diante de tanta violência, tanto de quem participa como de quem assiste e não tolera.

A descrição acima, enfurecido leitor, pode nos levar aos protestos de junho – até a imprensa apanhar – e os rolêzinhos. São situações diferentes, com proporções distintas. Mas não deixam de esboçar a decadência do comodismo de muita gente, que esgarçou as amarras que silenciam as segregações das médias e grandes cidades.

A comparação apenas serve para nos alertar para um dos ensinamentos básicos da História: cautela. Não podemos nos sentar sobre a preguiça mental que nos conduz à leitura rasteira dos fatos. É preciso prudência para não se comprar a primeira versão embalada em títulos alarmantes.

Nem nos agarrarmos à soberba, mãe da intolerância, que nos permite classificar porque colocamos fatos e indivíduos em velhas gavetas, marcadas à fita com rótulos gastos. E muito menos nos deitarmos sobre a cama das certezas, que camufla a complexidade do mundo lá fora.

Vândalos, bandidos, baderneiros, filhos do rolêzinho e manifestantes à parte, a História nos ensina também a duvidar do absoluto, que nasce para ser reescrito. Desconfianças que geram novas perguntas e que nos deixam mais atentos aos sinais.

O tempo histórico – e os novos capítulos que vem de carona – pode fornecer maiores elementos que, contextualizados, indicam maior chance de entendimento. A ausência de tempo, sabe-se, é a arma de quem deseja manter tudo como está. Mata-se a reflexão e encarcera-se a perspectiva de mudança.

A dúvida adia a resposta empacotada e permite engrossar o caldo dos porquês. É a vacina que alivia as dores do preconceito e provoca anticorpos de cidadania. O rolêzinho seria um sintoma de novas surpresas sociais? Ou você acredita que é só um bando de bandidos a dar uma volta no shopping?

Marcus Vinicius Batista é jornalista e professor universitário. Adora escrever sobre histórias cotidianas e personagens anônimos. Escreve também sobre educação, política e futebol. É um goleiro mediano, leitor voraz e, paradoxalmente, sereno. Gosta de um bom cinema, que pode também ser um filme ruim. Apaixonado pela praia, pelo mar e por seus dois filhos, Mariana e Vinicius.

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