A terceira dimensão para além de uma gramática do óbvio ou pequenas considerações sobre o filme 3x3D

Enquanto não chega o cinema holográfico, os produtores do eixo Europa/EUA fazem usos distintos da tecnologia interativa dos óculos em 3D. Guimarães é uma cidade de Portugal que em seu aniversário decidiu festejar produzindo um filme em três episódios dirigido por Jean Luc Godard, Peter Greenaway e pelo cineasta português Edgar Pêra. Para nós parece completamente inusitado, seria como se a Prefeitura de Santos através de sua Secretaria de Cultura e em conjunto com sua Câmara Municipal produzisse um filme em 3D sobre a cidade em três episódios dirigidos por Wim Wenders, Werner Herzog e Julio Bressane. Precisamos aprender a superar a Europa e a dimensão do euro, não apenas pela mimese, mas pela invenção…

Voltando a falar do filme “3x3D”, o resultado  é desigual mas ainda assim instigante. Godard sem sair de seu léxico fílmico e dentro de sua cartografia de temas e ideias, constrói uma reflexão sobre a história do cinema dentro do contexto da história da arte e da política. Expõe um certo limite para o uso do 3D dentro do que ele chama de ditadura do digital e critica uma certa conciliação entre a violência nos filmes e nas políticas de Estado  dos países hegemônicos. Em alguns momentos podemos tirar os óculos e nada se perde no episódio de JLG.

Sobre os outros dois episódios, o de Peter Greenaway me pareceu uma profunda e exagerada confusão entre a superposição de conteúdos como uma ideia do barroco e o que o barroco é em si traduzido para a linguagem cinematográfica. Ainda assim, o episódio dele se revela  um bom jogo quase concreto de referências que em alguns momentos nega a narrativa clássica com enredo linear e opta por uma espécie de textura em movimento onde a câmera é usada para tecer uma espécie de passeio pelos signos e símbolos.

http://www.youtube.com/watch?v=4SgizuNa99w

O episódio de Edgar Pêra a meu ver se perde um pouco entre a pantomima teatral e uma ideia que beira o didático e nele se perde, a tentar realizar uma espécie de ensaio sobre os tipos de espectadores. Edgar consegue um resultado mediano para uma ótima ideia: a de contrapor os espectadores reais do cinema com os espectadores vistos em 3D de outro cinema, no caso um cinema de Guimarães, mas a ideia realmente se perde…

O uso do 3D tem obedecido a uma certa práxis da evasão e simulação do real, mais ou menos como na cultura das drogas que, embora poucos percebam, apesar de ser uma patologia, está totalmente inserida dentro da lógica do espetáculo e do entretenimento, do mesmo modo que Godard chama a atenção em seu filme justamente para isto, que existe uma ditadura do digital, existem relações entre as bases dessa ditadura e a outra ditadura que domina nossa época, a narcoditadura, mas isso mereceria um ensaio ou uma tese de fôlego de um Umberto Eco do século 21. Não sei se o filme vai entrar em cartaz em Santos, espero que entre…

Elogio ao Cine Arte Posto 4

cinearte

Um cinema de pequeno porte com programação de cineclube na praia seria um acontecimento em qualquer lugar do mundo, mas por trás dessa ideia que de fato se concretizou: existe um grande pensamento a respeito de um tipo de urbanismo para o século 21, o de que os grandes centros urbanos margeados pela potência natural, só podem ocupar estes espaços de potência natural com espaços adaptados para  um fim cultural-artístico no sentido imanente do termo.

O câncer do turismo de negócios do fatídico desenvolvimentismo só pode ser curado com a radiação do bem cultural acessivo a todos tendo como objetivo e como éticas o desenvolvimento da comunidade e não do corporativismo empresarial. Gosto da palavra acessibilidade e abomino a especulação imobiliária que vai na contramão da ideia de acessibilidade.

