Once: porque os sonhos são mantras

Ela vende flores e revistas. Ele ajuda o pai consertando aspiradores de pó. O filme poderia ter apenas os dois personagens. Bastaria. “Once” tem um defeito: deveria ser infinitamente mais longo. A gente não quer que o filme acabe. É a mesma sensação que um bom romance causa quando a gente sente que se aproxima da última página. A história é suave e, apesar de classificado como drama, apresenta um frescor, uma esperança tímida e melodiosa.

Pelas ruas de Dublin e pela vida, encontros e desencontros. Nas horas vagas e para ganhar uns trocados, um músico toca suas composições. Passando por ali, uma imigrante tcheca é arrebatada pelas melodias e despenca na vida dele. A combinação entre os dois é perfeita. Parece que um consegue enxergar seus sonhos no outro ou, talvez, suas frustrações. Não somente as vozes se encaixam num casamento perfeito entre tenor e contralto, mas o amor pela arte da música também se funde.

Um filme que fala de amizade, parceria, sonhos adormecidos, decepções amorosas, fidelidade ao que se é de verdade.

“Once” é antiguinho, foi lançado em 2006, mas me arrebata todas as vezes a que me proponho a assistir. Ideal para ser apreciado agora, neste comecinho de ciclo, de ano, de vida. Sim, porque a vida pode recomeçar toda hora. Inclusive nesses primeiros dias de janeiro.

Classificar “Once” como um musical é recorrer a uma análise superficial demais. Preciso confessar que tenho um pouco de medo de musicais. Eu levo um baita susto quando, do nada, as pessoas fazem uma cara de não sei o quê e começam a cantar e dançar no filme. O pior vem depois quando eu também fico com vontade de cantar e dançar dentro do cinema. Confesso: eu fico nervosa com musicais.

A escolha da trilha sonora é sublime, com se fosse um folk irlandês, mesclado com pianos, violinos. Os duetos transportam você para algum penhasco mágico na Irlanda com o vento gelado batendo no rosto. O filme é tão encantador que Bob Dylan convidou Glen Hansard e Markéta Irglová (atores que interpretaram o casal de cantores-sonhadores no filme) a fazerem o show de abertura de sua turnê mundial.

Mas “Once” vai além porque fala de sonhos! Fala de potenciais. Fala daquilo que está guardado em nós, mesmo que disfarçado em atividades seculares no meio da multidão.

apenasumavezO filme ganhou o Oscar 2007 de Melhor Trilha Sonora, com a música “Falling Slowly”. Ganhou também o Festival de Sundance, em 2007, eleito como melhor filme pelo público.

Dirigido por John Carney, o enredo foi construído a partir das canções que aparecem no longa. Realmente, um jeito legal de fazer um filme! A parte que mais me emocionou foi quando eles descobrem a junção das vozes um do outro numa loja de instrumentos musicais. Aquele momento foi mágico.

“Once” nos faz sonhar, mesmo que a gente saiba que nem tudo dá certo o tempo todo. Enquanto termino este texto, duas coisas ficam pairando na minha mente sapeca: Todo ferrado precisa de um plano e a vida não passa de um grande sonho que é interrompido por outros pequenos sonhos. Como disse Schopenhauer: “Nós temos sonhos; não é talvez toda a vida um sonho?”.

Um beijo, Mô Amorim.

O filme integra o acervo da Vídeo Paradiso.

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