A consequência da construção de centenas de prédios em uma cidade que é margeada pela potência oceânica ou pela potência de um complexo ecossistêmico como a Serra do Mar é a degradação da vida que sofre uma verdadeira  ‘xangaizificação’, onde acontece uma inversão dos valores que possibilitam que  a vida em uma cidade seja  possível: ventilação,  luz, ar puro e espaço contemplativo, coisas que num futuro podem valer bem mais do que dinheiro.

Pois bem, a criação do Cine Arte Posto 4 está na contramão da ética empresarial e industrial do desenvolvimentismo. Foi um ato visionário que deve ser louvado por séculos e séculos: o único problema é que o cinema de praia que atende ao apelo humanístico de acessibilidade às obras  de real valor artístico produzidas pela cinema mundial é que ele se tornou um espaço cada vez mais acuado pelo poder  econômico da especulação imobiliária. Os prédios crescem e avançam em todas as direções como enormes gigantes filisteus e o cinema da praia fica encolhido em seu canto com cada vez menos espaço dentro do projeto de cidade, como um pequeno Davi  que ainda não encontrou sua funda. Existe  a lenda de um projeto que transforma a concha acústica em um extensão do Posto 4, mas isso não sai do papel. Uma ampliação é mais do que urgente. Projetos similares ao  do Posto 4 deveriam se espalhar por todas as cidades da região. O que podemos perceber é que pequenos milagres como o Posto 4 são parte de um programa de intervenção cultural permanente e não fruto de uma política de eventos descontinuada e fragmentada que é apenas um mero aparato para criar bases  hipnóticas de manutenção do poder visando única e exclusivamente a próxima eleição, sobre isso é essencial a leitura da série de romances  chamado “Os sonâmbulos”, de Hermann Broch.

Dois mil e catarse, o ano com seis meses e suas promessas de som sem fúria

Atenção! A Senzala geral continua. Não sou de fazer previsões, mas o devir é um vício… Nossa presidenta continuará segurando o fio de Ariadne, bem longe de ser uma mênade, eu  continuarei falando por metáforas, para  meus dois leitores e meio. O primeiro semestre do ano vence em maio, mais espaço e menos tempo e depois menos tempo e espaço neutro. Nos cinemas deve entrar em cartaz já no começo do ano “Ninfomaníaca”, o épico erótico-político de Lars Von Trier, sobre  corpo  como uma máquina com órgãos. Em suas mais de  quatro horas de duração divididas em dois filmes, será de longe o filme mais instigante do ano, depois de “Adeus à Linguagem”, de Jean Luc Godard. Por motivos que transcendem e muito o futebol eu quero que o Uruguai ganhe a copa! Falei da copa e das eleições e pronto. Aqui a perspectiva é totalmente século 19. Chegaremos até 2015 com a mesma noção vaga e infernal de nação, mas com alguns conceitos novos e várias chaves para uma mesma porta que só abre por dentro. Anotem na agenda: dia 25, às 17h, eu e o escritor Manoel Herzog falaremos sobre ‘Literatura, marginalidade e zonas de exclusão’ no Sesc Santos.

Dramaturgo, ensaísta, poeta e performer, autor dos livros “Me Enterrem com Minha AR-15” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2007), “Tratado dos Anjos Afogados” (Letraselvagem Edições, 2008), “O Céu no Fundo do Mar” (Coletivo Dulcinéia Catadora, 2009), “Conversas com Emily Dickinson e Outros Poemas” (Selo Orpheu, 2010), “Samba Coltrane” (Yi Yi Jambo Cartonera, 2010), “A Morte de Herberto Helder” (Sereia Cantadora, 2011) , “A Segunda Morte de Herberto Helder” (21 Gramas Edições-Curitiba, 2011) , "Cosmogramas" (Rubra Cartonera, 2012) e "Teatrofantasma ou O Doutor imponderável contra o onirismo groove" (Edições Caiçaras, 2012). É colunista dos sites CineZen, MUSA RARA, membro do Conselho editorial do Selo Rubra Cartonera e um dos editores da revista eletrônica Pausa.

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